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Touradas

Rubens de Mendonça

Cuiabá, parece uma cidade morta, ou desabitada. A maioria das suas casas estão fechadas. O comércio não funciona. É ainda a voz da raça, o sangue dos toureiros portugueses que hoje, como outrora em Salva-terra, atrai o povo para o curro.

E o cuiabano, como os portugueses de ontem, mesmo sem um marquês de Marialva, não perde nunca as touradas. A praça de touro era, antigamente o jardim Alencastro, depois transferida para o jardim Ipiranga, e em 1876 para a praça do Alegre (campo D´Ourique) hoje praça Moreira Cabral.

Toda família abastada fazia o seu palanque ou camarote, porém o melhor localizado era o camarote do imperador do Senhor Divino.

Por baixo dos camarotes eram feitas cercas de caibros roliços, em volta do anfiteatro, onde a gente menos favorecida da fortuna assiste o espetáculo.

Têm preferência os lugares de camarote e cerca onde não bate o sol.

Dentro da arena ficam apenas o toureador e o jacuba, ambos montados a cavalo, e a pé, capinhas e máscaras. Antes de iniciar a função havia um desfile dos toureiros e após a banda de música tocava o hino do Senhor Divino, sendo a primeira sorte, que era do toureador, oferecida ao festeiro. Num dos ângulos do anfiteatro fica o “tronco”, por onde os touros penetravam na praça, um de cada vez. O número de touros, o toureador, a cavalo, acompanhado de um capinha a pé, aguardam a fera, fazendo a primeira sorte. Se o toureador é derrubado pelo touro, então o povo gritava: “apeia, toureador”, e este era obrigado a enfrentar a fera a pé, com um ferrão, todo enfeitado de papel de seda branco e vermelho. Quando se dava esse fato, tocava uma marcha batida de corneta e tambor que a garotada traduzia cantando:

Toureador vai apanhar
Capinha vai descobrar…
Toureador vai apanhar
Capinha vai descobrar…

Como honraria e com devido consentimento do toureador, algumas vezes, os capinhas usavam também o ferrão. Porém, geralmente faziam eles sortes com garrocha e uma bandeira vermelha. A função do jacuba era oferecer as sortes do toureador e receber o dinheiro das mesmas.

Quando o boi já estava cansado, então era entregue aos máscaras, mas se o boi investia, eles, máscaras, podiam fugir, subindo pela cerca. Muitas vezes o touro enfurecido derrubava o toureador e capinhas, então o máscara de mais coragem podia usar o ferrão. O traje do toureador era uma casaca vermelha com peito azul aberto, com três ordens de botões dourados, calça branca, botas pretas e chapéu de pluma. A do jacuba, também era calça branca, blusa vermelha, tendo por cima do ombro uma capa azul com estrelas. Usava botas e chapéu, mas sem plumas.

Os capinhas usavam blusa vermelha e calça branca, chapéu preto, apenas com uma fita vermelha e andavam descalços.

Os máscaras iam de variada vestimenta. Muitos máscaras ficaram célebres pelos seus arrojos de coragem. Entre eles de um ainda me recordo o nome, Zé Saia Branca.

O toureador de maior fama em Cuiabá, foi o Mirandeiro, que morreu em meio da praça, vitimado por um colapso cardíaco. Depois de Mirandeiro, veio o Paulo e depois deste o Jovino.

Como máscara, celebrizou-se um tal cabo Isidoro.

A última tourada realizada em Cuiabá, teve lugar no segundo governo de. Mário Correia da Costa, em 1936, por ocasião das festas de São Benedito.

Nas noites das touradas o povo fazia o footing no curro. Ali se improvisaram vários botequins, onde havia bebidas alcoólicas e jogos, enquanto as famílias passeavam em torno do anfiteatro. Muitas vezes haviam sérias brigas nessas noites, sendo necessário a intervenção da polícia.

(Mendonça, Rubens de. “Touradas”. Leão d´Oeste. Cuiabá, dezembro e janeiro de 1966)

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