Jangada Brasil

Pastoril no Recife

Valdemar Valente

O pastoril — encarnação profana do auto natalino — em seus aspectos coreográfico e lúdicos, como em suas feições musicais e um tanto dramáticas, à maneira do que ocorre com o bumba-meu-boi, do mamulengo e do fandango, coloca-se entre os principais espetáculos populares do Nordeste. De tais espetáculos, participa o povo ativamente, com suas estimulantes interferências, não se comportando apenas como passivo espectador, a exemplo do que acontece nos espetáculos eruditos. Muitas destas interferências servindo de deixa para inteligentes e engraçadas improvisações, imprimindo ao espetáculo formas diferentes e inesperadas de movimentação. A comunicação entre o palco e a platéia, entre os personagens e os espectadores, não se faz somente sob influência que a peça, pelo sue enredo e pelo seu conteúdo temático, possa exercer sobre a assistência. Nem simplesmente por meio de convencionais aplausos, quase sempre sob forma de palmas, em sinal de agrado ou de incentivo. Também se faz através de vaias e de assobios, de gritos e de pregões, de piadas e ditos, de apelidos e descomposturas. Tudo isto enriquecendo o espetáculo de elementos novos de atração. Tudo isto dando ao espetáculo nova motivação, reativando-o e recriando-o pela substituição de elementos menos válidos, do ponto de vista de sua função sócio-cultural, por outros mais atuantes e mais condinzentes com o gosto e os interesses momentâneos da comunidade para a qual se exibe. Deste modo, revitaliza-se o espetáculo, permancendo sempre dinâmico e atualizado. Alimentando no espírito do povo e no dos próprios personagens um conteúdo emocional que tem no imprevisto e no suspense sua principal tônica.

É no teatro grego, na comédia italiana dell’arte, no teatro popular latino e na dramaturgia elisabetana — lembra Hermilo Borba Filho — que se encontram as raízes dos espetáculos populares do Nordeste. Alguns deles, como o mamulengo e o bumba-meu-boi, fazendo da pancadaria sua mais forte diversão, numa manifesta prova de fidelidade às farsas populares, que vêm desde a comédia italiana dell’arte à comédia de pastelão do cinema mudo, sem esquecer as pantomimas dos circos de cavalinhos.

O pastoril integra o ciclo das festas natalinas do Nordeste. Particularmente, em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas.

Nos começos, o auto natalino, que deu origem ao pastoril, não passava de drama hierático do nascimento de Jesus Cristo, com bailados e cantos especiais, numa significativa e dinâmica evocação do nascimento do Divino Redentor.

Ao que parece, deve-se a São Francisco de Assis, na terceira década do século XII, em Greciom, a primeira apresentação teatral da cena da Natividade. Uma espécie de prelúdio dos pastoris, presépios e lapinhas.

Por volta de 1510, o tema passou a figurar nos autos hieráticos, como o da Sybilla Cassandra, de Gil Vicente do qual Pereira da Costa, em seu Folclore pernambucano recorda os seguintes versos:

Em Belém vila do amor
Da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada

Da rosa nasceu a flor
Para Nosso Salvador
Virgem sagrada

Nas jornadas — equivalente a cenas ou autos — que se cantavam, quase sempre sem continuidade temática, inteiramente soltas, nos pastoris do Recife, no primeiro quartel do século atual, e ainda hoje se cantam, com versões diferentes em face de naturais mudanças sócio-culturais, em algumas cidades do interior pernambucano — principalmente as que ficam beirando os limites sempre instáveis do chamado Grande Recife, como Cabo, Escada, Ribeirão, Ipojuca, Serinhaém, Goiana, També, São Lourenço da Mata, Pau d’Alho e Carpina — os seguintes versos recordam os quinhentistas gilvicentinos:

Da cepa nasceu a rama
Da rama nasceu a flor
E da flor nasceu Maria
Mãe de Nosso Senhor

Mais tarde, os autos que conservaram a linha hierática receberam o nome de presépios. Às vezes, também de lapinhas.

Em Pernambuco, os presépios surgiram nos fins do século XVI, em cerimônia realizada no convento de São Francisco, de Olinda, por iniciativa de frei Gaspar de Santo Antônio, que, por sinal, foi o primeiro a receber hábito no Brasil.

