Jangada Brasil – nº97 – dezembro de 2006 – Almanaque

Breve história da jangada no Brasil

Luís da Câmara Cascudo

A jangada foi a primeira embarcação brasileira registrada por mão de europeu.

Domingo de Pascoela, 26 de abril de 1500, Pero Vaz de Caminha assistiu a primeira missa no ilhéu da Coroa Vermelha e reparou na curiosidade dos tupiniquins. E escreveu: “E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que ali tinham — as quais são feitas como as que eu já vi — somente são três traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, senão enquanto podiam tomar pé”.

Foi o grande cronista chamando a jangada por um nome bem diverso e desculpando-se da dessemelhança. Almadia é a canoa monóxila, estreita, comprida, feita duma única árvore, aproveitada em sua seção retilínea. Correspondia às igaratés e às ubás. Os portugueses conheciam-na em todo o longo do século XV, empurrada pelos braços negros dos africanos. Era, e bem podia ser, o pangaio, tone, lancha, piroga, escaler. Jangada é que não. Pero Vaz de Caminha denuncia, ele homem da cidade do Porto, não ter visto ainda as balsas atravessadoras de rios? Ou não as havia naquele último ano do século? Eram do Brasil tupi, as piperis ou igapebas.

Jangada, o português viu nas Índias, enfrentando sua esquadra, batendo-se pelo domínio marítimo. Mas o nome popularizou-se depois. Em 1500, não conheço menção. Vinha do dravidiano, da tâmil, tâmul ou timul, divulgado pelos malaios, janga, jangá, jangadan, a janga maior, igual as catamarãs dos mares índios.

Hans Staden, que ficou pelo litoral paulista não viu jangadas e é o primeiro autor estrangeiro a falar do Brasil em livro impresso. Jean de Léry habitando o Rio de Janeiro de março de 1557 a janeiro de 1558, fixou o piperi, como a via pular nas ondas da Guanabara, certains radeuax, quíls nomment piperis.

Eram feitas de cinco ou seis paus roliços, amarrados com cipós, guiadas avec un petit baston plat qui leur sertd´aviron. Remavam sentados, pernas estendidas, tendo a embarcação uma braça de longo por dois pés ou menos de largura. Apenas podia suster um único pescador. O raio de ação seria limitado. Mesmo assim, Jean de Léry propunha a piperi como excelente meio para atravessar rios, pântanos, lagos de águas paradas ou de correnteza diminuta, aos seus patrícios da doce terra de França.

Pero de Magalhães Gandavo teria escrito sua História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil ao redor de 1570 ou antes. O livro impresso em Lisboa, 1576, foi o primeiro a denominar piperis pelo nome malaio que ficou. Chamou-as jangadas.

“Também se sustentam do muito marisco e peixes que vão pescar pela costa em jangadas, que são uns três ou quatro paus pegados nos outros e juntos de modo que ficam à maneira dos dedos da mão estendida, sobre os quais podem ir duas ou três pessoas ou mais se forem os paus, porque são mui leves e sofrem muito peso em cima d’água. Têm quatorze ou quinze palmos de comprimento, e de grossura o redor, ocuparam dois mais ou menos.”

Ficou a jangada, desaparecendo piperis ou igapebas como as chamava Marcgrav, pondo ao pé o sinônimo lusitano, jangada.

No inimitável Gabriel Soares de Souza, jangada é corrente em 1587, indicando o pau com que eram fabricadas e o uso comum para “índios pescadores e mariscadores” que o fantástico ipupiara perseguia, faminto.

Ficaram pescando perto da costa, mariscando, suprindo os engenhos, confiando o emprego aos escravos brasileiros, os brasis. Não se aventurariam mar a fora sem possibilidade de direção segura e emprego do vento. Não há alusão quinhentista sobre vela em jangada ou qualquer embarcação aborígene.

Em novembro de 1635, uma jangada avançou mar a dentro, rompendo vaga, nevoeiro e distância, tentando comunicar-se com a esquadra de dom Lopo de Hozes e dom Rodrigo Lobo, que trazia reforços contra o holandês, dono da terra. Sem vela, bolina e remo de governo esta jangada não se atrevia a vencer as águas doidas do cabo de Santo Agostinho, para o alto, em direção deliberada e certa. Com um reminho era impossível.

