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Estória da mandioca

Colhida por Nunes Pereira entre os índios maué

O grande tuxaua das Onças - Auiató-pót - tinha uma filha - Iveroi - muito bonita, que ainda não se juntara com homem, porque seu pai comia todos os pretendentes.

O sapo Ó-óc, gostando muito da moça, disse à avó que ia partir e pedir Iveroi a Auiató-pót, para companheira.

A velha disse ao neto:

— Não vá, meu neto, que Auiató-pót te come. Ele comeu todos os homens que lhe foram pedir a filha para companheira.

— Ora, minha avó, eu gosto da moça e quero ser companheiro dela.

— Mas Auiató-pót é poderoso e muito ladino.

— Ladino eu também sou e conheço artes mágicas que o podem enganar e vencer.

— Então, meu neto, vai ... mas toma cuidado. O sapo Ó-óc foi.

Auiató-pót morava por cima da porta de casa e estava sempre vigiando a entrada.

O sapo Ó-óc sabia disso. E não foi logo entrando. Falou do meio do caminho, bem de longe.

— Auiató-pót, eu vim pedir tua filha para minha mulher.

— Entra, meu sobrinho, entra. Ela está na sala.

O sapo Ó-óc não entrou.

— Não quero entrar ainda, disse. Fico aqui mesmo. Iveroi pode ser minha companheira?

— Pode. Vai buscar minha filha lá dentro.

O grande tuxaua das Onças queria que o sapo Ó-óc passasse sob a bandeira da porta para saltar sobre ele e o comer.

O sapo Ó-óC sabia disso. Pediu, então, ao Vento levantasse a palha da casa. O Vento, que era amigo do Ó-óc suspendeu a palha e este saltou do caminho para o meio onde estava Iveroi.

Quando Auiató-pót viu o Sapo com a filha, perguntou admirado:

— Como foi que entraste, meu sobrinho?

— Pela porta.

— E eu não te vi!

— Você já não vê nada e nem tem forças contra mim. As minhas artes são mais fortes que as suas.

E o sapo Ó-óc dormiu com Iveroi.

No dia seguinte pediu o sapo ao Vento que soprasse e levantasse a palha da cobertura da casa.

O Vento assim fez e o sapo Ó-óc pulou do meio da sala para o caminho, defronte da porta onde estava o Grande Tuxaua das Onças.

E Auiató-pót, vendo-o ali, perguntou:

— Como foi que saíste da sala, meu filho, que eu nem te vi?

— Saí pela porta.

Ánrepain! E eu nem te vi, meu sobrinho.

— Você já não vê nada nem tem forças contra mim. As minhas artes são mais fortes que as suas.

— Então vai buscar peixe para mim, no meu cuqui-uató (cesto para pegar peixe).

O sapo Ó-óc foi... Pôs o cuqui-uató n'água e esperou um pouco. Tirou-o em seguida, cheio de peixes, e levou para o Grande Tuxaua das Onças, atirando-lhe os peixes do meio do caminho, defronte da porta.

A Onça devorou todos os peixes.

— Ah! meu filho, ainda estou com fome. Quero mesmo experimentar se as tuas artes são fortes. Vai procurar no mato a minha bacabeira e pega todas as aves e pássaros que lhe comem os frutos. Quero comer todos eles, todos, todos.

O que o Grande Tuxaua das Onças queria era comer o sapo Ó-óc. Quando descesse da bacabeira, Auiató-pót saltaria em cima dele e o comeria.

O sapo Ó-óc sabia disso, mas pôs-se a caminho — na direção da palmeira.

E aos passarinhos, que ia encontrando, pedia que o avisassem da vinda de Auiató-pót. Depois, quando já estava perto do Tejuco, pediu a este que o avisasse também. E assim que chegou junto à bacabeira, foi trepando logo, depressa.

Lá em cima quebrou um pedaço de galho, soprou sobre ele, fazendo uma arte. E o pau virou papagaio.

Mal fez isso, um passarinho cantou: piri-ri-rií-piri-rim!

E o Tejuco, ao mesmo tempo, fez: curumun-môn-môn! Era o Grande Tuxaua da Onças que se pusera aos pés da bacabeira.

— Já pegou algum pássaro? perguntou ele ao sapo Ó-óc.

— Ahn ... Já tem um. Espere um pouco, que eu vou jogar um pássaro mais leve.

Soprou sobre outro pedaço de pau e preparou um breu muito pegajoso e muito forte. E disse a Auiató-pót:

— Apare o papagaiozinho. Ainda está vivo. Cuidado! Apare o papagaiozinho e aperte bem as mãos para ele não fugir.

O sapo Ó-óc jogou-lhe um pedaço de breu, e Auiató-pót o apertou entre as mãos, com força e cuidado.

E ficou com as mãos pegajosas de breu.

O sapo Ó-óc aproveitou estar a Onça esforçando-se em limpar as mãos daquele breu pegajoso para descer da bacabetra e fugir.

O Grande Tuxaua das Onças ficou esfregando as mãos no chão.

(É por isso que a Onça tem as palmas das mãos limpas.)

Mas, assim que as viu sem breu, a Onça correu atrás Sapo.

O sapo Ó-óc encontrou-se, no meio do caminho, com um bando de mulheres.

Entre elas ia uma antiga companheira do Sapo. O Sapo pediu-lhe que o escondesse.

