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O culto de São Gonçalo

São Gonçalo, tão festejado no Norte e Nordeste do Brasil, como divertimento, torna-se, aliás, santo dos supersticiosos e poderoso concorrente do bondoso e mui querido Santo Antônio, aqui no nosso estado, pois possui, além da qualidade de casamenteiro, outras mais, que são invocadas pelos seus inúmeros adeptos.Vi dançar um “São Gonçalo” na localidade de Iporanga, pitoresco recanto situado à margem esquerda do Ribeira de Iguape, deste maravilhoso rio paulista, onde há gente tão prática que, para bater o arroz, improvisa bailes, que são dançados sobre as espigas amarelas.

São Gonçalo, assim conta a lenda, foi santo, que, para se penitenciar, dançava com sapatos munidos de pontas de pregos para lhe ferirem os pés.

Ali, em Ribeira do Iguape, em qualquer povoação, quando um indíviduo pretende que as colheitas lhe corram bem, que a vada lhe dê boa cria, que a própria mulher sare da moléstia contrariada, ou mesmo se uma linda caboclinha pretende se unir ao seu amado, faz uma promessa a São Gonçalo, de mandar dançar umas “voltas” e estas são tantas mais, quanto mais importante é o valor da graça almejada.

Em uma mesa qualquer, sobre a qual é estendida limpa toalha, coloca-se a imagem do querido santo. De quando em vez são colocadas duas imagnes, uma maior e outra menor, e ambas, rodeadas de velas e flores.

Duas fileiras de dançantes se colocam, perpendicularmente à mesa, as mulheres de um lado e os homens do outro: nos extremos de cada fita acha-se um violeiro das tais São Gonçalistas.

Os dançantes são convidados pelo dono da casa e devem executar, então cada par, as figuras previamente descritas e dançadas pelos violeiros. Sendo os violeiros bons São Gonçalistas, as voltas que cada par deve fazer, podem durar de cinco a dez minutos e, muitas vezes, até mais.

Havendo vinte pares, cada volta durará, portanto de 100 a 300 minutos, que dizer, de 1,4 hora até 5 horas, e se o dono da casa fez promessa para serem dançadas quatro voltas, toda a cerimônia durará cerca de 20 horas, o que quer dizer que a dança poderá durar até além do meio dia seguinte ao do seu início.

Não é vedado aos convidados se retirarem das fileiras e se refrescarem com a branquinha — uma das muitas denominações por que é conhecida a nossa pinga — ou se fartarem com assado de leitoa, galinha e bolos, o que ocorre, muito naturalmente por conta do festeiro.

Os violeiros cantam constantemente, improvisando versos e quadrinhas, não levando-se a mal quando aparece um verso gaiato.

A festa é, geralmente aberta com a seguinte quadrinha:

São Gonçalo de Amarante
Aceita a romaria
Eu sou romeiro de longe
Não posso vir todo dia.

Seguem-se-lhes outras, tais como:

São Gonçalo do Amarante
Casamenteiro das velhas
Porque não casai as moças
Que mal lhe fizeram elas?

ou então:

São Gonçalo não quer missa
Nem na rua tirar esmolas,
Quer suas danças bem feitas
De rabecas e violas.

Também cantam:

São Gonçalo já foi santo
Agora é marinheiro
Quero embarcar com ele
Pra ir ao Rio de Janeiro.

Uma das quadrinhas gaiatas seria:

São Gonçalo do Amarante
Feito de nó de pinho
Dai-me força nas canelas
Como o porco ao focinho.

A cerimônia é, finalmente, arrematada com a seguinte quadra:

São Gonçalo do Amarante
Filho de Nossa Senhora
Ele se despede aqui.
Vai nos esperar na glória.

O culto de São Gonçalo no Norte e Nordeste do Brasil, parece-me ser bem diverso daquele que acabo de descrever. O culto e abalizado folclorista pernambucano, tão prematuramente roubado ao convívio de parentes e amigos, dr. Pereira da Costa, descreve-o de outra forma, e seja-me lícito transcrever do seu interessante livro, o que, relativamente ao assunto, produz:

“São Gonçalo do Amarante, o casamenteiro das moças já teve entre nós ruidosas festas no seu dia.

Exercera, o santo cargo de pároco, e tradição antiqüíssima narra que foi ele muito cuidadoso em promover casamentos: e daí a fervorosa devoção das solteiras para com o milagroso santo, e as outroras bem conhecidas e ruidosas danças em seu louvor, com versos em descantes. Lopes Gama tratando do assunto com a verve que lhe é própria, no seu interessantíssimo periódico O Carapuceiro em 1839, quando estava muito em voga a tradicional dança, que constituía uma verdadeira loucura diz o seguinte:

“Há, ordinariamente uma bandeirinha, onde está pintada a imagem do santo, e além disto outra de madeira entra no fandango. A bandeira e a imagem andam num corropio, ora nas mãos, ora na cabeça desta e daquela. Soa o estrepitoso zabumba, retinem os garridos, maracás acompanhando as cantilenas, que dizem:

Viva e reviva
São Gonçalinho
Dai-me meu santo
Um bom maridinho.