Com as pastoras cantando loas, tomou o presépio não só forma animada, mas dramática, ao lado da pura representação estática, com figuras de gente e de bichos.

A dramatização do tema, agindo em função didática, surgiu como necessidade de mais fácil compreensão do episódio da Natividade. A cena parada, embora de sentido evocativo, do nascimento de Jesus, movimenta-se, ganha vida, sai do seu mutismo, com a incorporação de recursos, não apenas visuais, também sonoros. Nesta dramatização, percebe-se a influência do auto sacramental espanhol. Tem razão Hermilo Borba quando valoriza tal influência. O auto, baseado no tema natalino, de popular que era nos seus começos, sob certas influências, assume, por vezes, forma literária. Tomando-se outros caminhos, transforma-se em sincretismo profano-religioso, tornando-se em alguns casos inteiramente profano. É neste aspecto que se torna licencioso e obceno, chegando mesmo a salientar-se pelo exagero pornográfico.

Por volta de 1840, começam a aparecer sociedades com o fim de “dirigir com solenidade, brilhantismo e decência o natalício do Messias, por meio de representações teatrais análogas ao ato”, informa Pereira da Costa.

Tais sociedades contribuiram para dar forma literária ao pastoril, tornando possível sua exibição como espetáculo. Entre elas, destacam-se a Sociedade Natalense e a Nova Pastoril, ambas fundadas em Pernambuco. Sociedades que contavam com a colaboração de poetas, entre os quais, Patrício José de Souza, a quem se deve a solfa dos pastoris.

Escritores e artistas locais quase sempre participavam da vida dos presépios, dando-lhes letras e músicas.

Flausino Rodrigues Vale, em Elementos de folclore musical brasileiro, fala de “uma certa madre Carlina, do convento de Nossa Senhora dos Humildes” que, na Bahia, ficou popular pelos versos que escreveu para os bailes pastoris.

Manuel Querino, em Bahia de outrora, refere-se a João da Veiga Muricy, Santos Reis, Olímpio Pitanga e padre Maximiano Xavier de Santana, que também foram poetas de pastoril.

A Sociedade Natalense fez exibições, com grande aparato, na igreja do Colégio dos Jesuítas. Um dos responsáveis pelos autos foi Modesto Francisco das Chagas Canabarro.

Ainda hoje, os irmãos Valença — o compositor João e o poeta Raul — conseguem apresentar, quase todos os anos, um presépio, nos moldes dos autos hieráticos novecentistas.

Faz justiça Ascenso Ferreira quando diz que tal presépio é patrimônio da família Valença. No Recife, foi encenado pela primeira vez, em 1865, em plena guerra do Paraguai, pelo avô dos dois conhecidos musicistas regionais, João e Raul Valença.

A tradição foi mantida pelo pai dos atuais compositores, até as proximidades de 1900. Depois da interrupção de alguns anos, voltou o presépio a ser apresentado pelos irmãos Valença, no mesmo local em que começou no século passado: um sítio entre a Madalena e o Zumbi.

Até 1967, exibiu-se o presépio dos irmãos Valença, conservando os traços característicos de auto sacramental.

As sociedades Natalense e Nova Pastoril não contribuíram apenas para conferir aspecto literário aos autos pastoris, permitindo-lhes apresentação sob forma de espetáculo. Tentaram também exercer controle moral e religioso, evitando o desvirtuamento dos presépios, nos seus aspectos e objetivos originais. Valeram assim como um esforço no sentido de impedir o enxerto de cenas e passagens burlescas e até licenciosas, nada compatíveis com a seriedade do ato sagrado que se pretendia reproduzir.

Os jornais da época censuravam o ar indecente de que se revestiam certos presépios, lembrando que a polícia, no seu propósito de zelar pela moral pública e pelos bons costumes, devia cancelar o seu funcionamento.

Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, apelidado de padre Carapuceiro, que fizera crítica de costumes na primeira metade do século XIX, não só em Pernambuco, através de seu jornal O Carapuceiro, mas no Rio de Janeiro, com O Carapuceiro na corte, condenava — à maneira que também fez com bumba-meu-boi — as licenciosidades do pastoril. Em 1840, escrevia: “Esta parece ser uma folgança endêmica do nosso Pernambuco. Em se aproximando o Natal, surgem de todas aspartes os presépios, sendo a cidade de Olinda o lugar mais abundante deste gênero. Ali há presépios de pastorinhas, de pastoronas e até de machacazes conhecidos por pastorões. Começam na noite de Natal e repetem-se todas as noites até o dia de Reis, depois do qual entra por seu turno o ato de queimar as palhinhas de cada presépio, o que constitui nova folgança. As pastorinhas, pastoronas e pastorões cantam diversas endeixas, dançam em cadência e repetem suas loas em honra e louvor de Jesus Cristo recém-nascido. Muitas vezes no presépio de meninas de 14, 15 anos, aparece uma pastorinha já de idade canônica, que dirige o baile e é uma espécie de abelha-mestra do cortiço. Para tais presépios afluem os maganos como moscas para um prato de mel e ali ferram-se namoros, ali aparecem requebros de parte a parte, ali se domesticam e amansam algumas ovelhinhas para o sacrifício. Tudo em honra, aplauso e devoção do Deus Menino. Ali os fervorosos devotos estão como embevecidos na contemplação de piedade e santo fervor com que as louçãs pastorinhas saracoteam as ancas e se rebolam com tanta devoção, que parecem espiritadas. Nestes presépios há sempre no cabo da festança arrematação de frutos e flores que o ornavam. Então picam-se os lances e nem é maravilha ver um dos devotos dar por um cravo 10, 12 e 16 mil réis, para com ele brindar a pastorinha, que traz de olho, e lhe rouba as atenções. E como há de a pastorinha Chiquinha resistir ao sr. Manezinho, se ele se estréia para com ela com tanta generosidade? Daqui fácil de concluir que ela virá também a estrear-se com ele em seus obséquios pelo antigo adágio que diz: uma mão lava a outra”.

Alterados em suas originais formas hieráticas, sob influência de gostos e preferências, no tempo e no espaço, aceitando a participação de espectadores na animação das cenas, fugindo do enredo e da temática, enchendo-se de jocosidades e anacronismos, tornaram-se os presépios formas precursoras do pastoril, que teve seu esplendor nos vinte e cinco primeiros anos do século XX.

No auto natalino distinguem-se, nitidamente, duas tendências teatrais: uma, dando o presépio, outra, o pastoril. O presépio, em sua forma original, fiel à dignidade da homenagem que pretende prestar ao nascimento de Jesus, é tipicamente hierático: dramático, no mode de obdecer à seqüência das cenas e sacramental no modo de ser cristão. Caracteristicamente piedoso na maneira humilde e respeitosa de ser religioso.

O pastoril é presépio profano. Mais do que isso: irreverente, licencioso, imoral.

O presépio, em sua autenticidade original, focaliza o nascimento de Jesus sendo sempre iniciativa de comunidades religiosas ou de devoções familiares.

O pastoril é representação que parte da iniciativa leiga, sem perder contudo, ao menos sob forma de pretexto, sua ligação com festas religiosas, principalmente do ciclo natalino.

Os presépios são representados por mocinhas ou meninas de família. Bolos, perfumes, frutas, flores e outras prendas que as pastorinhas dos presépios conseguem angariar, são vendidos em leilão, revertendo o dinheiro em benefício de instituições religiosas ou de obras de caridade.

Nos presépios mais puros, isto é, mais apegados à tradição natalina, as jornadas finais, que fazem parte da chamada queima da lapinha — expressão que, provavelmente, recorda a lapa onde nasceu Jesus — que consiste realmente na queima das palhinhas, são antecedidas dos seguintes versos:

Vamos companheiras, vamos
Vamos todas a Belém
Para queimar as palhinhas
Onde nasceu nosso bem

É evidente a alusão ao nascimento de Jesus. Nesta alusão está plenamente configurado o aspecto hierático da canção.