Em desenho, o mais antigo é o de Marcgrav, na sua Brasiliae geographics & hydrographica tabula nova, etc. impressa em 1643. Registra uma jangadinha, com um só remador, tendo uma vela quadrada, pendendo duma carangueja. Nas jangadas, esta vela desapareceu, substituída pela latina, triangular, comum e única em nossos dias. Os indígenas batizaram-na de cu-tinga, língua branca, pela sugestão da forma.

Da pesca, sempre marítima, e transporte, continuou sendo veículo no século XVIII.

Durante esse século a popularidade não diminui. Ao passar de toda a guerra dos Mascates e suas repercussões, os dois lustros setecenntistas, é a jangada o meio de fácil escapula para conduzir conspiradores ou fugitivos para as praias distantes ou a Bahia. Para trazer víveres do Recife cercado pelos nobres de Olinda é a jangada fórmula incomparável, iludindo a vigilância dos barcos e das patrulhas e fortins espalhados ao longo da costa.

É o século do povoamento nordestino e decorrentemente a pescaria toma vulto e volumes essenciais. As jangadas enxameiam, acompanhando as piracemas, especialmente do pirabebe, o peixe-voador. Transportam sal para as salgas de carne secas ao sol. Entregam o peixe no curso dos rios maiores que se tornam navegáveis no tempo do inverno. É a fase em que nascem povoados de pescadores em sua maioria, olhando a pancada do mar, o arrais no alto do jirau, mirando a mancha negaceante dos cardumes. Também esta data centúria parte vultosa do plantio dos coqueirais que dariam à paisagem litorânea a moldura ornamental e linda.

É igualmente a jangada o transporte clandestino, silencioso, ideal para o contrabando. Contra o monopólio do sal nas salinas portuguesas, as jangadas nordestinas carregam o sal de Macau, de Areia Branca, de Aracati, e desaparecem, viajando de noite e passando a carga nas madrugadas aos portadores misteriosos e solícitos que o distribuíam na atividade de formigas incessantes. O sal era transportado em bruacas de couro cru. Uma canoa despertaria atenção fiscal repressora. Quem ia desconfiar da jangada humilde, inofensiva e facilmente aprisionada? Para o Nordeste, o monopólio do sal foi a mais inútil das leis portuguesas. Graças às jangadas.

O primeiro registro do século XIX é o de Henry Koster, olhando a costa de Pernambuco, rumo ao Recife, datado de 9 de dezembro de 1809. É registro descritivo completo, ao qual me reporto e dou fé, por denunciar a jangada com sua evolução terminada, vela triangular, bolina e remo de governo.

“Nada do que vimos neste dia excitou maior espanto que as jangadas vogando em todas as direções. São simples balsas, formadas de seis peças, duma espécie particular de madeira leve, ligadas ou encavilhadas juntamente, com uma grande vela latina, um remo que serve de leme, uma quilha que se faz passar entre as duas peças de pau; no centro, uma cadeira para o timoneiro e um longo bastão bifurcado, no qual suspendem o vaso que contém água e as provisões. O efeito que produzem estas balsas grosseiras é tanto maior e singular quanto não se percebem, mesmo a pequena distância, senão a vela e os dois homens que as dirigem. Singram mais próximos do vento que outra qualquer espécie de embarcação.”

Os aperfeiçoamentos, Koster fixou naquele final de 1809: a large latine sail, a paddle used as a rudder e a sliding keel, vela, remo de governo e bolina, indispensáveis e atuais.

Não interessam os demais quadros da jangada, vista pelo príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, em junho de 1815, do francês Tollenare, em novembro 1816 e de Elisabeth Cary Agassiz, em abril de 1865.

A jangada já estava, desde 1809, contemporânea, com seus possíveis trezentos séculos de existência obstinada.

Com sua idade veneranda, todos os dias, de Alagoas ao Ceará, largam as jangadas para a batalha cotidiana, embarcação do neolítico, orçando transatlânticos e hidroaviões trovejantes.

Em todas as paragens onde passava sua silhueta, o barco de vela, com capacidade superior, afastou-a, matando-a. já não bóiam na Polinésia os “pae-pae” decorativos. No Nordeste do Brasil, a jangada continua imperturbável.

Ignorando-a, Thor Heyerdahl, o navegador do Kon-Tiki, escreveu: “Não existia nenhuma pessoa viva no nosso tempo que nos pudesse ministrar um curso prático avançado de como governar uma jangada indígena”.

Quatro mil e duzentos jangadeiros responderiam ao convite…

(Cascudo, Luís da Câmara. Jangadeiros. Rio de Janeiro, Serviço de Informação Agrícola, 1957 (Documentário da Vida Rural 11))

 

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