Jangada Brasil

 

Higiene e hábitos corporais

 

 

Alceu Maynard Araújo

Na comunidade não há completo desconhecimento de certos hábitos higiênicos e para tal muito tem contribuído a escola. Isto é, o Grupo Escolar para onde são designados professores diplomados vindos em geral de fora, principalmente da capital. Tal não sucede no meio rural porque em geral as professoras residem ali mesmo, são semi-alfabetizadas e pouco permeáveis aos hábitos higiênicos.

Há no Grupo uma professora muito exigente nãopermitindo que seus alunos se apresentem com as mãos sujas, e sim de rosto lavado, cabelos penteados. Ensina há 18 anos. Repercute favoravelmente a atitude dessa professora na comunidade. Há algum tempo atrás foi tachada de “enjoada”, cheia de “coisinhas”, “luxenta”, mas, hoje, as próprias pessoas, que passaram pelo grupo como alunas, enaltecem sua atitude.

Uma andorinha só não faz verão, diz o adágio, porém, tal professora tem conseguido ser imitada pelas suas colegas e, hoje em dia, é apreciável a atitude das educadoras quanto à formação de hábitos higiênicos.

“Não é por faceirice que ando limpo”, diz Zerreis, “mas é porque me sinto bem depois de um banho e com roupa limpa. Na lagoa de arroz ando mais sujo do que um caranguejo uçá, mas, antes de dormir, estou mais limpo do que bunda de santo”.

Se por um lado há pessoas que adotam princípios de higiene, há uma boa porcentagem dos que não os praticam. Há casas onde a sujeira é parte integrante dela, outras, porém, são cuidadas.

Em algumas casas é hábito lavar os pés para dormir, isto entre famílias de melhor condição econômica. As moças emgeral fazem uma pequena toalete como seja o lavar do rosto, escovar os dentes. O banho nem sempre é diário, mas tomam banho de assento, do “umbigo para baixo”, em bacias, à noite. Mulheres, porém, que trabalham no arroz, lavam diariamente os pés e braços ao sair das plantações, antes de tomar a canoa que as conduzirá para “a rua”, que é a cidade. O banho completo só é tomado semanalmente.

Nas proximidades da cidade, num sítio abrigado há dois lugares para o banho: Porto dos Homens e Porto das Mulheres, distantes um do outro, servidos porém pelas águas do mesmo riacho — o Coitizeiro. Aí aos sábados à tarde e domingos pela manhã, as mulheres tomam seu banho geral. Outras vão ao rio São Francisco. No rio, costumam banhar-se não com maiô, mas com vestido comum, velho. No Porto das Mulheres, algumas se despem totalmente para o banho, outras não, usam o vestido velho.

O mesmo se dá com os homens. O banho geral é comumente uma só vez na semana, quer no rio ou no Porto dos Homens, no riacho. Aos domingos pela manhã e sábado à tarde, o Porto dos Homens é bastante movimentado. Acontece, porém, que há muita imundície nas proximidades onde vão banhar-se, porque, antes das abluções, costumam fazer suas necessidades fisiológicas nas imediações. As fezes e urina cheiram mal; tornando-se insuportável a permanência nesse local.

No Porto das Mulheres elas podem banhar-se despidas, porque há rigorosa sanção por parte da comunidade àqueles que desejam dar uma olhadela.

No inverno, os banhos são cousa rara, poucas pessoas tomam-no diariamente. Lavam braços, pés e rosto, mas… “os impossíveis” rarissimamente. E lavam sem sabão.

Estávamos certo dia tomando banho no rio e entraram na água algumas crianãs com sua mãe. Ela estava lavando uma speças de roupa. Oferecemos-lhe sabonete para que lavasse as crianças. Foi uma satisfação enorme para a mulher lavar os meninos com sabão de gente rica.

No rio, no verão, todos se banham. Usam os homens um calçãozinho, as mulheres algo que lhes cubra, também, até os seios. Porém, há outros meios para o banho. Em casa de dr. Machado Lobo há um excelente chuveiro. Na pensão uma barrica cheia de água e uma caneca, num quarto, resolvem o problema.

Se na zona marginal ao rio, onde há facilidade de captação de água por meio de latas, potes e mesmo entrar nele para o asseio, os banhos gerais são hebdomadários, é de se notar como são mais espaçados nos povoados mais afastados onde a água provém das cacimbas e é escassa.

O banho por ocasião da maré cheia, preferido pelos banhistas, tem o inconveniente de, represando as águas, sobrenadar toda a imundície que lançam ao rio. Nada-se às vezes nas proximidades donde está flutuando um cadáver de cão, carneiro ou galinha que morreu de peste.

