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Estórias de Poromina Minare

Antigamente, contam os velhos, morava nestas terras uma moça muito bonita, chamada Poromina.

Vivia sozinha e vários bichos queriam casar-se com ela.

O Mucura Grande era quem mais a perseguia, mas também o Mucura Poácare a cobiçava.

Poromina não gostava do Mucura Grande, porque fedia muito, mas gostava muito de Poácare.

O Mucura Grande, porém, a todo instante, a qualquer desejo da moça, corria a carregar lenha, a buscar água, a fazer fogo.

Mal Poromina se levantava, para fazer isto ou aquilo, o Mucura se adiantava e dizia-lhe:

— Deixa que eu vou buscar.

Um dia o Poácare foi à casa da moça e perguntou-lhe se queria casar com ele.

A moça disse que sim.

E estavam combinando como se casariam, quando o Mucura Grande, ao cruzar o caminho da casa de Poácare e Poromina, viu o rastro do rival, indo na direção da casa da moça.

O Mucura Grande correu e foi esconder-se por detrás da casa da moça.

Dali ouviu a conversa de Poromina e Poácare. O Poácare dizia:

— Quando fores para minha casa repara na encruzilhada dos nossos caminhos. No caminho do Mucura Grande vou espetar algumas penas do rabo de arara. No meu caminho vou espetar penas de fodori.

Assim que o Mucura Grande ouviu esse acordo, deu volta à casa e foi esperar Poácare perto da encruzilhada, para ver como o seu rival espetaria as penas de arara e fodori.

E pôde ver o que Poácare fez.

Depois que este se afastou, o Mucura Grande trocou as penas espetando as de fodori no seu caminho e as de arara no caminho de Poácare.

Mais tarde Poromina deixou a sua casa em direção à casa de Poácare.

Ao chegar à encruzilhada a moça ficou indecisa, porém logo tomou o caminho que levava à casa da mãe do Mucura Grande.

Chegando à casa da mãe do Mucura Grande, Poromina reconheceu que se enganara.

E quis sair daquela casa.

Já ia fugindo, quando a mãe do Mucura Grande a viu e não deixou que ela fosse embora.

E a velha dizia:

— Ah! Como é bonita a moça que meu filho escolheu para sua mulher!

Abraçou a moça e depois foi lhe mostrar um monte de ananases e uma capoeira cheia de galinhas que o Mucura havia roubado.

E, para entreter a moça, mandou que ela descascasse os ananases e os ralasse para mingau.

Entregou-lhe uma faca.

A moça descascou os ananases e depois ralou as fatias.

Nisso chegou o Mucura e correu a abraçar a moça.

Poromina fugia aos abraços do Mucura, afastando-o, enojada, porque o bicho fedia muito.

Os companheiros do Mucura, que o estavam ajudando na derrubada de uma roça, foram chegando e viram o Mucura perseguindo a moça, e esta sempre fugindo aos seus abraços.

A velha tratou de preparar comida para aqueles companheiros do Mucura e para Poromina.

Comeram.

E, depois do almoço, o Mucura continuou a perseguir a moça, querendo abraçá-Ia e arrastá-la para a rede.

Poromina estava sempre fugindo dele, afastando-o, enojada, rque o bicho era muito fedorento.

Teimando sempre em abraçar a moça e deitar-se com ela, Mucura não queria voltar mais para o trabalho na roça.

Mas os companheiros o estavam chamando sem cessar.

— Vamos! Vamos embora! Vamos trabalhar, Mucura!

O Mucura não queria afastar-se de perto da moça.

Afinal, constrangido, acompanhou a gente que o estava ajudando a fazer a roça.

A moça e a velha ficaram sozinhas.

A moça estava triste, pensando sempre em fugir. Disse à velha que ia lavar o ralo na beira da rio.

A velha deixou Poromina ir. E Poromina assim que se viu longe da velha fugiu pelo mato e correu pelo caminho que levava à casa de Poácare.

Ali, sentada numa rede, ficou à espera do companheiro. Poácare não tardou. Estava ajudando o Mucura Grande, mas, assim que acabou, correu para casa.

O Mucura Grande, também, já tinha voltado para casa, onde não encontrou Poromina e soube que ela havia fugido.

O Mucura desconfiou lago que Poromina tinha ido para a casa de Poácare.

E correu para lá.

Encontrou Poácare e Poromina embalando-se na rede. Vendo o Mucura, os dois se levantaram.

O Mucura quis abraçar a moça, mas essa correu para Poácare, dizendo:

— Tu é que és meu marido.

O Mucura ouviu isso. E viu, já de noite, que os dois se deitaram na rede.

