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Folclore e alergia

Ernesto Mendes

As comemorações do mês do folclore proporcionaram oportunidades para debate de problemas que se afiguram por vezes banais e, porque não dizer infantis, aos olhos dos pesquisadores, e, que, por isso, nem sempre chegam ao conhecimento do grande público. É o caso do folclore e alergia.

Por incrível e estranho que pareça, até no folclore a alergia se faz presente, esclarecendo cientificamente algumas das crendices e superstições do nosso povo.

Provavelmente todos conhecem ou já ouviram falar dos malefícios provocados pelo contato com certas plantas nossas denominadas “aroeiras”. Claro que sim. Mormente aqueles que apreciam a vida do campo e das fazendas e se deliciam em ouvir histórias dos nossos caboclos, muitas delas versando sobre o poder diabólico da “árvore má”, ou “aroeira”.

Essas crenças perdem-se em datas longínquas, pois iremos encontrar no estudo do padre Teschauer sobre Avifauna e flora, nos costumes, superstições e lendas brasileiras e americanas a seguinte descrição, na linguagem peculiar da época da doença provocada pela “árvore má”: “A aroeira é temida por seus eflúvios, que excitam de tal maneira o sangue a algumas pessoas, em só passar por baixo dela ou mesmo só com o aproximar-se a ela, que adoecem de maneira alarmante. A uns põe em estado que os assemelha aos atacados de sarampo e a outros deixa-os turgidos e inchados.”

A descrição popular da “doença da aroeira” e a maneira de adquiri-la foi também analisada por Hermann von Shering, em 1892 no Anuário do estado do Rio Grande do Sul: “É muito curioso o efeito que sobre certas pessoas produzem os gases ou evaporações da aroeira. Há pessoas tão sensíveis a estes gases que bastam repousar ou trabalhar um pouco à sombra de uma árvore para ficar com o rosto e outras partes do corpo inflamadas. A pele fica vermelha e produz comichão; às vezes até aparece febre, que desaparece depois de dois ou três dias”.

Pio Correia faz referência à crença popular sobre os malefícios causados quer pelas emanações, quer pelo contato da citada planta, cujos eflúvios diabólicos são capazes de perturbar as próprias bússolas!

Nos dias que correm, essas lendas e superstições ainda persistem, convindo recordar uma superstição bastante difundida entre os camponeses, não só do Brasil como de países vizinhos, e que consiste em personificar a “aroeira”, de cuja ação maléfica acreditam ficar livres se, ao saudá-la, o façam ao contrário: se é de manhã dirão “Boa tarde, senhora aroeira”, e se é de tarde “Bom dia, senhora aroeira”. Esse pitoresco costume não ocorre somente no Brasil, pois Silva Valdes refere-se ao camponês uruguaio que “sin timidez alguna, sin importartesele un comino el assomro la sonrisa ironica de algun. Hace el clasico saludo ai revés, como si se tratase de un juego de ninos“.

Outra crença menos difundida é a de que, para passar incólume debaixo das aroeiras é necessário usar os sapatos trocados de pé.

Os supostos efeitos mágicos da “aroeira” têm sido explorados por alguns curandeiros da roça, que aconselham os pacientes portadores de sífilis e lepra que permaneçam uma noite sobre uma “aroeira”, para “curar” a enfermidade.

A origem dessas crenças encontra-se na diferente ação dessas plantas. Influenciando algumas pessoas e poupando outras. Esse modo particular de reagir de uma minoria constituiu o primeiro passo para supor-se que um mecanismo de reatividade alterada ou alergia estava em jogo. Realmente, somente as pessoas alérgicas às referidas plantas apresentam a doença.

A “doença da aroeira” é portanto, uma manifestação alérgica. Essa alergia é adquiria após um ou vários contatos com a planta, conhecendo-se mesmo casos de pesquisadores que induziram essa hipersensibilidade a pessoas normais. O mesmo acontece com certos animais de laboratório que também podem ser sensibilizados experimentalmente. O principio ativo encontra-se na resina das plantas, que se, após extração com éter ou acetona, for friccionada sobre a pele de pessoas sensíveis, poderá reproduzir experimentalmente a enfermidade.

Os sintomas da dermatite pela aroeira são cutâneos, e o decurso é geralmente benigno.

“Aroeira” é termo genérico de algumas plantas da família Anacardiaceas, representada pelos gêneros lithraea e Schnus. Essas plantas apresentam como uma de suas características canais resiníferos, por onde circula seiva leitosa ou resinosa. Essa seiva encerra as substâncias dotadas de poder alergênico.

A nomenclatura vulgar das espécies é copiosa: no Chile a espécie encontradiça é chamada de litre, cuja malignidade é cantada em verso por Neruda:

El sanginario litre y el benefico boldo
Diseminam su estilo en irritantes besos de animal esmeralda…

A espécie Lithraea molleiodes é designada na Argentina de mole blancomole dulcechichita, no Uruguai, aruera; no Brasil, aroeira branca. Outras espécies são chamadas no Uruguai de arbol maio e no Brasil de aroeira do mato, coração de bugre etc.

A substância química responsável pela reação alérgica já foi identificada, pertencendo ao grupo do uroshiol, e uma literatura médica apreciável é encontrada sobre o assunto, colocando em termos científicos o folclore lendário das aroeiras.

Mas, com toda certeza, ainda se passarão alguns decênios até que essas idéias novas sejam aceitas e compreendidas pelos nossos caboclos, pois as explicações científicas das crenças costumam encontrar resistência na alma do povo. Provavelmente, os nossos descendentes ainda terão oportunidade de ver o nosso homem do campo de chapéu na mão fazendo a saudação paradoxal ao entardecer: “Bom dia, senhora aroeira”.

(Mendes, Ernesto. “Folclore e alergia”. Folha de São Paulo. São Paulo, 4 de setembro de 1960)

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