O grande tuxaua das Onças - Auiató-pót - tinha uma filha - Iveroi - muito bonita, que ainda não se juntara com homem, porque seu pai comia todos os pretendentes.
O sapo Ó-óc, gostando muito da moça, disse à avó que ia partir e pedir Iveroi a Auiató-pót, para companheira.
A velha disse ao neto:
— Não vá, meu neto, que Auiató-pót te come. Ele comeu todos os homens que lhe foram pedir a filha para companheira.
— Ora, minha avó, eu gosto da moça e quero ser companheiro dela.
— Mas Auiató-pót é poderoso e muito ladino.
— Ladino eu também sou e conheço artes mágicas que o podem enganar e vencer.
— Então, meu neto, vai ... mas toma cuidado. O sapo Ó-óc foi.
Auiató-pót morava por cima da porta de casa e estava sempre vigiando a entrada.
O sapo Ó-óc sabia disso. E não foi logo entrando. Falou do meio do caminho, bem de longe.
— Auiató-pót, eu vim pedir tua filha para minha mulher.
— Entra, meu sobrinho, entra. Ela está na sala.
O sapo Ó-óc não entrou.
— Não quero entrar ainda, disse. Fico aqui mesmo. Iveroi pode ser minha companheira?
— Pode. Vai buscar minha filha lá dentro.
O grande tuxaua das Onças queria que o sapo Ó-óc passasse sob a bandeira da porta para saltar sobre ele e o comer.
O sapo Ó-óC sabia disso. Pediu, então, ao Vento levantasse a palha da casa. O Vento, que era amigo do Ó-óc suspendeu a palha e este saltou do caminho para o meio onde estava Iveroi.
Quando Auiató-pót viu o Sapo com a filha, perguntou admirado:
— Como foi que entraste, meu sobrinho?
— Pela porta.
— E eu não te vi!
— Você já não vê nada e nem tem forças contra mim. As minhas artes são mais fortes que as suas.
E o sapo Ó-óc dormiu com Iveroi.
No dia seguinte pediu o sapo ao Vento que soprasse e levantasse a palha da cobertura da casa.
O Vento assim fez e o sapo Ó-óc pulou do meio da sala para o caminho, defronte da porta onde estava o Grande Tuxaua das Onças.
E Auiató-pót, vendo-o ali, perguntou:
— Como foi que saíste da sala, meu filho, que eu nem te vi?
— Saí pela porta.
— Ánrepain! E eu nem te vi, meu sobrinho.
— Você já não vê nada nem tem forças contra mim. As minhas artes são mais fortes que as suas.
— Então vai buscar peixe para mim, no meu cuqui-uató (cesto para pegar peixe).
O sapo Ó-óc foi... Pôs o cuqui-uató n'água e esperou um pouco. Tirou-o em seguida, cheio de peixes, e levou para o Grande Tuxaua das Onças, atirando-lhe os peixes do meio do caminho, defronte da porta.
A Onça devorou todos os peixes.
— Ah! meu filho, ainda estou com fome. Quero mesmo experimentar se as tuas artes são fortes. Vai procurar no mato a minha bacabeira e pega todas as aves e pássaros que lhe comem os frutos. Quero comer todos eles, todos, todos.
O que o Grande Tuxaua das Onças queria era comer o sapo Ó-óc. Quando descesse da bacabeira, Auiató-pót saltaria em cima dele e o comeria.
O sapo Ó-óc sabia disso, mas pôs-se a caminho — na direção da palmeira.
E aos passarinhos, que ia encontrando, pedia que o avisassem da vinda de Auiató-pót. Depois, quando já estava perto do Tejuco, pediu a este que o avisasse também. E assim que chegou junto à bacabeira, foi trepando logo, depressa.
Lá em cima quebrou um pedaço de galho, soprou sobre ele, fazendo uma arte. E o pau virou papagaio.
Mal fez isso, um passarinho cantou: piri-ri-rií-piri-rim!
E o Tejuco, ao mesmo tempo, fez: curumun-môn-môn! Era o Grande Tuxaua da Onças que se pusera aos pés da bacabeira.
— Já pegou algum pássaro? perguntou ele ao sapo Ó-óc.
— Ahn ... Já tem um. Espere um pouco, que eu vou jogar um pássaro mais leve.
Soprou sobre outro pedaço de pau e preparou um breu muito pegajoso e muito forte. E disse a Auiató-pót:
— Apare o papagaiozinho. Ainda está vivo. Cuidado! Apare o papagaiozinho e aperte bem as mãos para ele não fugir.
O sapo Ó-óc jogou-lhe um pedaço de breu, e Auiató-pót o apertou entre as mãos, com força e cuidado.
E ficou com as mãos pegajosas de breu.
O sapo Ó-óc aproveitou estar a Onça esforçando-se em limpar as mãos daquele breu pegajoso para descer da bacabetra e fugir.
O Grande Tuxaua das Onças ficou esfregando as mãos no chão.
(É por isso que a Onça tem as palmas das mãos limpas.)
Mas, assim que as viu sem breu, a Onça correu atrás Sapo.
O sapo Ó-óc encontrou-se, no meio do caminho, com um bando de mulheres.
Entre elas ia uma antiga companheira do Sapo. O Sapo pediu-lhe que o escondesse.
