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Os bailes pastoris e a influência de Gil Vicente

D. Martins de Oliveira

Não tenho a menor dúvida em afirmar que o nosso baile pastoril é diretamente influenciado pelos autos pastoris de Gil Vicente, esse admirável fundador do teatro português e que pode ser considerado como o pai do teatro no Brasil.

Isso vale por dizer que os jesuítas, introdutores do baile pastoril na Terra de Santa Cruz, imitaram o Gil Vicente das Obras de devoção, e que o nosso teatro mergulha suas raízes na Espanha quatrocentista. Porque apesar de o enciclopedista Erasmo haver aprendido o português para ler Gil Vicente e nele descobriu influências de Plauto; apesar das afirmações de que o “Plauto português” se inspirara no teatro francês, os críticos já demonstram à saciedade que Juan de la Encina fora seu verdadeiro modelo.

Garcia de Rezende, em sua Miscelânea, o disse, mesmo em verso:

“E vimos singularmente
Fazer representações.
D’estilo mui eloqüuente,
De mui novas invenções:
Ele foi quem inventou
Isto cá, é o usou
Com mais graça e mais doutrina,
Posto que Joam del Enzina
O pastoril começou”.

Esse poeta espanhol nasceu em Ensina, que lhe deu o sobrenome, entre 1458 e 1469, e faleceu em Salamanca em 1531. Gil Vicente nasceu em Lisboa aí por 1457 e faleceu em Évora em 1557. O primeiro foi attaché da corte de dom Manuel, o Venturoso, e de dom João III. De la Encina estudou em Salamanca, ordenou-se padre e foi diretor de música na capela de Leão XIII, visitou Jerusalém, para adorar o Santo Sepulcro, e escreveu uma memória de viagem intitulada Tribaia ou via sagra de Hierusalém. Suas primeiras obras já haviam aparecido de 1496 a 1516 e se intitulavam Cancioneiro de todas obras e Fision del Templo de Castilla.

Gil Vicente, que representava, também, suas peças e possuía qualidades para musicar seus versos, era dotado de um talento muito mais rico de recursos para o teatro, e sua verve, sua imaginação, sua espontaneidade, sua versatilidade colocoram-no cedo num destaque maior que o mestre, em todo a Península, pois das 48 peças de Gil Vicente, 16 foram escritas em espanhol, 15 em espanhol e português, e só as 17 restantes em sua língua natal.

É muito para se julgar como certo conhecimento das obras do padre Juan de la Encina por parte dos jesuítas vindos para o Brasil, muitos deles de origem espanhola, mas deveriam conhecer, indubitavelmente, e é possível que houvessem, mesmo, assistido às representações dos autos de Gil Vicente, pois muitos deles foram levados à cena, pela primeira vez, em mosteiros e capelas de Portugal.

Socorrendo-me do precioso livro Origenes del teatro espanol de Don L. F. de Moratin, (con um apêndice por Don E. de Ochoa, ed. da Libreria Euroréa de Baudry, 1838), verifiquei que Juan de la Encina representou uma édoga na noite de Natal de 1492, ano da descoberta da América por Colombo.

Esse diálogo, em verso, sem ação dramática, entre os dois pastores João e Mateus, foi feito perante o duque e a duquesa de Alba. O primeiro pastor, em nome de Juan de la Encina, oferece cem estrofes alusivas à festa à senhora Duquesa, e depois, aparecendo o segundo pastor como representante dos maledicentes e detratores, discutem. Vence João a malícia do ouro e se mostra ufano por ser recebido pelos nobres como um dos seus. Promete o pastor apresentar em maio a compilação de obras do poeta, que, segundo afirmava, outros usurpavam e corrompiam e que “no pensasen que toda su obra era pastoril, según alguns decian, mas antes conosciesen que á mas se estendia su saber“.

Na mesma noite de Natal, provavelmente em uma das salas do duque de Alba, diante de um presepe, após as rezas e na presença da família, foi representada uma segunda écloga, com a participação dos mesmos pastores João e Mateus e mais Lucas e Marcos encarnando os quatro evangelistas, que discreteiam sobre o nascimento de Cristo. A écloga, que não possui artifício dramático, conclui com um vilancete cantado.

Em 1495, diante dos mesmos duques seus protetores, Juan de la Encina, provavelmente como uma das personagens representou uma écloga com mais ação dramática e na qual a linguagem e o estilo são afeiçoados aos caracteres das figuras. A postorinha Pascuala, que ia cantando com o seu gado, entra na sala e no seu encalço vem o pastor Mingo (possivelmente encarnado por Juan de la Encina) e se põe a requestá-la. Aparece um escudeiro, que também se deixa tomar de amores pela pastora, há uma disputa entre ambos, e Gil, o escudeiro, se torna pastor por amor de Pascuala.

