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Quarup

Parque Nacional do Xingu. Durante três dias cerca de 500 índios do Parque Nacional do Xingu – kamaiurá, waurá, trumai, kalapalo, matipu, nafuquá, mehinako e yawalapiti – participaram do ritual sócio-religioso mais importante entre grupos indígenas que ocupam a área.

Tuvulê e Taconi foram os dois grandes capitães mortos homenageados no quarup promovido pelos kamaiurás, sendo que o primeiro procedia de grande linhagem. Há períodos de vários anos sem que haja um quarup, já que só pode ocorrer, só se justifica, quando morre um grande capitão. Ao lado de Tuvulê e Taconi, homenagearam-se também uma mulher e outro guerreiro de nomes não revelados, conforme exige o ritual da cerimônia.

Uma semana antes do quarup, duplas de pariás – embaixadores – partiram em direção às aldeias yawalapiti, waruá, trumai, kalapalo, matipu, nafuquá e mehinako, com a missão diplomática de convidá-los para a grande cerimônia, em nome dos kamaiurás. Os dois pariás, depois de andar a pé, de canoa e a nado durante dias, já que as aldeias nem sempre são próximas, formulam o convite e ouvem dos visitados um longo discurso, quando lembram que, dadas as dificuldades presentes, a inexistência de grandes lutadores e a perda acentuada da grandeza antiga, certamente não poderão comparecer.
O engano

Na verdade, essa recusa, essa má vontade, não deixa de ser uma prova de grande respeito, uma componente natural de todo o ritual do quarup. Os pariás prosseguem suas visitas a outras aldeias, sempre recebidos amistosamente, mas ouvindo a mesma versão.

Este ano, a cerimônia revelou uma dissidência, com a ausência dos kuikuros, que mais tarde alegariam desencontro dos pariás com os chefes de sua aldeia. Na verdade, esse desculpa não esconde uma velha incompatibilidade entre esses dois grupos indígenas, cujos antepassados realizaram guerras cíclicas e constantes. Hoje, os irmãos Vilas-Boas – Orlando e Cláudio – têm habilmente procurado reaproximá-los, mas o quarup, dado o seu significado transcendente, não permite que seus participantes dissimulem ressentimentos guardados, queixas não manifestas.

Os kamaiurás que contaram nesse quarup com a colaboração dos yawalapitis, waurás e trumais, iniciaram três dias antes da cerimônia a pesca nas águas tranquila de lagoa Ipavu. A pesca foi feita durante a noite, utilizando-se o efeito tóxico do timbó, planta que, açoitada contra as águas, termina por neutralizar a mobilidade do peixe, sem contudo envenená-lo. A pescaria rendeu cerca de 600 quilos de espécies diferentes, depois que os homens cortaram o timbó, maceraram e lavaram as fibras no espaço de água delimitado. É um espetáculo curioso e bonito, que tem por fundo o choro permanente de mulheres carpideiras, que ensaiam desde aí no interior das malocas, a grande dor que durante o quarup mostrarão aos mortos homenageados.
O anfitrião

Quem oferece o quarup tem a obrigação não só de alimentar os convidados, como também de lhes oferecer hospedagem. O quarup deste ano teve por dono Kutseraput, parente – irmão – mais próximo do grande capitão Tuvulê, e por mestre-de-cerimônias Warru. Mais tarde os convidados pagam, em forma de oferta ao anfitrião, como prova de deferência por participarem de solenidade, o que de certa forma repete o cerimonial diplomático de nações civilizadas.

O quarup – “expor ao Sol” na língua indígena – tem sua origem na lenda da criação, centrada no grande herói Mavorsinin, deus cultural de todas as tribos xinguanas, identificadas pelo uso do uluri – cinto de castidade – que as mulheres usam. Claudio Vilas-Boas conta que a trama da história mítica dos índios do Xingu, na qual se elaboram a forma e o fundo ritualístico de suas crenças religiosas, se passa na confluência dos rio Kuluene, Ronuro e Batovi, formadores do rio Xingu, na região conhecida por Morená. É a região mítica, envolta numa aura de mistério e sobrenaturalidade.