As jornadas da queima da lapinha, arrematando a representação, mostram a continuidade do motivo religioso:

A nossa lapinha
Já vai se queimar
De cravos, de rosas
Devemos chorar

Queimemos, queimemos
A nossa lapinha
De cravos, de rosas
De belas florinhas

Queimemos, queimemos
Gentis pastorinhas
As secas palhinhas
Da nossa lapinha

A nossa lapinha
Já está se queimando
E nosso brinquedo
Está se acabando

As nossas palhinhas
Já estão se queimando
E nós pastorinhas
Nós vamos chorando

A nossa lapinha
Já se queimou
E o nosso brinquedo
Já se acabou

Nem sempre cabia a jovens o desempenho do pastoril. Dele se encarregavam também mulheres feitas.

Nos pastoris do Recife, que sobreviveram até terceira década do nosso século, as pastoras eram quase sempre mulhres de reputação duvidosa. Quando não eram declaradas raparigas. Estas, quase sempre, mulheres de 30 ou mesmo de mais de 30. Muitas delas, famosas pelos nomes de guerra ou apelidos, aos quais, o pasquim O prego, que circulou na segunda década de 1900, dedicava a seção de primeira página, sob o título de “Na zona”.

Entre tais apelidos e nomes de guerra, alguns valem a pena lembrar: Xandu Pequena, Erenestina Dente de Ouro, Mariquinha Peito Arriado, Lulu Pantorra, Laura Cemitério, Zefa Boca de Cambrone, Maroca 19, Zizi do Rego Aberto. Gritados em coro, no meio da multidão irreverente, desmancharam o prestígio de muitas pastoras. Contrabalançando os apelidos arrasadores, havia também os galanteadores. Entre eles: Maura Boca de Jasmim, Judite Bem-Feita, Juju Canarinha, Virgínia Pé-de-Ouro, Camila Alfenim.

No pastoril, o leilão é também muito freqüente. Em lugar de bolos e perfumes, arrematam-se flores, sendo os pregões feitos por figuras masculinas — os chamados velhos — que servem de animadores. O produto dos lances pertence às pastoras. É uma ajuda para os gastos que fazem com paramentos e roupas. Não apenas vestidos, sempre muito curtos, acima dos joelhos, constituindo-se, ao tempo, com o escândalo que provocavam, numa espécie de antecipação da mini-saia — com decotes arrojados, deixando os seios quase de fora, em ostensiva provocação. Também sapatos, fitas, meias, ligas, porta-seios de cores berrantes, flores para os diademas, grinaldas, que às vezes conduziam às mãos, colares e pulseiras, pós-de-arroz tipo “dantas barreto”, e extratos patchulis.

Na composição dos bailes pastoris, sob provável influência de clubes carnavalescos, entram dois grupos chamados de cordões. O cordão encarnado e o cordão azul. No cordão encarnado figuram: a mestra, a primeira do encarnado e a segunda do encarnado. Do cordão azul fazem parte: a contra-mestra, a primeira do azul e a segunda do azul.

A presença dos cordões, azul e encarnado, deu origem à formação de partidos, cada qual se batendo pela cor de sua predileção. A rivalidade tomou forma organizada, exaltando-se com a luta entre os partidos.

Não poucas vezes, terminaram os pastoris do Recife em sangangu e bordoada. Quando não em facada e tiro. Para isto, concorrendo a presença ameaçadora dos brabos e arruaceiros. Sobretudo, nas dias primeiras décadas do século XX. Nesta época, tiveram seus grandes momentos no Recife os brabos do Poço da Panela, da Estrada Nova, de Santo Amaro das Salinas, dos Afogados, do Beco da Facada, da Avenida Malaquias, dos Coelhos, da Ilha do Leite, do Fundão e da Bomba do Hemetério. Brabos que deixaram rica tradição de proezas e valentias, que a poesia de cordel imortalizou em verdadeiras canções de gesta. Entre estes brabos e valentões, alguns merecem destaque pelo sentido quase heróico de suas façanhas. São eles: Antônio Padeiro, João Sabe Tudo, Jovino dos Coelhos, Antônio Tutano, João Calé. Contudo, nenhum deles conseguiu sobrepujar ou mesmo igualar a Nascimento Grande, que foi, sem dúvida, o mais famoso dos brabos recifenses, pelo seu porte gigantesco, sua força hercúlea, a habilidade com que manejava a possante bengala, o punhal e em casos extremos, a pistola. De coragem espantosa, esgrimindo pernas e braços, como espetacular virtuose da capoeira, era capaz de derrubar e botar para correr grupos inteiros de soldados de polícia.