O Mucura subiu para o travessão., bem por cima da rede de Poácare.

Estendeu-se ali e ficou, de cabeça para baixo, espiando o que os dois estavam fazendo.

(É por isso que o Mucura tem os olhos salientes e o focinho comprido.)

Depois, quando Poromina e Poácare dormiram, o Mucura arregalou mais os olhos e estendeu mais o pescoço, porque a mulher adormecera de pernas abertas.

O Mucura, então, por vingança cuspiu no sexo de Poromina.

(É por isso que todo sexo de mulher fede.)

No outro dia o Mucura não quis afastar-se da moça, passando toda a noite estendido no travessão.

Tudo o que Poromina queria, ele ia buscar antes de Poácare fazê-lo.

Então Poromina disse ao marido que convidasse todos os bichos que sobem às árvores e delas descem de cabeça para baixo.

E Poácare fez como Poromina lhe dissera. E a todos os convidados dizia que a dabacuri seria de bacaba.

Na dia combinado vieram a Onça, a Maracajá, o Tamanduá, o Quati, o Quatipuru e o lagarta Jacruaru.

O Mucura, não sabendo descer de cabeça para baixo, viu logo que não podia acompanhar os outros bichos até o sítio onde apanhariam bacaba.

Mas foi, assim mesmo.

Os outros bichos subiram à bacabeira, e lá de cima, foram descendo de cabeça para baixo, carregando cachos de bacaba às costas.

O Mucura quis fazer o mesmo. Pôs um cacho pesado de bacaba às costas e procurou descer.

Mas tonteou e caiu do alto da palmeira.

E o cacho de bacaba que trazia às costas o enterrou no chão.

Poácare correu, foi buscar um cacete, e aconselhado pelos seus companheiros, deu com ele no Mucura.

Os bichos diziam:

— Bate mais, bate mais, porque ainda está vivo. Corta a cabeça dele, para que morra de uma vez.

Poácare disse que não era mais preciso: que o bicho já estava bem morto.

Os seus companheiros diziam:

— Não está. Mucura é bicho que custa a morrer, djsse o Quatipuru.

Poácare pegou o Mucura pela cauda, deu com a cabeça dele no tronco da palmeira e a atirou na cerrado.

E todos voltaram para a casa de Poácare, pois tinham de fazer um dabacuri.

Fizeram o dabacuri. Comeram. Beberam. Dançaram muito.

Três dias depois da festa, Poromina e Poácare estavam sentados defronte da porta da casa, no terreiro, quando viram que o Mucura aparecia caminhando devagar, de cabeça baixa, envolvida numa faixa de tururi.

E passou por eles gemendo, sem parar, de cabeça baixa.

Muito tempo depois Poromina ficou prenha. E Poácare só andava pelos matos, procurando coisas gostosas que ela desejava.

Foi assim que encontrou num poço de igarapé muitos pirámirim, bonitos e gostosos de comer.

Poácare voltou para casa e contou à mulher que havia encontrado aqueles peixinhos e não tardaria que eles saíssem para o rio Negro.

Combinaram, pois, que, logo no outro dia, iriam ao poço do igarapé apanhar peixinhos.

De manhãzinha, Poácare e a mulher foram, levando puçás matapis e aturás para apanhar e trazer os peixinhos.

Mas, como os peixinhos eram muito ariscos, Poácare deixou Poromina ali e foi apanhar folhas e raízes de cunambi para tinguijar a água do poço.

Voltou para junto da mulher, depois, machucou as folhas e pisou raízes de cunambi, jogando tudo n'água.

Não tardou que fossem aparecendo à tona d'água alguns peixinhos, de todas as cores, alguns ainda vivos e outros já mortos.

Poácare ia apanhá-los com puçás, quando ouviu barulho de gente que se dirigia para o poço do igarapé.

E no meio de vozes, de bater de pés ele também ouviu sons de instrumentos de Jurupari.

Poromina baixou a cabeça, tapou os ouvidos e disse:

— É o Mucura e a gente dele que vem nos matar. Então Poácare mandou que Poromina se escondesse no tubo de sua sarabatana.

A mulher fez.

Poácare encostou a sarabatana a uma árvore perto.

E tratou de apanhar os peixinhos que boiavam tontos do leite de cunambi na água do poço e do igarapé.

Nisso os inimigos de Poácare — o Mucura e sua gente, chegaram e foram logo rodeando o pescador. Alguns puseram-se a tocar os instrumentos de Jurupari que traziam. E outros dançavam. Um dos dançarinos perguntou a Poácare:

— Onde está Poromina?

— Não está aqui, respondeu Poácare.

