Um dia a Surucucu se pôs a pensar na vida.
Todo o mundo a acusava de ser venenosa. Só ela estava na terra para picar a gente, matar ou aleijar.
A Surucucu sentia-se muito infeliz.
Por isso foi à casa do sapo Tarô-bequê que, vendo-a triste, perguntou:
— Que é que você tem? Por que está com essa cara?
— Ora, eu estou triste porque, pensando na minha vida, vejo que só a mim acusam de ser venenosa e causar a morte de tanta gente destas terras.
Tarô-bequê, com malícia, perguntou à cobra:
— E não é verdade? E tu não és mesmo venenosa? A tua picada não mata a gente?
— Não sou. O que mata a gente é o medo. E posso provar o que estou dizendo. Vamos andar por aí.
O Tarô-bequê saiu de casa com a Surucucu. Andaram, andaram, andaram.
Já à tardinha chegaram perto de umas casas. A cobra disse ao sapo:
— Vamos esconder-nos naquela moita, na beira do terreiro. E ali esperaremos que alguém venha mijar. Então eu picarei o homem, a mulher ou a criança. Depois, eu me esconderei, de novo. E tu, depressa, correrás para perto da pessoa que eu picar.
O sapo concordou. Esperaram, esperaram.
Mal escureceu saiu de uma casa, perto da moita onde os dois estavam escondidos, um homem que ia deitar-se cedo.
E esse homem, de costas para a moita, mijou, mijou, mijou.
A Surucucu então deu o bote e o picou no calcanhar.
O homem deu um salto, pondo-se a gritar e correndo para dentro da casa:
— Fui picado por uma cobra! Fui picado por uma surucucu! Vão ver a cobra! Matem, matem!
Os homens da casa acenderam turis nas fogueiras de debaixo das redes.
E saíram para o terreiro à procura da Surucucu. Deram com o Sapo Tarô-bequê que deles fugia aos pulos.
— Vejam! Não foi cobra que o picou. Foi aquele sapo.
Voltaram para casa e disseram ao homem e às mulheres que o cercavam:
— Não vimos nenhuma cobra. Só encontramos um sapo que fugiu para uma moita.
O homem calou-se no fundo da rede.
E todos se deitaram de novo. E dormiram tranqüilos. E o homem também dormiu.
A Surucucu, saindo da moita com o Sapo Tarô-bequê, disse:
— Viste? Piquei aquele homem no calcanhar e ele não morreu.
O Tarô-bequê, com malícia, disse:
— É verdade ... Mas ... hum ... hum ...
A Surucucu lhe disse:
— Não acreditas? Tu mesmo não viste e ouviste? Vou provar-te mais uma vez o que falei. É o medo que mata e não o meu veneno. Vamos andar por aí.
Foram.
Chegando perto de outras casas, quando o dia não clareara de todo, saiu uma mulher para o terreiro. Agachou-se e mijou, mijou, mijou.
A cobra mandou o sapo morder a perna da mulher. O sapo fez. A mulher deu um salto. E, como combinou com a cohra, o sapo se escondeu por ali. E a cobra apareceu diante da mulher que se pusera a gritar:
— Fui picada por uma cobra! Fui picada por uma Surucucu! Eu vi a cobra. Corram, corram! Matem a cobra, matem!
Os homens da casa vieram ver a cobra. E com eles veio o marido daquela mulher. E deram com a surucucu que ia fugindo no rumo do cerrado.
Correram atrás da cobra. Jogaram-lhe em cima pedaços de paus e cacos de panelas que apanharam no terreiro. E um disparou uma flecha que nem lhe tocou a cabeça.
Mas todos, voltando para casa, disseram que só haviam encontrado um sapo.
— Não foi cobra. Foi um sapo, confirmou o marido, que te espantou.
A mulher se pôs a gritar e a gemer. E tremia da cabeça aos pés.
E pouco depois morreu.
A Surucucu, encontrando-se mais adiante com o Sapo Tarô-bequê, assim falou:
— Eu não te disse? Foste tu que bateste na perna daquela mulher. E ela logo me acusou. E depois morreu. Mas não morreu do teu veneno nem do meu. Morreu de medo.
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