Dizem que na maré cheia a água é mais quente e que na maré vazante a água e mais fria além de trazer sujeiras das lagoas.

Rarissimamente há alguém que se lave de madrugada ou à noite. A hora do banho é à tarde, pouco antes do crepúsculo. Mesmo com lua cheia jamais vimos alguém banhar-se no rio. Quando as águas ficam barrentas por ocasião das enchentes que vêm das cabeceiras, há muito comedimento nos banhos devido às piranhas, daí citarem nomes de fulano, beltrano e sicrano que estavam tomando banho e algo lhes sucedeu. Aliás é mais uma justificativa para aqueles que pouco apreciam os banhos, a limpeza corporal.

O banho no rio nem sempre é convidativo, principalmente quando estão boiando nas proximidades cadáveres de animais, sendo muito comum os de aves. Prefere-se então o banho de tambor, principalmente se a água foi colhida no vazante. Um tambor aberto, na parte superior cheio de água do rio São Francisco. É o banho de cuia: apanha-se a água com esta cuia e vai-se derramando sobre a cabeça. O banheiro da pensão fica num cubículo escuro, ladrilhado e de telha vã, onde às vezes estão caranguejos soltos. A água do tambor não foi por causa da água que lançávamos à cabeça com a cuia. Assim era o nosso banho de cuia.

Embora o banho geral seja raro, é habito generalizado a lavagem do rosto pela manhã. Outro hábito é o uso de ingredientes graxos nos cabelos. Por ocasião das feiras, bons negócios fazem os vendedores de brilhantina, vaselina para os cabelos. É uso corrente o óleo no cabelo e a poeira aí caída, com os poucos e raros banhos aumenta a pastosidade.

Dona Cândida, cega de um olho, mora de favor no sobrado, no andar térreo. Vive miseravelmente, comendo o peixinho que pescou. Seu filho de criação trabalha, mas gosta de beber. Daí já se conclui, a miséria não é atenuada. Estava raspando um coco. Perguntamos-lhe para que era, ao que respondeu: “Vou fazê um óleo para passar no cabelo. Pena que não é cheiroso”.

Quanto ao traje, sua limpeza deixa muito a desejar. Há pessoas que passam vários dias com a mesma roupa. Trabalham com ela, dormem com ela. O suor ali empapado e depois enxuto produz um cheiro hircino comumente chamado pelos moradores de Piaçabuçu de “cheiro de xexéu”.

É muito comum as mulheres limparem o nariz na gola do vestido, justamente naquela parte que fica sobre o colo. A fazenda fica em contato com o corpo. Elas levantam a gola do vestido, abaixam a cabeça e limpam o nariz.

As roupas são lavadas no rio, com sabão feito em casa ou comprado na feira. Peça por peça é lavada, esfregada, batida na pedra ou tábua e depois exposta ao sol para corar. Enxaguada, a seguir torcida e depois posta para enxugar ao sol, em varal ou estendida nos arbustos. É costume esfregar a roupa com folhas de uma trepadeira, dizem que ajuda a limpar melhor.

Não havendo por parte de grande maioria da população cuidados higiênicos pessoais, com relação à sua moradia é ainda maior o desleixo na prática de hábitos higiênicos.

Na cidade, as casas de “triângulo” são bem cuidadas e, às vezes, pode-se ver através da janela, ao passar, as camas bem arrumadas e limpas. Já no “quadrado”, há casas asseadas, como há as imundas. Destas, vê-se uma esteira no chão com alguns farrapos molambentos. Não há bancos. A cozinha é o poial e umas vasilhas de barro enegrecidas pela fuligem por fora e internamente mal lavadas. Generalizado é o hábito de se fazer um jirau e sobre ele colocam uma esteira de piripiri onde dormem.

Não é tão generalizado como se havia de esperar o uso da rede. Esta ultimamente vem sendo gradativamente substituída pela esteira. A rede custa hoje preço elevado e a esteira uma bagatela, daí o desaparecimento da tradicional rede, hábito deixado pelos nossos índios. “Ah! se eu pudesse, só dormiria na rede, não ficava com os meus ossos se retorcendo na esteira dura, mas, como pobre vive é de teimoso, corpo velho acabou é se acostumando na esteira.”

É quase inexistente a privada. Raríssimas são as fossas e isso mesmo rasas. O recurso mais comum é defecar no “mato” ou no fundo do quintal. Desconhecem o papel higiênico; às vezes, são usadas folhas do mato.