No ano seguinte, uma nova écloga, com as mesmas personagens, é representada nos salões do duque de Alba. O pastor Gil entra, e Mingo, que se achava em sua companhia, detem-se na porta, espantado, não ousando ali penetrar, mas com a insistência de Gil cede e, em nome de Juan de la Encina, vai até onde se acham o duque e a duquesa, apresenta-lhe a compilação das suas obras, prometendo-lhes não trovar mais, a menos que eles o mandassem. A seguir, os dois pastores chamam a Pascuala e a Menga e, cantando, bailam todos. Estabele-se, depois, uma conversação entre as personagens. Gil, o antigo escudeiro que se tornara pastor, um ano atrás, por causa de Pascuala. Mingo e sua esposa Menga, vendo-os em trajes tão elegantes, sentem inveja e se livram das vestes pastoris, desejando desfrutar, também, da vida cortesã. Cantam, por fim, muito bem ataviados, o vilancete final, de boa inspiração.

É do mesmo ano de 1496 o auto por Juan de la Encina, e não écloga ou representação, como ele próprio chamava as outras peças. Trata-se de um diálogo sem movimentação dramática, escrito em verso e em linguagem grosseira e rústica. Creio, mesmo, que deveria ter sido por esse motivo que o poeta espanhol lhe dera a designação de auto. Pois esta palavra não designa uma antiga composição dramática, uma narração escrita, autêntica, de um ato? A um conjunto de narrações autênticas se chamou na vida judicial de autos, expressão corrente no Fórum, ainda hoje, para designar processo. A parte de cada personagem era sua declaração, seu depoimento, o auto na cópia, em bela letra, devidamente rubricada pelo autor, auto na cena, por ser uma narrativa.

As personagens da peça referida são Piernicurto e Johan Paramas, que vendem suas mercadorias na feira, quando chegam alguns estudantes que os maltratam e os expulsam aos repelões. Fogem os aldeões amendrontados, e Johan Paramas, entrando na sala da casa de um cavaleiro, conta o acontecimento. Aparece Piernicurto na sacada e refere que toda a mercadoria se havia perdido. Cuidam de desforço, quando aparece um estudante e, sendo apenas um, põem-se os aldeões fora da sala. Surgem outros dois pastores e Johan Paramas canta um vilancete.

Ainda em 1496 se representa outra écloga de Juan de la Encina, escrita em verso e na qual são figurantes dois pastores, um escudeiro, e o assunto é a queixa de um pastor ferido pela flecha do amor. O mesmo motivo sentimental aparece mais rico numa écloga representada no ano seguinte, e na qual o pastor Fileno, preso de amores por Zéfira, não sendo por ela correspondido, desse se queixa aos seus companheiros Zambardo e Cardônio, e como não ache remédio para seu mal, resolve matar-se.

Referirei mais uma écloga de 1498, representada na noite de Natal e da qual participam 4 pastores — Miguellejo, Juan, Rodrigacho e Antom, que discutem sobre os infortúnios das grandes chuvas e a morte de um sacristão, quando um anjo aparece para anunciar o nascimento do Salvador. É um diálogo em estilo rústico, de enredo incongruente.

O gênero pastoril teve imitadores, mesmo na Espanha, e pode ser referido o Diálogo del acimiento, de Bartolomé de Torres Navarro, peça em que há um introito e um argumento. Dois peregrinos se encontram na noite de Natal, perto de Roma: um vem de Santiago e o outro de Jerusalém, falam longamente do nascimento de Cristo, ventilando questões teológicas, num estilo pedante e intricado. Já vai fastidiosa a conversa e resolvem, por fim, prosseguir viagem, esperando alojarem-se no hospital dos espanhóis. Chegam os dois pastores Hernando e Garrapata, que convidam os peregrinos para assistirem à missa do galo, e se vão cantando um vilanete.

Esse Bartolomé Torres de Navarro, apesar de representado na Itália, é bem inferior a Juan de la Encina, além de ser meio impudico.

Indiscutivelmente mediocre é o Auto nuevo del santo nacimiento de Cristo Nuestro Señor, composto por Juan Pastor, impresso em Sevilha, em 1528. As personagens são o imperador Otaviano, seu secretário, um pregoeiro, um velho chamado Blas Toznelo, ma bobo, seu filho Perico, São José, Santa Maria, pastores, Miguel Recalvado, Anton Morcilla, Juan Relleno e um anjo. É obra destituída de qualquer valor estético.

