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Como pode o peixe vivo

Guilherme Santos Neves

Amanhã, 22 de agosto, é o Dia do Folclore, assim fixado porque, nessa data, lá pelo ano de 1846, o arqueólogo inglês William John Thoms, através de uma revista londrina, lançava a idéia de se batizar, com a expressão folk lore, a ciência que estudava e estuda as tradições populares.

E que tem o Peixe vivo com a data do folclore? perguntará o leitor curioso. Tem muita coisa.

De fato, por consenso unânime dos estudiosos do folclore em nossa terra, desde as primeiras reuniões que provocaram esse belo movimento de amparo e divulgação das coisas do nosso povo – ficou estabelecido como canção oficial do folclorismo brasileiro, o velho e tradicional coreto mineiro o Peixe vivo.

Em todos os ajuntamento ou “mutirões” de folcloristas, em todos os congressos de folclore até agora realizados no Brasil, o coreto de Diamantina tem sido entoado em coro, com alegria, com entusiasmo, num congraçamento cordial e saudável para o esforço comum.

Diz-nos o eminente professor e folclorista mineiro, Aires da Mata Machado Filho, em O negro e o garimpo em Minas Gerais” (Rio de Janeiro, 1943, p.22): “Uma das festas típicas mais antigas do município de Diamantina é o coreto. Consiste numa reunião para beber, cantando…”

Tal o objetivo dos coretos. São versos de brindes ou “saúdes cantadas”, chamadas também “coretos de mesa”.

Outra fonte mineira, Nossos avôs contavam e cantavam, da distinta professora Angélica de Rezende Garcia (Belo Horizonte, p.125), nos informou que os coretos de Diamantina (entre os quais o Peixe vivo), eram geralmente “cantados em banquetes, ceias familiares e não raro entoados em homenagem a uma pessoa, no intervalo dos discursos e saudações”, dedicadas “a cada um dos presentes ou a todos em geral”. E adianta que “o compasso sempre em dois tempos, é caracteristicamente marcado com as taças de um para outro lado e às vezes com os talheres retinindo na borda dos copos ou pratos, ou mesmo uns nos outros, com instrumento de percussão, ou ainda batendo palmas, notando-se assim o ritmo perfeito”.

A tradição dos brindes cantados se referiu o nosso Afonso Cláudio, nas suas Trovas e cantares capixabas (Rio de Janeiro, 1923, p.23), focalizando os “bardos de mesa”, que improvisavam, nas festas de batizado, aniversários ou casamentos, versos alusivos, como os que reproduz no livrinho raro, versos da lavra do poeta capixaba Pedro Alexandrino Mascarenhas.

Mas voltemos ao Peixe vivo.

Dele há várias versões. A referida por Mata Machado diz assim:

Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria?
Como poderei viver,
Como poderei viver,
Sem a tua companhia?

Os pastores desta aldeia
Já me fazem zombaria.
Por me ver assim chorando (bis)
Sem a tua, sem a tua.
Sem a tua companhia.

A variante recolhida por Angélica de Rezende Garcia, acompanha fielmente a primeira estrofe – a de Mata Machado, ligeiramente alterada “desta aldeia” em “dessa aldeia” e “por me ver assim chorando” em “por me ver andar chorando”.

Uma terceira fonte mineira – Cantigas das crianças e do povo, da professora Alexina de Magalhães Pinto (Rio de Janeiro, s/d, p.134), acompanha mais ou menos as versões anteriores, com algumas inversões. Por exemplo:

Como pode viver o peixe
Sem ser dentro d’água fria,
Assim posso eu viver
Sem a tua companhia (bis)

Tal versão não a ouvimos cantar por ninguém até hoje, inclusive alteram sensivelmente o sentido da cantiguinha. Os dois últimos versos, como se vê, e o acréscimo estrangeiro do: Hip!… Hip!… Hip! Hurrah!…

Num estudo interessante (Contribuição de Portugal ao folclore musical brasileiro) a folcmusicista Dulce Martins Lamas, inclui o Peixe vivo como de procedência portuguesa. Deve ter vindo da fonte maior do nosso folclore, se não a música do velho coreto mineiro.

De fato, posso fazer o testemunho de A. Tomás Pires, que, em sua valiosa coletânea de trovas Cantos populares portugueses (Elvas, 1902, v.1, trova nº 1536) nos dá o texto talvez original:

O peixe viver não pode
Separado da água fria
Eu também viver não posso
Sem a tua companhia.

Falei acima em estrangeiro e disso me valho para sugerir: não seria mais louvável que, ao invés do Parabéns pra você… (copiado e divulgado por toda a parte entre nós, com versos musicados de procedência estranha), se adotasse, em nossa festas de alegria familiar e íntima o nosso velho e tradicional Peixe vivo?

Tem ele mais calor de amizade e (embora de origem lusa, ou por isso mesmo) tem mais o sabor da espontânea e franca alegria e cordialidade do povo brasileiro.

(Neves, Guilherme Santos. “Como pode o peixe vivo”. A Gazeta. Vitória, 21 de Agosto de 1960)

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