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Os primeiros ciganos na Bahia e no Rio de Janeiro

Eduardo Tourinho

Antes de ser conhecida a origem dos ciganos — a fadia — admitiu-se provirem de vários paises da Ásia e da África, principalmente do Egito. Cigano é uma alteração das palavras tigani, usada por búlgaros e sérvios; de tsigan dos tchecos, dos romenos e dos poloneses. Foram também chamados zingaros, egípcios e gregos.

Acredita-se terem passado a Europa no começo do século XV. Da França chegaram em grande número à Espanha em 1447 e receberam a denominação de gitanos, tal se vê da obra de George Borrow traduzida para o castelhano sob o título Os gitanos de Espanha e publicada em Madri em 1932. O título original é The zicali or an account of the gypsies of Spain e data de 1843, quando apareceu em Londres.

Em fins do século XV estavam em Portugal. Figuram no Cancioneiro geral, de Garcia de Resende (1516) e aparecem na Farsa dos ciganos, de Gil Vicente, representada em Évora (1521) perante dom João III. Em Os ciganos de Portugal; com um estudo sobre o calão (Memória destinada à X seção do Congresso Internacional dos Orientalista) — Lisboa, 1892, oferece F. Adolfo Coelho a melhor contribuição em terras portuguesas. Em 1526 era proibida a entrada de ciganos no Reino, devendo ser expulsos os que lá estivessem. Em 1538, uma lei mandava que fossem presos e açoitados publicamente. De 1557, outra condenando-os as galés, pois desde de 1525, eram acusados de muitos furtos e feitiçarias.

Em 1574, dom Sebastião transformou em cinco anos de degredo no Brasil a pena de galés a que fora condenado João de Torres. Em 1592, novas penas foram estabelecidas. As Ordenações filipinas dispunham que não entrassem no país ciganos, armênios, árabes, persas ou mouriscos de Granada.

As penas impostas na Espanha e Portugal tornaram-se ainda mais duras e sob Felipe III foram maiores as perseguições. Em 1547, um alvará de dom João IV estabeleceu para os ciganos — após prisão no Limoeiro — degredo por toda a vida em Angola e Cabo Verde. Foram proibidos de usar atrasas ou embustes a que chamam buenas dychas e jogos de corjalla (corridas) nem partidos de cavalgaduras. A língua que falavam ficou sendo chamada garegogonsa.

Em 1686 data uma provisão de dom Pedro II permitindo o degredo de ciganos para o Maranhão e, de 1760, um decreto de dom José I contendo várias providências quanto a ciganos deportados para o Brasil.

Em 1718, reinando D. João V, chegaram à Bahia as primeiras famílias
ciganas. O Senado da Câmara deu-lhes para morada um trecho da
Freguesia de Sant’Ana, perto da Palma, que passou a ser conhecido
como Santo Antônio da Mouraria.

No Resumo cronológico e noticioso da província da Bahia, desde seu descobrimento em 1500 (Bahia, 1759), fala-nos a respeito de José Antônio Caldas. Habitaram, em seguida, Santo Antônio Além do Carmo. Mas a Santo Antônio da Mouraria, ciganos e mouros deram preferência até meados do século passado. Na Memória sobre o estado da Bahia, de Francisco Vicente Viana (1898), está o informe de que aos ciganos recém-chegados era proibido “falarem na gíria e ensiná-la a seus filhos”.

Em 1761, dispuseram-se as autoridades a medidas coercitivas e os ciganos foram procurando bairros mais distantes da cidade, embora a maioria permanecesse no mesmo local, conservando seus usos e tradições. Viviam de um pequeno comércio ambulante mas as kalins — ciganas — praticavam a buenadicha e eram acusadas de furtos… Aos homens era atribuído apossarem-se de quantos cavalos podiam… Em Fatos e memórias, relembra Melo Morais Filho tais episódios.

Da antiga ocupação dos ciganos, não há atualmente vestígios em Santo Antônio da Mouraria nem em outros pontos da cidade de Salvador. Os poucos ciganos que existem na capital, procuram a estrada da Liberdade e as imediações de Água de Meninos. (…)

Segundo Melo Morais, um grupo de ciganos teria chegado ao Rio de Janeiro, também no ano de 1718. Em Os ciganos no Brasil informa que em 1808, com a comitiva do príncipe regente, novo grupo de ciganos veio para o Rio.

Em 1818, quando do casamento de dom Pedro com a princesa dona Leopoldina, muitos ciganos montados a cavalo chegaram ao antigo Campo de Santana e — entre bailados e cantigas próprias — prestaram reverência em frente ao palanque real. Em Memória para servir à história do reino do Brasil, registra o padre Perereca: “Finalmente, na última tarde destas festas reais, não só entraram os carros e as danças, que os acompanhavam, como também a dos ciganos e todas ao mesmo tempo em diferentes lugares executaram com apurado esmero, as suas agradáveis evoluções; fazendo um espetáculo encantador a vista simultânea dos carros, a variedade dos vestidos e a diversidade das danças, como também o som das suas diferentes músicas”.

Detalha Melo Morais terem os ciganos, ao som da guitarra, executado o fandango espanhol. Foram aplaudidos e dom João VI fê-los vir à sua presença e distribuiu jóias entre as mulheres e patentes militares aos homens.

Nesse tempo os ciganos, no Rio de Janeiro, tinham prosperado com os lucros obtidos com o comércio de escravos. Três viajantes estrangeiros disso dão notícia ao passarem pela cidade. O primeiro é Freycinet na Voyage au tour de monde, quando diz que os ciganos — impropriamente chamados egypticus e bohêmiens na França — dispunham da rua dos Ciganos, perto do Campo de Santana, que é a atual rua da Constituição. Em Recit de voyage, Victor Athanasie Gendrin — que aqui viveu entre 1818 e 1821 — conta ter visto velhas ciganas passarem pelas ruas vendendo escravos que formavam bandos de quarenta a cinqüenta e que variavam de oito a quinze anos de idade. Gabert — companheiro de Freycinet — diz que em 1818 “carregações inteiras de negros eram vendidas a ciganos que negociavam os cativos com os particulares”.

No Rio foram chamados calons e habitaram também, o Valongo. Em 1830, trabalharam como meirinhos no Foro da cidade.

Da Bahia e do Rio de Janeiro derramaram-se os ciganos pelas outras unidades do Brasil, sempre nômades e sempre vivendo dos mesmos expedientes combatidos pelas leis.

O mais completo trabalho até agora publicado a respeito no Brasil, é o José B. de Oliveira China na Revista do Museu Paulista (tomo 21). Custou ao autor muitos anos, de estudos e pesquisas na bibliografia e em contribuições esparsas na imprensa e no que obteve de especialistas de diferentes países. Nessa obra — Os ciganos do Brasil — reuniu Oliveira China subsídios históricos, etnográficos e lingüísticos que tornam seu trabalho uma importante fonte de informes e esclarecimentos. Aparecido, a seguir, em forma de livro (1936) é insdipensável a quantos estudam etnografia e filologia no Brasil.

(Tourinho, Eduardo. “Os primeiros ciganos na Bahia e no Rio de Janeiro”)

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