O pastoril ia ter expressão muito mais viva em Portugal, com Gil Vicente, mas a princípio, quase decalcado de Juan de la Encina. Ele inspira, mesmo, a forma de sua aparição, no segundo dia do nascimento de dom João III em 1502, uma simples écloga para distrair a rainha mãe, na sua alcova, com um presente. Era mais uma vitória do ator do que do autor, pois a parturiente parece haver achado excessivo o poeta e lhe pediu para que repetisse sua representação no próximo dia de Natal. Gil Vicente aquiseceu e houve por bem modificar a écloga, enriquecendo-a de mais estrofes.

A obra de Gil vicente exige uma crônica especial. Carecemos, agora, de espaço para divulgação de mais um baile pastoril brasileiro, como fora prometido.

Baile pastoril do cupido

Sai o cupido preso entre seis pastoras e com os olhos vendados. As pastoras cantam bailando:

Se o amor divino
Por nós foi nascido,
O amor humano
Se veja abatido.

Vivam, com prazeres
Nossos corações
Porque já se acabaram
Mundanas paixões.

A humanidade
Abate o cupido
Para vir adorar
A Jesus nascido.

O cego cupido
Se vê prisioneiro
Aos pés de Jesus
Amor verdadeiro.

Meu Menino Deus
Cupido aqui está
Preso em uma corrente
Por nos enganar.

Ajoelha, cupido
Aos pés do Menino
Que é o sol divino.

Fala a primeira pastora:

Hoje, sentirás, cupido
Os castigos mais tiranos
Por trazeres enganados
Os corações dos humanos.

Segunda pastora:

Hoje, com felicidade
Só zombo de ti, cupido
Tendo no Senhor menino
Um amor firme rendido.

Terceira pastora:

Quem tem o Senhor Menino
Detro do seu coração
Com os pés pisa cupido
Sem dele ter compaixão.

Quarta pastora:

Feliz eu, que em Jesus
Empregarei o meu amor;
Abandonei o cupido
Como fero atentador.

Quinta pastora:

Andarás acorrentado
Muito aflito e angustiado
Serás sempre um infeliz
E por todos maltratado.

Sexta pastora:

Cheio de setas, cupido,
Ser invencível tentaste;
Enganas os corações
Que tu jamais exaltaste.

Cantam todos bailando:

Com as tuas setas
Não terás poder
O Senhor Menino
Nos há de valer.

E só viverás
Em nossas prisões
Porque Deus domina
Nossos corações.

Cupido se levanta e fala:

Pastoras não abandonem
Com tirania o amor.
De que sou o retrato
Com o mesmo resplendor.

Fazer com que queiram bem
Uns aos outros, nisso sou
Discípulo, porque Jesus
Amar foi quem me ensinou.

Ele nos seus mandamentos
Nos diz com lição boa
Que ao próximo amaremos
bem como a nossa pessoa.

O nosso bom Deus, amante,
Com amorosas ternuras,
Veio tomar carne humana
Pelas suas criaturas.

Ele também é meu Deus;
Sou também, como ele, amante.
Sendo por ele ensinado
Sou um mestre semelhante.

Ele nos ensina a amar,
Pela sua divindade
Deus domina corpo e alma,
Amor domina a vontade.

Cantam todas as pastoras:

Abre os olhos, cupido,
Avista o Menino
Que terás o agrado
Do amor divino.

Das grossas correntes
Se livre, cupido
Para vir adorar
A Jesus nascido.

Cupido fala:

Pastora, vos agradeço
Esta nobre bizarria
De soltarem-me da prisão
Em que aflito me via.

Agora, formemos o baile
Em louvor a Deus Menino
Que se quis fazer humano
Sendo ele divino.

Cupido canta:

Humano se fez,
Eterno Senhor
É humano e divino
Pelo seu amor.

Repetem todos o mesmo

Primeira e segunda pastoras cantam:

Depois que abandonei
Do amor a cega paixão,
Só vós, meu Menino, sois
Senhor do meu coração.

Cupido canta:

Humano se fez
Eterno Senhor etc.

Repetem todas o mesmo

Terceira e quarta pastoras cantam:

Com o vosso nascimento,
Fiquei, Jesus, tão mudada
que desprezei os humanos
No vosso amor empregada.

Cupido canta:

Humano se fez
Eterno Senhor etc.

Repetem todas:

Cantam a quinta e a sexta pastoras:

Para eu ser firme e amante
Só me basta ter amor,
Pois Jesus por nos remir
É o nosso criador.

Cupido canta:

Humano se fez
Eterno Senhor.
É humano e divino
Pelo seu amor.

Repetem todas o mesmo e saem

(Oliveira, D. Martins de. “Os bailes pastoris e a influência de Gil Vicente”. Cultura Política. Rio de Janeiro, ano 2, nº 19, setembro de 1942)

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