— Está sim, disseram outros dançarinos.

— Não está, disse Poácare, de novo.

— Está aqui, disse um dos dançarinos, está aqui dentro desta sarabatana.

E bateu com a sarabatana no tronco de uma árvore.

De dentro da sarabatana saltou Poromina e foi cair mesmo na água do poço.

Os inimigos de Poácare pularam n'água do poço e ali mesmo a esquartejaram.

Depois fizeram o mesmo com Poácare.

Quando abriram a barriga de Poromina os matadores não viram que lhe saltara de dentro um menino.

E essa criança logo se agarrou ao peito do Iauaca-Kiiua que a escondeu dos matadores de Poromina e Poácare.

Um desses matadores, porém, disse:

— Ouvi falar que Poromina estava prenha. Vocês a mataram e não lhe mataram o filho?

— Não vimos nenhuma criança, disseram todos.

— Ela estava prenha. Procurem a criança.

E pularam de novo n'água. E procuraram, procuraram. Deram com o Iauaca-kiiua que ia por ali. E perguntaram se ele não tinha visto uma criança.

O Iauaca-kiiua havia escondido a criança, mas disse que não a vira.

E mentiu mais, dizendo que estava procurando a criança para a matar e lhe beber o sangue, como bebera o sangue de Poácare e Poromina, que tingira as águas do poço e de todo igarapé.

Os matadores foram embora, cantando e dançando. Então o Iauaca-kiiua, tirando a criança do esconderijo, a levou para as cabeceiras do igarapé.

Lá encontrou a Cutia — mãe velha de todas as Cutias —, e estava apanhando camarões nas águas do igarapé.

O Iauaca-kiiua pediu à Cutia velha que ficasse com aquela criança e a criasse.

A Cutia ficou com a criança. O Iauaca-kiiua foi embora para a boca do igarapé.

A Cutia velha não dava, porém, muita comida ao filho de Poromina e Poácare.

Pegava camarões, cozinhava-os. Os camarões ficavam vermelhos, vermelhos. E a Cutia dizia à criança que aquilo era pimenta. E só lhe dava tucupi com caldo da casca de camarões.

A Cutia velha comia sozinha toda a carne dos camarões. Um dia a criança não pôde mais. E queixou-se de fome. A velha disse que iria arranjar beijus para lhe matar a fome. A Cutia foi ao mato e apanhou um bocado de urupês do tronco de uma árvore.

Ao chegar em casa cozinhou os camarões, pôs caldo deles numa vasilha e entregou à criança os urupês, dizendo-lhe:

— Come o teu beiju.

O menino procurou embeber os urupês no caldo de camarões para os amolecer, porque eles estavam secos e duros.

O menino se queixou de fome.

No outro dia a Cutia velha lhe disse:

— Vou arranjar mandioca para o nosso tucupi, porque já acabou o que eu tinha.

Saiu e foi à roça de um homem, bem perto de sua casa. Ali desenterrou as raízes de mandioca e fugiu para casa. O homem chegou para ver a sua roça e achou os buracos vazios. E falou muito zangado:

— Há uma Cutia que invade a minha roça e rouba sempre minhas mandiocas e carás. Um dia eu matarei essa ladra.

A Cutia velha já estava em casa mas ouviu os gritos e as ameaças do dono da roça.

A velha pôs as raízes de molho, depois as ralou, tirou tucupi, fez farinha da massa. E fez mais caldo de camarões para o menino.

Mas o tucupi acabou e a farinha também acabou.

Então a Cutia disse de novo que ia buscar raízes de mandioca para fazer tucupi.

A criança disse que queria ir com ela. A velha disse que não era preciso. Depois disse que era muito perigoso. Porque o dono da roça estava muito zangado e ameaçava matar quem lhe roubava a mandioca. Mataria a Cutia e a criança.

O menino era teimoso. Disse que iria com a velha. E foi.

Chegando à roça a Cutia tratou de desencovar depressa as raízes melhores.

E o menino foi passear pela roça. No meio da plantação viu uma pimenteira. As pimentas eram grandes e amarelas. O menino fez uma caapara e a encheu de pimentas.

A velha e o menino voltaram para casa.

Quando a velha botou a panela de tucupi defronte do menino este lhe disse:

— Não quero desse caldo. Quero isto.

E apontou para os camarões que a velha tinha noutra panela e ia comendo sozinha.

A velha disse:

— Isto é pimenta.

O menino lhe disse que sabia o que era pimenta:

— Pimenta é isto.

E abriu diante da velha a caapara onde pusera as pimentas amarelas que apanhara na roça.