Entre os dois cordões do pastoril, como elemento neutro, às vezes também moderador das contendas entre simpatizantes e torcedores mais exaltados, baila a Diana, com seu vestido metade encarnado, metade azul.

Mestra, contra-mestra, primeira do encarnado, segunda do encarnado, primeira do azul, segunda do azul e Diana sempre foram as figuras obrigatórias dos pastoris.

Como acontece com os outros espetáculos populares do Nordeste, o elemento cômico não podia deixar de incorporar-se ao pastoril. “Talvez”, como pensa Hermilo Borba em excelente ensaio, “pelo desejo dos autores ou organizadores de atrair um público cada vez maior, dando mais liberdade de tratamento ao auto”. Ao lado desta razão, creio que outra ainda deve ter influído: pela sua própria função social, como espetáculo particularmente popular, a integração do elemento cômico seria capaz de dar ao pastoril — como acontece com os outros espetáculos populares, bumba-meu-boi, mamulengo e fandango, por exemplo, um maior poder de comunicabilidade. Aceitando a participação do povo e aproveitando suas interferências para improvisações oportunas e condizentes com a própria mentalidade e o próprio ethos das pequenas comunidades onde o pastoril se exibe.

O burlesco e o cômico permitem que o povo fique mais à vontade para participar de cenas e passagens do espetáculo.

Do desempenho ativo da comicidade encarrega-se o velho, também chamado de Bedegueba. Sua função específica é fazer graça. Uma espécie de clown ou palhaço de circo, com caracterização adequada e roupa espalhafatosa. Geralmente um fraque surrado, às vezes imenso paletó, colete, enorme colarinho, gravata tão grande que faz lembrar a estola do padre, cartola de cano alto, também a bacorinha ou chapéu de palhinha.

De figura excêntrica, na função de provocar hilaridade, excedia-se quase sempre o velho. Nem que para isto fosse necessário soltar a taramela e despejar imoralidades. Largava piadas, marcadas de pornografia, cantava modinhas picantes e indecentes, como aquela do jogo do bicho, contava anedotas, mexia com os assistentes, de preferência pessoas de mais representação social ou importância política, numa indisfarçável chantagem para arrancar dinheiro. Também dialogava com as pastoras, com seus ditos apimentados e suas brincadeiras geralmente obscenas.

Era o velho elemento importante na comunicação entre o povo e o espetáculo.

No Nordeste, de modo geral, e particularmente em Pernambuco, o pastoril pode ser considerado como forma precursora do teatro popular. Daí a função significativa que sempre exerceu na vida social de Pernambuco e do Nordeste.

Embora, surgissem pastoris no correr do ano, e alguns dispusessem de locais fixos, como o do velho Bahu, que funcionava todos os sábados, ora na Torre, ora na ilha do Leite, e teatros, como o da Capunga, anunciando grande e variado espetáculo pastoril, com entrada paga, sua exibição se fazia abertamente, de graça, e diga-se de passagem — com mais animação nas proximidades do Natal, embora, em certas ocasiões, estendendo-se suas funções até a semana anterior ao carnaval.

De qualquer maneira, era durante os festejos do ciclo natalino, pegando Festa, Ano Bom e Reis, que os pastoris se apresentavam com seu máximo esplendor.

Afogados, Campina do Bodé (hoje praça Sérgio Loreto), Coelhos, Várzea, Caxangá, Beco do Rodolfo (Madalena), Praça da Torre, Matinha (atual Rosarinho), ilha do Leite (que, se chama agora Bairro Capibaribe), Bomba do Hemetério, Santo Amaro, Poço da Panela, Olinda (geralmente considerada como arrabalde de Recife), eram os locais onde se exibiam os pastoris recifenses de mais forte tradição.

Entre os velhos, é de justiça lembrar: Herotides, Amaro Canela de Aço, Catota, Galo Velho, Cebola, Bahu, Arrocha, Zuza, Berto, Moura Pitelo, Amaro Castelo, Leopoldo, Futrica, Palmeira, Ferrugem, Biu de Ceciliano, Dornela, Puro Sangue, Charlote, Jatobá, Carrapicho, José Garapa, Taiobinha. Quase todos com seus apelidos, que eram como penanches de guerra.