Cenas como esta anotada por nossa assistente são muito comuns entre os moradores pobres de Piaçabuçu: “Na casa de dona Zelinda não há privada. Como o quintal é cercado por cerca de “pau em pé”, a parte atrás da cozinha, último cômodo da casa, é reservado para a micção. Dona Zelinda enquanto conversava conosco, andando pela casa soltava gases o que despertava certo riso por parte das pessoas que lá estavam: a irmã, duas senhoras casadas e uma moça, estas últimas riam. Logo depois dona Zelinda se dirigiu para trás da casa. Em pé, com as pernas abertas, com as mãos puxando a roupa para a frente, urinou. Em seguida abaixou-se, defecando. Voltou depois para o seu trabalho, rendas de bilro, que fora interrompido”.

Se os fundos do quintal constituem um local pouco limpo, em contraste, algumas casas apresentam a sua frente que dá para a rua, sempre limpa. Outras porém, não cuidam e é comum ver-se grande quantidade de cascas de cana atiradas ao chão, pois é generalizado o hábito de chupar cana à porta de casa ao anoitecer.

Raramente se vê uma pessoa com os pés descalços. O uso do tamanco é muito generalizado. Tal medida não é por compreensão da necessidade de andar calçado para se evitar a possível contaminação por germes pela planta dos pés, mas é uma defesa contra o calor. O sol aquece demasiadamente o solo e o areião é intransitável a pé descalço. Para enfrentá-lo é preciso o uso de alpercatas ou tamancos. É comum as crianças andarem completamente nuas até uma certa idade e, meninos de sete anos ou mais, andam sem calça.

É bem provável que a marca do latifúndio açucareiro, esterilizador como é, tenha deixado seus estigmas na população: a fome crônica como conseqüência do arrasamento total das florestas existentes nesta região onde houve o plantio da cana-de-açúcar que conseguiu alterar os regimes das chuvas, modificou o clima e as plantas e as matas tropicais transformaram-se em carrascais. Primeiro a busca do pau-brasil pelo índio que para derrubar um tronco levava um roldão as árvores próximas, depois o branco com o machado na mão do escravo arrasou o restante para o plantio da cana-de-açúcar. Esta dendroclastia atuou sobre as condições edáficas desta região. Flora sacrificada, conseqüentemente, fauna também. Os alimentos que poderiam buscar na fauna são escassos, a não ser o caso da ictiológica ainda abundante e salvação do regime alimentar de parte considerável da população de Piaçabuçu. Hoje as deficiências alimentares se espelham nas arcadas dentárias, falhas, estragadas dos moradores.

A vaidade feminina fura as orelhas das meninas quando pequenas. As moças acham chique mostrar no sorriso um dente de ouro e os lábios carminados pelo batom. Enfeitam-se com uma flor no cabelo untado de vaselina.

As filhas das famílias de mais recursos econômicos usam pó-de-arroz, perfume e algumas, unhas esmaltadas, batom. As pobres põem no entanto todo requinte no untar o cabelo. Algumas mulheres do meio rural usam passar farinha de trigo no rosto, ficando esbranquiçadas. Muitas caboclas, que assim procedem, não dispensam um lenço amarrado na cabeça.

O fato de apresentar-se bem trajada não condiz com a higiene, pois não raro uma pessoa toda adereçada, com batom, pó-de-arroz, vestido limpo, etc., colocou-o sobre o corpo sem ter tomado um banho geral. Isto se dá tanto com homens, como também com as mulheres. Lavam as partes aparentes: pernas, ante-braços, mão e rosto.

Na comunidade há apenas duas famílias de protestantes. Há pouco um moço de cor aproximou-se da seita religiosa. Ele que andava sempre sujo, mal lavado, transformara-se. Agora anda sempre limpo, embora com roupas remendadas, mas limpas. Toma banho diariamente. Enfim, procura imitar os demais membros daquela seita religiosa que primam por andar sempre limpos, cabelos penteados e dentes tratados. Uma pessoa, quando se referiu a esse moço que se converteu ao protestantismo, disse: “Não é à toa que esses protestantes andam limpos, pois até o batismo deles é de mergulhar o crente n’água. José Gomes andava mais sujo do que um baié (porco), depois que foi batizado em Penedo, acabou gostando de tomar banho, à noitinha depois do dia de trabalho lá está ele no rio tirando as “cracas” (sujeira). Assim desse jeito acaba até perdendo o cheiro de xexéu que é o característico da raça (ele é preto), não sei para que tanta limpeza… toma banho até no inverno…”

[1959]

 

 

(ARAÚJO, Alceu MaynardMedicina rústica3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1979, p.270-276)

 

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