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O bambelô

Deífilo Gurgel

Bambelô é coco, zambê. Em Xarias e canguleiros, o professor Veríssimo de Melo ensina que bambelô vem de zambê, tambor com que os dançarinos marcam o ritmo, nas rodas de coco ou bambelô.

Estudando a evolução do batuque, do meio rural para a área urbana, Cascudo divide a sua influência em três grandes zonas: a de coco, a do samba e a do jongo, compreendendo a primeira o Nordeste oriental, a segunda o Leste brasileiro e a terceira principalmente os estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

Enquadrando o bambelô na zona do coco, Cascudo ressalva porém que, pelas suas características próprias, tal tipo de coco enquadrar-se-ia melhor na zona do samba.

Assim, podemos dizer que o bambelô é filho do coco e neto do batuque, que tudo são danças africanas e em matéria de danças, como diz o mestre, qualquer classificação “é como uma jaula para conter as nuvens”.

O bambelô natalense é uma dança de roda, na qual os dançarinos cantam de mãos dadas, ou batem palmas, marcando o ritmo da dança, enquanto, no meio da roda, um deles se apresenta, exibindo suas virtuosidades coreográficas, em passos e malabarismos os mais variados. Terminada sua exibição o dançarino solista convida um dos companheiros de roda, com uma vênia, para substituí-lo, na exibição. O instrumental é todo de percussão: tambores de vários tamanhos que recebem o nome genérico de “paus”, especialmente os maiores, de um metro aproximadamente, enquanto o menor deles é apelidado de “chama”, pelo som estridente que desfere, ao ser percutido. “Quando está ventando o sudeste, a gente ouve a “chama” daqui do porto (12km) e até do outro lado do Surubajá”. (Hélio Galvão, Novas cartas da praia). Além desses tambores primitivos, o bambelô usa também o ganzá.

O canto que acompanha os números de dança, no bambelô, é ao estilo do coco ou embolada, em sua forma poética, o ritmo porém mais assemelhado ao do samba conforme ensina Cascudo. Os versos se compõem de um refrão fixo, que o coro de dançarinos responde, enquanto o solista improvisa ou repete velhas quadras, do cancioneiro popular brasileiro.

Aliás, há que se ressaltar o aspecto puramente musical do folguedo. A cantiga desacompanhada da dança, vivendo a sua vida independente. O coco ou embolada, em que se celebrizaram tantos improvisadores, tocadores de ganzá, presentes às feiras de interior e que nós tivemos oportunidade de ver meninos, ainda, na “pedra” do mercado em Areia Branca. Desses, o mais famoso, foi talvez Chico Antônio, coqueiro potiguar, celebrizado em crônica de Mário de Andrade, que dizia dele “quando tomado pela exaltação musical, o que canta em pleno sonho, não se sabe mais se é música, se é esporte, se é heroísmo. Não se perde uma palavra que nem faz pouco, ajoelhado por “boi tungão”, ganzá parado, gesticulando com as mãos douradas, bem magras, contando a briga que teve com o diabo, no inferno, numa embolada sem refrão, durada por 10 minutos sem parar. Sem parar. Olhos lindos relumeando uma luz que não era do mundo mais. Que não era desse mundo mais”.

Hélio Galvão, em suas Novas cartas da praia estudou de maneira perfeita o coco e o zambê, os quais, segundo seus informantes praianos, são duas danças diferentes. Enquanto no coco-de-roda dança todo mundo sem distinção de sexo, o zambê é dança de homens, pela vivacidade do ritmo, que permite aos dançarinos as mais variadas proezas de agilidade e resistência, o que ele comprovaria depois e descreveria de maneira elegante e precisa, no trabalho referido. Também pudera! Ele mesmo conta que, menino ainda, no Tibau do Sul, atraído uma noite, pelo apelo da “chama”, não resistiu ao fascínio do coco e entrou na dança, de corpo e alma.

Nesse estudo sobre cocos. Hélio Galvão fala ainda no maneiro pau, forma algo diversificada do folguedo, a que ele assistiu, lá mesmo em sua terra, por volta de 1927. E isto me faz lembrar a informação que me deram há algum tempo, da existência de um grupo de maneiro pau, no município de Luís Gomes, no lugar chamado São João da Serra. O informante, Guilherme Rocha, tabelião do primeiro cartório, me disse que o grupo é formado de negros e que eles dançam armados de cacete, simulando um combate, com muito ritmo e agilidade.

(Gurgel, Deífilo. “O bambelô”. A República, Natal, 13 de fevereiro de 1977)

 

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