O auto natalino, deixando de ser presépio para ser pastoril, perdendo seu ar hierático e piedoso para tornar-se profano, senão licencioso e imoral, saindo do amadorismo para entrar no profissionalismo. Conquistou outro elemento importante de atração: a franquia sexual. Namoros, encontros clandestinos, bolinagens, fugas, raptos, amancebamentos e até — embora, mais raramente — matrimônios abençoados na igreja eram acontecimentos que se ligavam também à vida dos pastoris.

O pastoril, numa época em que não havia clubes sociais, muito menos rádio e televisão, nem boites, nem palhoças, nem inferninhos, com poucos cinemas e raros teatros — estes, só esporadicamente funcionando com alguma companhia lírica, de operetas ou revistas — sem as inpumeras atrações que existem hoje, era acontecimento que o povo aguardava com ansiedade, e até num clima emocional e de suspense. Cada arrabalde tinha o seu pastoril e o seu público.

Discutiam-se as habilidades coreográficas das pastoras. A beleza e o luxo das vestimentas. As loas, as cançonetas, as jornadas. As pernas bem feitas da mestra. Os seios atarentes da contra-mestra. A voz harmoniosa da Diana. O rosto encantador da primeira do encarnado. A capacidade de improvisar do velho, com suas fanfarronices e suas invenciosidades.

Os homens — entre os quais se incluíam personalidades importantes — esperavam ansiosos o aparecimento de pastoras, anunciadas em reclames um tanto eróticos.

Nas noites de Natal e Ano Bom, logo depois da missa do galo ou em seguida aos foguetes que anunciavam a passagem do ano, tinha início a função dos pastoris.

A exibição se fazia sobre tablados ou palanques, arrumavam-se os músicos.

A orquestra do pastoril geralmente incluía bombo, trombone, pistão, trombone, clarineta, bombardino ou bombardão e pratos. Maracás e pandeiros acompanhavam os cantos, tocados respectivamente pela mestra e pela contra-mestra.

Uma hora antes da função, já estavam os músicos afinando seus instrumentos. No momento de começar, os bombos rufavam forte.

Certos ditos populares — alguns deles anotados por Ascenço Ferreira — nasceram no pastoril. Ditos que foram lançados pelos velhos e fizeram época. Entre eles: “pega o pirão, esmorecido!” “Espicha, couro velho!”

O primeiro, nasceu do seguinte episódio. Político muito conhecido arrematara, com lance de 20$000 (o que era uma fortuna na época) o cravo de uma pastora, pela qual vivia embeiçado. Na hora de receber o cravo, diante dos insistentes chamados dos velhos, e dos assobios e vaias da molequeira, ficou encabulado. O braço do felizardo não se estendia para apanhar a prenda da mão da própria pastora. Impaciente com a demora, gritou o velho de cima do palanque: “pega o pirão, esmorecido!” Neste momento, risadas, gritos, assobios, vaias, estrondaram nos ares. O ditado caiu no goto do povo. Espalhou-se feito coqueluche. Durante vários anos o circulou em toda a parte.

O outro originou-se assim: por mais que se esforçasse, uma pastora, velha e desengonçada, não conseguia alcançar, em cima do tablado, a mão do rapaz para entregar-lhe a flor que havia conquistado com maior lance. O velho não perdeu a oportunidade. Largou a piada: “espicha, couro velho!” O ditado pegou e tomou conta da cidade. Outros ditos populares, também nascidos nos pastoris, como sempre criação dos velhos, merecem ser recordados. Entre eles: “Me leva cor de rosa!” “Desarma a rede”. “Ai, que ele é do mato!”

Na sua função de animador do pastoril, comunicando-se com os espectadores, deles recebendo estímulos para suas improvisações, aceitavam os velhos gorjetas para desfilar as suas irreverências e descomposturas. Tarefa — diga-se, de passagem — geralmente perigosa. Por causa disso, houve velhos que sofreram agressão a cacete e a punhal.