Ela disse que não o esconderia, porque estava zangada. A irmã dela, porém, aconselhou:

— Esconde o Ó-óc, minha irmã, porque esse homem sabe artes mágicas e pode depois vingar-se.

A antiga companheira de Ó-óc consentiu em escondê-lo. O sapo Ó-óc subiu-lhe pelas pernas para se esconder na virilha dela, mas não quis porque fedia muito.

Subiu para o sovaco, mas não quis porque o sovaco de também fedia.

E foi esconder-se no cangote dela, debaixo do cabelo prevenindo-a de que Auiató-pót já estava para chegar e que as mulheres não deviam dizer onde estava escondido.

A Onça chegou até perto das mulheres, pois vinha contando os rastros do Sapo. E, ao dar com elas, admirou-se de não encontrar mais os rastros, de terem acabado ali os rastros e não aparecer o Sapo.

— Onde está o sapo Ó-óc?

A antiga companheira do Sapo disse que não sabia.

O Grande Tuxaua das Onças perguntou às outras mulheres. Nenhuma outra o havia visto.

Auiató-pót disse que ia contar de novo os rastros do sapo Ó-óc e que, ao chegar junto a elas, se não o encontrasse, comeria todas, todas.

Quando Auiató-pót se afastou o Sapo disse à companheira:

— Antes dele chegar vocês vão pôr esta pedra no fogo. (E vomitou uma pedra.) E quando ele, não me encontrando, disser que vai comer vocês todas, você perguntará: com que boca? Ele dirá: Com esta. Então você pedirá que ele abra bem a boca. E, quando ele abrir a boca você jogará a pedra, que já estará bem quente, dentro da boca de Auiató-pót.

Mal havia acabado de falar, chegou Auiató-pót, contando os rastros do Sapo, e parando junto à sua antiga companheira:

— Onde está o sapo Ó-óc?

— Não está aqui. Ninguém o viu.

— Como é que os rastros dele pararam aqui? Eu vou comer vocês todas.

— Com que boca? perguntou a moça.

— Com esta aqui, respondeu-lhe Auiató-pót.

— Com esta? Então abre bem essa boca para nós vermos.

Auiató-pót escancarou a boca.

A mulher, que já havia tirado a pedra do fogo e a escondera perto, apanhou-a e jogou-a dentro da boca escancarada de Auiató-pót.

Auiató-pót engoliu a pedra quente e morreu.

Mas, quando estava pulando de um lado para outro, o sapo Ó-óc saltou do cangote da mulher, quebrou um galho de taperebá para o acabar de matar.

O Sapo arrastou o cadáver da Onça até o rio; e o cadáver virou Jacaré.

E Ó-óc foi dormir com Iveroi.

Esse Jacaré, desde aquele dia, começou a comer gente.

Ninguém, vendo-o, sabia o que estava no porto. Não conheciam o Jacaré.

Então, chamaram os bichos para saber se conheciam o Jacaré.

Nenhum deles o conhecia. Chamaram o Tucano Grande.

O Tucano Grande disse:

— Eu já vi esse bicho, mas não me lembro mais dele: êm-êm.

E, por isso, até hoje, quando o Tucano canta, está sempre dizendo: êm-êm, que não conhece o Jacaré.

Chamaram o pássaro Pêrêtém-im. Também ele não se lembrava de ter visto o Jacaré. Nem o conhecia.

E, por isso, até hoje, o Pêrêitém-im está cantando como o Tucano Grande: êm-êm.

Chamaram o sapo Ó-óc, irmão do companheiro de Iveroi. O sapo Ó-óc disse:

— Então vocês não estão vendo? Este bicho é o Grande Tuxaua das Onças que o Ó-óc, companheiro de Iveroi, virou, por artes mágicas, em Jacaré, dando no cadáver dele com um pedaço de taperebá. E ele come gente como Auiató-pót. Este bicho é o Jacaré.

E voltou para casa.

E o sapo Ó-óc, sabendo que o irmão havia ensinado aos outros bichos que aquele era o Jacaré, chamou a mulher Iveroi, e disse-lhe:

— Olha, minha mulher, agora é melhor que você vá viver com meu irmão, porque você já sabe que eu matei seu pai, e um dia você poderá querer me matar. Vá viver com meu irmão.

A mulher foi viver com o outro sapo Ó-óc.

O Sapo ficou com ela. O primeiro sapo Ó-óc ficou sem mulher.

Um dia Iveroi pediu ao seu companheiro que a deixasse ir ver o Jacaré.

O Sapo não achou bom e disse-lhe que não fosse ao porto dos Muricariua, porque os Muricariua, tios dela, eram feiticeiros maus.

A mulher teimou em ir ver o Jacaré. E foi.

Ao chegar ao porto dos Muricariua, foi-lhes dizendo:

— Vim dançar com vocês, meus tios.

- Pois dança, minha sobrinha.

Iveroi pôs-se a dançar no meio da sala.

E logo um dos tios a "flechou", enfeitiçando-a.

Depois, outro tio fez o mesmo; enfim todos os tios a enfeitiçaram.

Iveroi caiu morta ali mesmo.

Do corpo dela os seus tios Muricariua fizeram a Mandioca.

Como a primeira Mandioca não tivesse tapioca, fizeram Tapioca do corpo do filho, que ela já trazia na barriga.

Depois fizeram o primeiro tarubá.

No dia em que os Muricariua beberam o primeiro tarubá nasceram todos os bichos da terra dos maué.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.718-723)

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