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A dança da tocandira

Alexandre Horiopan

O maué é um ser pacífico, dado à lavoura, à caça e à pesca de subsistência. O índio maués, se outrora foi guerreiro, poucos vestígios restam daquela índole na tribo. A leitura dos mitos conhecidos indica um povo altaneiro, mas que dominava mais pela sua cultura — personificada na magia e na medicina — do que por feitos guerreiros.

Apesar de pacíficos, possuem os maués uma bravura fora do comum. Uma das suas principais festas — e, ao mesmo tempo, o acontecimento mais importante na vida de um homem — a dança da tocandira, bem prova o domínio que exerce sobre si mesmo e o seu total desprezo pela dor física.

O ritual e seu significado

A dança da tocandira é uma dança ritual, estreitamente ligada às práticas de magia que presidem a puberdade dos rapazes à sua iniciação na condição de homens feitos. É obvio que ritual deve incluir cerimônias ocultas — ou pelo menos, as deve ter incluído antes da deterioração visível dos aspectos culturais e religiosos genuínos da quase totalidade das tribos ameríndias. Já em 1882, a concluir pela descrição da festa publicada por Barbosa Rodrigues na Revista da Exposição Antropológica Brasileira, o sentido iniciativo da cerimônia estava deturpado ou voluntariamente confundido, devido à presença indiscreta do pesquisador branco.

Consiste a festa numa prova, ou melhor num conjunto de provas, de cunho aparentemente cruel. A descrição feita por Barbosa Rodrigues apesar de registrar fielmente tudo aquilo que aquele estudioso viu — ou julgou ver — é incompleta, pois carece de uma interpretação baseada em conhecimentos mais profundos ao seu sentido esotérico.

Diz Barbosa Rodrigues que a tocandira — ou veaperia — é uma formiga enorme, do tamanho de um maribondo, que além de morder, ainda possui um ferrão venenoso, cuja ferroada provoca dores terríveis, feridas duradouras, febres, e às vezes mesmo a morte. Essa formiga, no entanto esclarece — sem compreender porque — é considerada pelos maués “como uma divindade”, e empregada “aos centos para provar o valor e a capacidade de sofrer”.

Nunes Pereira, porém conseguiu informações completas sobre a tocandira: o ácido fórmico, injetado pela sua ferroada, é utilizado como remédio para curar impaludismo, gripe, ou outra moléstia qualquer. A parte do corpo definida pelo curandeiro como sendo o centro vital da doença é exposta à ferroada. Eis por conseguinte, a explicação da característica “divina” do inseto: o seu poder curativo.

As setes provas, que compõem a dança ritual da tocandira são consideradas como imprescindíveis à hombridade, à coragem, à força de resistência física e moral do indivíduo.

Como toda prática de origem religiosa, encerra a sua parcela de magia. Esta, por sua vez, freqüentemente se confunde, nos povos chamados primitivos, com a medicina ou a higiene. De onde se conclui que as provas, às quais se submetem os jovens para serem aceitos no rol dos homens, podem, muito bem, representar ainda uma espécie de fortificante de efeitos vitalícios, ou, simplesmente, um tipo de vacina, de imunização primitiva.

A dança em si

A dança da tocandira — ou, pelo menos, o que foi dado ao branco ver — é bastante simples.

Com alguns dias de antecedência, as mulheres da aldeia preparam o cachyry e o tarubá, bebidas inebriantes, preparadas, respectivamente, de féculas beneficiadas ou suco de frutas fermentadas com mel e garapa, ou com beiju de mandioca fermentado na água em vasilha de barro e condimentado com cascas de plantas odoríficas. O paricápoderoso entorpecente, usado outrora pelos pajés, já foi abandonado — ou é aspirado somente em rituais ultra-secretos.

As mulheres ainda preparam ou moqueam a caça especialmente trazida pelos homens para a festa. Também com antecedência são apanhadas e guardadas em longo colmo de taquaraçu (o tuntum) centenas de tocandiras. Na véspera da festa, são despejadas na água que as entorpece e lava. São em seguidas colocadas em várias bolsas de palha, adaptável à luva, ou sari, que os rapazes calçarão durante a cerimônia. O abdômen da formiga portador justamente do ferrão, fica na parte que entra em contato com a mão ou com o braço.

Ao sinal do tuxaua, reúnem-se candidatos, moças e pais frente à maloca dele, levando consigo potes de bebida, comidas e os saris carregados de tocandiras.

Os homens formam um grande circulo em torno do tuxaua; dentro deste círculo sentam as mulheres, formando outro menor. O chefe dá outro sinal com o seu “cotecá” — começam, então, os cantos, com seu acompanhamento de tambrinhos e assovios de taquara chamados “minês”. Um a um, os candidatos se apresentam. O tuxaua defuma o respectivo sari com o seu cigarro (ou charuto) de tauari, e calça na mão do aspirante, a luva correspondente à prova que lhe cabe realizar. Uma vez a mão no sari, o rapaz inicia a sua dança entre os aplausos dos presentes, até que alguma jovem — ou a própria esposa, caso ele tiver se casado em provas anteriores — lhe tire a luva e cuide das suas feridas, sendo, automaticamente casada com ele.

Caso nenhuma moça quis — ou pôde — aproximar-se dele, o próprio tuxaua é quem liberta as formigas.

Esse ritual se repete tantas vezes quantas provas, com os respectivos candidatos, estão previstas para aquele ano. À noite, depois de certa hora, as provas cessam e a aldeia inteira se reúne frente à maloca do tuxaua, onde se realiza a parte profana da festa — libações prolongadas, um banquete de pratos típicos, e danças “sociais” executadas pelos homens e pelas moças solteiras.

O homem que passou com êxito as sete provas da tocandira é considerado adulto, podendo inclusive ser aclamado chefe ou iniciado pajé. Cumpre notar aqui que, para realizar as sete provas, são necessários sete anos, pois cada rapaz só se submete a uma prova de cada vez. Este detalhe indica nitidamente as características de iniciação religiosa, e ao mesmo tempo, de imunização.

Cantos e utensílios

Além dos potes e outras vasilhas de barro destinados às bebidas e comidas tradicionais e dos instrumentos musicais, o utensílio característico da festa da tocandira é o sari, a luva de palha artisticamente trançada e enfeitada com plumas de cararás, gavião real, ou aves totêmicas do clã do aspirante. Há três tipos de saris — o sari simples, das três primeiras provas, que encobre somente a mão, o cari-pim que encobre também o braço, para as três seguintes, e, finalmente, para a última prova, o iapêrepé, que encobre a mão somente, mas deixando as formigas completamente livres.

Entre as cantigas entoadas na ocasião da dança ritual da tocandira, e que os pesquisadores reputam repletas de beleza e lirismo. Nunes Pereira recolheu a seguinte:

A origem da tocandira

Tatu grande fez sair tocandira
Tatu pequeno fez sair tocandira viva
Para cá para os moços se ferrarem
Para ficarem espertos
Em minha mão tocandira ronca
Tatu grande: Você se ferra só na mão?
E eu, que é em toda parte?
Assim falou o tatuzinho:
É bonito o lugar da minha tocandira
Enfeitado de vermelho
E de pena de gavião real
E do toco do cumaru
E do toco do ingazeiro
E do toco do cipó chato.
Assim eu era antes.
Mas nós havemos de passar

Estribilho
E nós sacudimos enfeites sacudimos enfeites em nossa tocandira

(Horiopan, Alexandre. “A dança tocandira”. Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 13 de março de 1966)

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