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Memória e queijo

Guilherme Santos Neves

Memória e queijo — como se sabe — não se casam, não se cosem, não se combinam. Vem de longe a crendice popular que assim os separa. Comer queijo enfraquece a lembrança das coisas. Queijo ou laticínio. Lá está, por exemplo, na obra clássica do seiscentista padre Manuel Bernardes, Nova floresta (Lisboa, 1708, t.2, título 5, p.200-201): “Há também memória artificial, da qual uma parte consiste na abstinência de comeres nocivos a esta faculdade, como são laticínios, carnes salgadas, frutas verdes e vinho, sem muita moderação, e também o demasiado uso do tabaco”.

E porque assim é, porque o comedor de queijo facilmente esquece as coisas, o povo, através de conhecida formuleta (que vale como verdadeiro provérbio), nos adverte: “Quem esquece come queijo”, entendendo-se o mesmo que “quem esquece (é porque) come queijo — dito corrente em vários pontos do Brasil, citado por Lindolfo Gomes em Minas, e também por mestre João Ribeiro em seu O folclore (Porto, 1919, p.271) — com o seguinte esclarecimento: “É crença popular que os laticínios, e normalmente o queijo, são alimentos que prejudicam a memória”. (Devo ao mestre a indicação da fonte seiscentista acima transcrita, que conferi na edição velha que possuo)

Pereira da Costa, em seu notável Vocabulário pernambucano — já tantas vezes citado em meus pobres escritos (Revista do Instituto Histórico Pernambucano, v.34, Recife, 1936), escreve isto no verbete Queijo: “Comer casca de queijo, diz-se de quem come se esquece do que faz e do que diz” — crença antiga que teimosamente persiste no norte e nordeste. Veja o leitor o livro do folclorista cearense Eduardo Campos, Medicina popular(2ª ed. Rio de Janeiro, 1955, p.79): “Não se deve comer casca de queijo. Quem assim procede ficará ‘esquecido’, de memória fraca”.

Não se pense, porém, que só quem do queijo lhe come a casca é que fica assim desmemoriado. Mesmo lá pelo norte, basta que se coma o queijo, uma fatia de queijo, para que esfrie e amoleça a memória. Leio isto em José Lins do Rego, em seu livro Meus verdes anos (Rio de Janeiro, José Olímpio, 1957): “Botava a cartilha e a tabuada por baixo do travesseiro para ver se entrava alguma coisa na minha cabeça. E não comia queijo. Queijo fazia ficar rude…”

Rude, aí vale o mesmo que bronco, bruto, desmemoriado.

Aliás, bruto fica, em Portugal, quem come queijo. Nas suas Locuções e modos de dizer usados na província da Beira Alta (Lisboa, 1924, p.20), José da Fonseca Lebre registra o caso: “Homem, parece-me que tu comes muito queijo. Em certos dias parece-me bruto. Então, é lá coisa que se compreenda, um disparate desse lote?”

Gente de memória boa, segundo o povo, tem memória de anjo. Abono a expressão com este exemplo tirado ao romance de Aluísio Azevedo, O mulato (Garnier, p.99): “De tudo isso, aventurou Raimundo, o que mais me admira é a sua memória. O senhor, com efeito, tem uma memória de anjo! / — Ora! O senhor ainda não viu nada! Vou contar-lhe…”

Memória de anjo tinha também o “comendador Clarineta”, de quem nos fala Monteiro Lobato, em Mundo da lua (São Paulo, 1946, p.9): “O comendador Clarineta tem memória de anjo e sabe contar com muita ênfase e colorido. Especializou-se nisso a ponto de ir às casas… contar romances. (…) E começa, pa, pa, sem esquecer um só episódio…”

Gente de memória fraca — diz a mesma experiência popular — tem memória de galo. Memória ou cabeça de galo. Vai aqui um exemplo atual, colhido em A estrela sobe, de Marques Rebelo (São Paulo, 1937, p.74): “— Você está se contradizendo, Mário Alves. / — Eu? / — Você, sim. Você! / — Não sei como… / — Não sabe porque tem cabeça de galo.”

A esse exemplo atual corresponde este outro do pobre diabo que foi Antônio José da Silva — o Judeu — que, lá pelo ano de 1739, a inquisição sacrificou. Na sua comédia Guerras do alecrim e da manjerona (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1957, p.310), pode o leitor deparar este passo: “Sevadilha: — Quem te meteu aí? / Semicúpio: — O velho, por eu ser metediço. / Sevadilha: — Pois, como foi? / Semicúpio: — Já me não lembra, que eu tenho memória de galo…”

A expressão é, porém, anterior ao século XVIII. Francisco Manuel de Melo, em sua obra póstuma Feira de anexins (2ª ed. Lisboa, 1916, p.111), ao elaborar suas desengraçadas metáforas sobre a memória, escrevia, em forma dialogada: “— Você está em França, tem memória de galo. / — Tome anacardina. / — Basta, que eu não como queijo. / — Se eu o comera, já pensava que me morria.” Repare o leitor no trocadilho infamezinho — me morria (memória)…

Mas, se lhe não valer o trocadilho, ao menos lhe servirá (ao leitor) o conselho que o seiscentista lhe dá para ativar a memória — Tome anacardina.

Realmente, segundo a velha medicina popular, anacardina é santo remédio contra a falta de memória. Lá está registrado no Grande dicionário português, de frei Domingos Vieira (Porto, 1871): “Conserva de anacardos: na medicina popular, remédio para aumentar a memória”.

Não sei dizer de que época é que data essa mezinha popular. Quem nos poderá, talvez, dar informação segura era o sábio autor de Colóquios dos simples e drogas e cousas medicinais da Índia, impresso em Goa, lá por 1563… Mas, embora não fale ele, o médico português Garcia de Orta, no anacárdio e em seus vários empregos (veja-se o colóquio quinto, na edição de Lisboa, 1891, página 65 e seguintes), nada diz o douto físico quando ao poder da “fava de malaca” (outro nome do anacárdio), para avivar a memória. Vá a lição de Garcia de Orta, que talvez sirva ao leitor interessado: “deitado ao leite e nutrido (serve) para a asma, e também usam dele contra as lombrigas (…) e, quando é seco, usam dele em modo cáustico para as alporcas (escrófulas); e toda a Índia também usa dela para pôr sinal nos panos misturados com cal…”

E já que falamos em alporcas, vai também de graça o remédio para curá-las. Que arranje o leitor por aí uma mãozinha de defunto e coce com ela o pescoço do doente… Dizem que é tiro e queda! E se duvida, lá está no mesmo frei Domingos Vieira (verbete Alporca): “O povo pretende curar as alporcas coçando o pescoço do doente com uma mão de defunto”.

(Neves, Guilherme Santos. “Memória e queijo”. A Gazeta. Vitória, 29 de maio de 1960)

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