Inspirado na lenda da criação, o quarup saúda os grandes mortos, os guerreiros de grande linhagem. Mavotsinin criava os homens e reabilitava os mortos através da cerimônia do quarup. Certo dia, um índio que tivera relações sexuais, saiu para ver os toros que logo mais se trasnformariam em pessoas. Mavolsimin sempre advertira que a visão da cerimônia do quarup era interditada aqueles que tivessem relações durante a noite. Em função desse episódio, Mavotsimin revelou que o ritual deveria continuar apenas como cerimônia de reverência aos mortos. Os homens não seriam mais criados através do quarup.
O desaparecimento

Antes do quarup de um grande lutador, toda vez que um índio de outra tribo encontra um parente do morto ambos choram juntos sua lembrança, recordam seus feitos. Depois de realizado o quarup, esse morto nunca mais será lembrado como morto, ninguém mais chorará seu desaparecimento. Ao contrário, sua invocação provocará alegria, felicidade. Ele foi conduzido ao luate – céu – aonde só os bons e valentes podem ir. Os aleijados e feios jamais irão ao luate – o sentido estético do índio é um componente marcante de sua visão de mundo. Em sua plenitude o índio vive a contemplar a vida, as coisas, a natureza.

Durante o quarup dos kamaiurás, já no primeiro dia, Tuvulê e Taconi foram chorados intensa e profundamente, não só pelos familiares, como por toda tribo. Trata-se de um ritual radicalmente estranho para nossos olhos civilizados, incapaz mesmo de ser compreendido dentro do universo de nossos valores. O choro aos mortos, que fora ensaiado durante dias e noite, se manifesta durante a cerimônia de forma comovente. Logo depois dessa saudação tem início a luta, o hu-ka hu-ka, em tudo parecida com a cerimônia do sumô japonês.

Paramentados, pintados com óleo de pequi e tinta de jenipapo, os grandes capitães são apresentados pelo mestre-de-cerimônia e, depois de uma saudação demorada, comeca o hu-ka hu-ka. Cada luta não demora mais que fraçoes de segundo, e já constitui a parte social da cerimônia. Todas as tribos participam, torcendo, aplaudindo, protestando, gritando, apoiando, ou então censurando quando há derrota. Neste quarup os grandes capitães foram Aritana, Karikari, Mauaná, Kupiá.
A força

Aritana é filho de Canaio, que o livro de Antônio Callado, Quarup, consagrou. Depois de derrotar vários adversários, Aritana foi desafiado por um combatente, que de forma insolente duvidava de sua condição de grande campeão. Todas as oitos tribos participantes do quarup se voltaram para o desafiante e o desafiado. Fez-se um longo silêncio no pátio dos kamaiurás. Aritana ouve um conselho de Canato, fica demoradamente sério, bate nas pernas várias vezes, e sob a expectativa de centenas de índios se dirige para o desafiante.

Todo o ritual continua sendo respeitado. Depois de um cordial cumprimento os dois lutadores se aproximam fazem um circulo em pé. Aritana, feito um felino, segura o adversário pela cintura, e, sem que esse possa esboçar a menor reação, lança-o no ar, fazendo-o cair de costas. Um grito de dor ecoa no silêncio do pátio, e Aritana, sério, é cumprimentado pelo pai. Todas as tribos presentes saúdam o capitão Aritana, com gritos, saltos, barulhos. Aritana vai então meigamente, pedir desculpas ao adversário.

Toda vez que o lutador ganha, ele vai logo depois pedir desculpas ao vencido. Certa vez, num quarup passado, depois de um guerreiro perder a luta, um parente próximo se dirigiu correndo para junto da mãe do combatente e surrou-a impiedosamente, gritanto que a partir desse episódio toda a sua geração se mostrara imprestável. Ninguém foi em socorro da mãe, já que ela respondia, perante a tribo, pela fragilidade do filho. A punição é um dado relativamente raro no âmbito de uma tribo. Só o adultério, a feiúra e a pajelança negativa merecem castigos assim.
O término

Se foram grandiosos o quarup e a etapa que o precedeu, o seu término não pode ser chamado sequer de cerimônia, tamanha é a falta de importância que lhe dão os índios. Depois de retiradas todas as indumentárias que revestiam os homenageados – quatro toros de madeira pau-de-leite – apagando-se inclusive as pinturas que lembravam um rosto humano, eles são recolhidos de frente da maloca dos homens uma casa onde só homens podem entrar – se a mulher o fizer, terá que ter relações com todos. Retirados do chão, são conduzidos até as águas da lagoa Ipavu, sem a menor solenidade ou deferência. O quarto toro de madeira sequer conseguiu atingir as águas, terminando por servir de brinquedo para as crianças.

Os índios se recolhem, os visitantes já foram embora, sempre reclamando da acolhida, dizendo que a cerimônia foi fraca, que não se alimentaram bem. Tudo isso, no entanto, faz parte do universo ritualístico do quarup. Os promotores da festa retornam às suas malocas, às atividades lúdicas, à pesca, à felicidade de viver. Voltarão a rir durante todo o dia. Quando a morte chegar, eles a receberão com naturalidade, e mesmo alegria. Quanto mais o índio envelhece, e se aproxima da morte, mais feliz fica, menos por crer num céu, mais por não viver a angústia do não-ser, que atormenta o civilizado.

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