A velha lhe disse que aquilo não era pimenta. O menino então lhe disse:

— Vamos fazer uma combinação. Eu como as tuas pimentas e tu comes as minhas.

A velha aceitou. Encheu a boca de pimenta. O menino encheu a boca de camarões.

As pimentas queimaram a boca da velha e ardiam tanto que ela disse:

— Basta, Já comi bastante.

E correu para a beira do igarapé.

O menino arpoou a velha com um ferro-de-cova. E a velha, caindo, virou Raia. E o ferro-de-cova virou rabo de Raia. E como era muito pesado arrastou a velha para o fundo do igarapé.

(É: por isso que toda Raia vive no fundo dos rios, dos lagos e dos igarapés.)

O menino saiu por aí para se vingar da morte dos seus pais: Poácaré e Poromina.

Andou, andou, andou.

E chegou um dia a uma terra. Ainda de longe, viu uma casa grande, de cuja cumeeira saía muita fumaça.

Encaminhou-se para lá. E encontrou duas crianças, sozinhas, embalando-se numa rede e cantando.

O menino perguntou pelos donos da casa.

As crianças responderam que tinham ido para o mato. A mulher tinha ido por um caminho e o homem por outro.

O filho de Poromina e Poácare viu duas cuias, sendo uma de casca de sorva grande e outra de casca de sorva pequena.

Perguntou para que serviam.

As crianças responderam que serviam para tomar caribé. O menino pediu que lhe dessem caribé na cuia grande.

As crianças disseram que só podiam dar na pequena, porque a grande era para quando houvesse alguma festa e muita gente quisesse beber caribé.

O menino bebeu caribé na cuia feita de casca de sorva pequena. Ficou satisfeito. Só bebeu a metade. Então jogou a cuia no chão. Os meninos zangaram-se porque ele não acabara de beber o caribé.

Quando a cuia bateu no chão as duas crianças morreram. Antes, porém, as crianças haviam contado que seu pai lhes dissera: — Poromina Minare, filho de Poromina e Poácare, vem por aí para se vingar.

Poromina Minare foi procurar o pai das crianças e viu que ele virara Surucucu, e estava rente a um pau caído, esperando-o. E matou aquele velho.

Depois Poromina Minare saiu à procura da mãe daquelas crianças e encontrou a mulher, também, transformada em Surucucu, noutro caminho, debaixo de uma folha de ambé.

Poromina Minare matou aquela Surucucu.

E continuou à procura dos inimigos dos seus pais, dos matadores dos seus pais.

Andou, andou, andou.

E chegou a outra terra onde encontrou um velho lavrando um pau, uma velha fazendo beijus e duas moças: uma peneirando massa e outra espremendo-a num tipiti.

Poromina Minare bastou olhar para essa gente e toda ela ficou ensaruada.

Na mesma ocasião, depois que Poromina Minare se afastou daquela casa, chegou ali uma filha casada, daquele velho, que morava distante. Trazia duas crianças consigo. Sentou-se. E foi logo convidada para comer uma quiinhapira.

A velha botou a panela diante da filha, mas esta notou que seu pai estava virando bicho.

Lavrando a tábua o velho fazia: Ahn! Mn! Ahn!

A velha lhe perguntou o que tinha. O velho lhe disse:

— Tu estás virando bicho também.

Quando a velha ia virando um beiju no forno, o beiju se transformou numa raia que caiu ao chão, batendo as abas.

O tipiti transformou-se num enorme sucuriju e dele pingavam umas gotas que faziam barulho feio. A peneira, que a outra moça tinha suspensa sobre um alguidar, se transformou também noutra raia.

A filha casada, que fora visitar os seus pais e suas irmãs, viu tudo aquilo e ficou assombrada.

Quebrou, portanto, uma pimenta na boca de um dos seus filhos.

A criança se pôs a chorar e a gritar.

A velha perguntou o que tinha a criança.

A filha mentiu dizendo que a criança mordera uma pimenta da quiinhapira sem querer.

E disse à mãe que ia até à beira do rio lavar a boca do filho, que continuava chorando e gritando.

E foi.

Mal chegou ao porto, embarcou com os filhos na canoa e remou depressa para casa.

Ali encontrou o marido e logo lhe foi contando o que vira em casa dos seus pais. Sua gente estava virando bicho.

O marido, acompanhado da mulher e dos filhos, embarcou numa canoa e foi até o lugar onde o seu sogro morava.

E, ao chegar ali, viu apenas um lago enorme e, pulando nele como cobra, o velho, a velha e as duas moças.

Poromina Minare, filho de Poácare e Poromina, continuou a andar pelo mundo, vingando a morte de seus pais.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.232-241)

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