Ela disse que não o esconderia, porque estava zangada. A irmã dela, porém, aconselhou:
— Esconde o Ó-óc, minha irmã, porque esse homem sabe artes mágicas e pode depois vingar-se.
A antiga companheira de Ó-óc consentiu em escondê-lo. O sapo Ó-óc subiu-lhe pelas pernas para se esconder na virilha dela, mas não quis porque fedia muito.
Subiu para o sovaco, mas não quis porque o sovaco de também fedia.
E foi esconder-se no cangote dela, debaixo do cabelo prevenindo-a de que Auiató-pót já estava para chegar e que as mulheres não deviam dizer onde estava escondido.
A Onça chegou até perto das mulheres, pois vinha contando os rastros do Sapo. E, ao dar com elas, admirou-se de não encontrar mais os rastros, de terem acabado ali os rastros e não aparecer o Sapo.
— Onde está o sapo Ó-óc?
A antiga companheira do Sapo disse que não sabia.
O Grande Tuxaua das Onças perguntou às outras mulheres. Nenhuma outra o havia visto.
Auiató-pót disse que ia contar de novo os rastros do sapo Ó-óc e que, ao chegar junto a elas, se não o encontrasse, comeria todas, todas.
Quando Auiató-pót se afastou o Sapo disse à companheira:
— Antes dele chegar vocês vão pôr esta pedra no fogo. (E vomitou uma pedra.) E quando ele, não me encontrando, disser que vai comer vocês todas, você perguntará: com que boca? Ele dirá: Com esta. Então você pedirá que ele abra bem a boca. E, quando ele abrir a boca você jogará a pedra, que já estará bem quente, dentro da boca de Auiató-pót.
Mal havia acabado de falar, chegou Auiató-pót, contando os rastros do Sapo, e parando junto à sua antiga companheira:
— Onde está o sapo Ó-óc?
— Não está aqui. Ninguém o viu.
— Como é que os rastros dele pararam aqui? Eu vou comer vocês todas.
— Com que boca? perguntou a moça.
— Com esta aqui, respondeu-lhe Auiató-pót.
— Com esta? Então abre bem essa boca para nós vermos.
Auiató-pót escancarou a boca.
A mulher, que já havia tirado a pedra do fogo e a escondera perto, apanhou-a e jogou-a dentro da boca escancarada de Auiató-pót.
Auiató-pót engoliu a pedra quente e morreu.
Mas, quando estava pulando de um lado para outro, o sapo Ó-óc saltou do cangote da mulher, quebrou um galho de taperebá para o acabar de matar.
O Sapo arrastou o cadáver da Onça até o rio; e o cadáver virou Jacaré.
E Ó-óc foi dormir com Iveroi.
Esse Jacaré, desde aquele dia, começou a comer gente.
Ninguém, vendo-o, sabia o que estava no porto. Não conheciam o Jacaré.
Então, chamaram os bichos para saber se conheciam o Jacaré.
Nenhum deles o conhecia. Chamaram o Tucano Grande.
O Tucano Grande disse:
— Eu já vi esse bicho, mas não me lembro mais dele: êm-êm.
E, por isso, até hoje, quando o Tucano canta, está sempre dizendo: êm-êm, que não conhece o Jacaré.
Chamaram o pássaro Pêrêtém-im. Também ele não se lembrava de ter visto o Jacaré. Nem o conhecia.
E, por isso, até hoje, o Pêrêitém-im está cantando como o Tucano Grande: êm-êm.
Chamaram o sapo Ó-óc, irmão do companheiro de Iveroi. O sapo Ó-óc disse:
— Então vocês não estão vendo? Este bicho é o Grande Tuxaua das Onças que o Ó-óc, companheiro de Iveroi, virou, por artes mágicas, em Jacaré, dando no cadáver dele com um pedaço de taperebá. E ele come gente como Auiató-pót. Este bicho é o Jacaré.
E voltou para casa.
E o sapo Ó-óc, sabendo que o irmão havia ensinado aos outros bichos que aquele era o Jacaré, chamou a mulher Iveroi, e disse-lhe:
— Olha, minha mulher, agora é melhor que você vá viver com meu irmão, porque você já sabe que eu matei seu pai, e um dia você poderá querer me matar. Vá viver com meu irmão.
A mulher foi viver com o outro sapo Ó-óc.
O Sapo ficou com ela. O primeiro sapo Ó-óc ficou sem mulher.
Um dia Iveroi pediu ao seu companheiro que a deixasse ir ver o Jacaré.
O Sapo não achou bom e disse-lhe que não fosse ao porto dos Muricariua, porque os Muricariua, tios dela, eram feiticeiros maus.
A mulher teimou em ir ver o Jacaré. E foi.
Ao chegar ao porto dos Muricariua, foi-lhes dizendo:
— Vim dançar com vocês, meus tios.
- Pois dança, minha sobrinha.
Iveroi pôs-se a dançar no meio da sala.
E logo um dos tios a "flechou", enfeitiçando-a.
Depois, outro tio fez o mesmo; enfim todos os tios a enfeitiçaram.
Iveroi caiu morta ali mesmo.
Do corpo dela os seus tios Muricariua fizeram a Mandioca.
Como a primeira Mandioca não tivesse tapioca, fizeram Tapioca do corpo do filho, que ela já trazia na barriga.
Depois fizeram o primeiro tarubá.
No dia em que os Muricariua beberam o primeiro tarubá nasceram todos os bichos da terra dos maué.
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