Na tal dança elas saracoteiam as ancas, remexem-se, saltam, pulam e fazem coisas de cabeça, tudo para maior honra de Deus e louvor de São Gonçalo.

Entre muitas dessas cantigas já ouvi uma, em que entre as “prendas de um bom marido dizia:

Seja bonitinho
E queira-me bem
Aquilo que é nosso
Não dê a ninguém.”

Os manembres, os calafatinhos, os gamentos de todo o calibre, torneiam a sarau e então, como peixes n’água, e com os olhos pendurados no remexer das dançarinas.

Era a devoção deste jaez que Lopes Gama chamava devoção patuscada.

Além dessas danças, formavam os festejadores do santo, ranchos enormes que percorriam as ruas e as estradas cantando e dançando ao som de descantes em que figuravam versos dessa urdidura:

Quando São
Gonçalo nasceu
Trouxe a bandeira
ao Menino Deus.

Quando São
Gonçalo nasceu
Cortou-lhe o umbigo
Senhor Serainco.

São Gonçalo foi à missa
Num cavalo sem espora
O cavalo deu um tope
São Gonçalo pulou fora.

São Gonçalo do Amarante
Casamenteiro das velhas
Por que não casai as moças
Que mal lhe fizeram elas?

Ai lê lê, ai lê, lê
Meu santinho
Viva e reviva
São Gonçalinho.

Essas devotas expansões em louvor do santo, a que Tollenare chamava os bailes de São Gonçalo, eram também celebradas nas igrejas, até que começaram a ser proibidas em Olinda, pelas autoridades eclesiásticas, a começar de 1876 — porque os europeus censuravam esses bailes como uma indecência indigna do templo de Deus.

Conquanto, esses pretensos moralistas d’além-mar, escreve Tollenare, no ano seguinte, tratando daquela proibição, tenham esquecido que David dançava diante da arca, que a dança fez, por muito tempo, parte das cerimônias religiosas, que os padres do Concílio de Trento, abriram-no com um minueto: conquanto a dança não seja verdadeiramente profana, senão pelo espírito que a anima, não direi que sejam restabelecidos os bailes de São Gonçalo: mas quisera que fossem substituídos por outra coisa qualquer.

Refere o padre Miguel Sacramento Lopes da Gama no seu mencionado periódico, que se levantando em certo lugar a bandeira de São Gonçalo para as novenas de sua festa, no ano de 1843, e não sabendo, os devotos, as cantigas apropriadas, cantavam as seguintes, com todo o fervor de uma piedade verdadeiramente cristã:

Parta-se o coco
Venha um pedaço
Espremam o leite
Qu’eu quero o bagaço.

Ponche de caju
Não me dá abalo
Porque esta bandeira
É de São Gonçalo.

São Gonçalinho
São Gonçalão
Beba-se o vinho
E haja função.

A estas quadras, respondia o devoto:

Isto é bom, mulata
Isto é bom, que eu gosto.

Eis, aí, o que eram entre nós, os festejos devotos de São Gonçalo do Amarante hoje completamente olvidados.

A que época se remontavam esses festejos entre nós, é impossível chegar-se: entretanto, vinham já, sabidamente dos primeiros anos do século XVIII e já Barbinais, citado por Oliveira Lima, trata do assunto na sua Nouveau voyege ou tour du mondeimpressa em Paris em 1725-1729, deste modo, descrevendo os usos e costumes da Bahia: “Animação de regojizo algum emparelhava-se com a que reinava na festa de São Gonçalo do Amarante. Nas danças desenfreadas em derredor de veneranda imagem tomavam parte o vice-rei de parceria com os cavalheiros de sua casa, os monges e os negros, desaparecendo assim as distinções sociais nessa saturnal cristã, celebrada ao som mavioso das violas e no qual o amplexo dos sexos atingias proporções “de demência animal””.

É pois, bem diverso o São Gonçalo do Norte e Nordeste do Brasil do nosso aqui no estado de São Paulo, e será, igualmente bem diverso em outros estados da federação.

Tenho leve recordação que me fora contado por uma fazendeira das bandas de Campinas, que, ali se conhecia também essa dança religiosa. Seria interessante ouvir-se de pessoa conhecedora dos usos daquela florescente zona algo sobre este interessante assunto.

(Serigi, Ronaldo de. “O culto de São Gonçalo”. Correio Paulistano. São Paulo, 07 de março de 1954)

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