A coisa se fazia assim: sorrateiramente, sem ser percebido, um espectador aproximava-se do tablado, fazendo sinal para o velho, que se abaixava para escutar o cochicho: “dez tostões para dar um ‘baile’ em fulano”. Geralmente, era algum inimigo, de quem queria vingar-se. Acertado o contrato, fazia o velho um “apanhado” do “meus senhores, olhem só a pose dele: paletó de alpaca preta,calça de linho branco, sapato comouflage, gravata borboleta, com broche de brilhante, chapéu de palhinha, bengala de volta”. Depois de focar a vítima, desancava sem dó, nem piedade:

Xique-xique de lagoa
Tamanco de pedreiro
Escarradeira de hospital
Lençol de bexiguento

Sovaco de aleijado
Pancada na canela
Penico de barro
Bode fedorento
Boi do Piauí

Na Campina do Bodé, durante a exibição de um pastoril, houve terrível charivari por causa de um baile. O homem que recebeu o baile se espalhou, deu tiros, provocando pânico geral, com histéricas correrias e encerramento antecipado do pastoril. Tudopor caua do boi do Piauí.

Tem razão Téo Brandão, em Folguedos populares de Alagoas, quando diz que as canções dançadas, sucedem-se, uma após outra, “semqualquer diálogo ou texto falado a ligá-las, nem mesmo, na maioria dos pastoris, sem qualquer ordem ou seqüência lógica”. De fato, só as jornadas iniciais, as chamadas boa-noite, e as finais, que correspondem às despedidas, fazem referência ao episódio do nascimento de Jesus.

Entre as versões das jornadas de abertura, as seguintes são muito cantadas:

Coro
Boa noite, meus senhores todos
Boa noite, senhoras também
Somos pastoras
Pastorinhas belas
Que alegremente
Vamos a Belém

Sou a mestra
Do cordão encarnado
O meu cordão
Eu sei dominar

bis

Eu peço palmas
Peço riso e flores
Ao partidário
Eu peço proteção

Sou a contra-mestra
Do cordão azul
O meu partido
Eu sei dominar

bis

Com minhas danças
Minhas cantorias
Senhores todos
Queiram desculpar

Os versos musicados que a Diana canta indicam o seu papel de mediadora:

bis

Sou a Diana, não tenho partido
O meu partido são dois cordões
Eu peço palmas, fitas e flores
Ó meus senhores, sua proteção

Nas despedias, cantam-se geralmente:

bis

Adeus, meus senhores
Queiram desculpar
Que a nossa jornada
Já vai terminar

Coro

Adeus, adeus
Queremos partir
O dia amanhece
Queremos dormir

Adeus, senhores
Que eu já me vou
Até para o ano
Se nós viva for

Duetos, modinhas, cançonetas, faziam a alegria dos pastoris. Às vezes, depois da alegria vinha o sobressalto. Eram as brigas ou o pânico provocado pela ação da polícia.

Certa vez, em noite de fim de ano, quando a função do pastoril, no Pátio da Torre, ia mais animada, o inspetor da Polícia Civil, sr. Ramos de Freitas, com seus tiras e com ajuda da cavalaria, acabou com a festa, no momento em que o velho cantava a cançoneta conhecida pelo nome de Minhoca.

Nem sempre o que os velhos cantavam primava pela licenciosidade ou pela indecência. Às vezes, também cantarolavam modinhas inocentes, singelas e até românticas. Um exemplo: o dueto Mimi. Ocorre-me, de memória, o seguinte fragmento:

Adeus, Mimi
Eu vou partir agora
Pra defender
Da pátria o pavilhão
Mas não te esqueças
De quem por ti chora
Não dês a outro
O teu coração

Também, de memória, guardo uma passagem de cançoneta muito cantada na década de 1920. Esta, ao contrário, incorria nas sanções policiais. Por trás das palavras, aparentemente inocentes, escondiam-se segundas intenções maliciosas, e até obscenas. Refiro-me ao jogo do bicho ou bicharada. Ei-la:

Minha cunhada
Que não tem marido
Já tem perdido
Muito cobre meu
Ela só joga
Pedindo socorro
É no cachorro
Que ela faz o seu

Tenho uma cunhada
Que não tem marido
Já tem perdido
Muito cobre meu
Ela só joga
Fazendo careta
É na borboleta
Que ela faz o seu

A minha sogra
Que não tem dinheiro
Já tem perdido
Muito cobre meu
Joga na cobra
Tira na borboleta
É no cachorro
Que ela faz o seu

Com o correr do tempo, degradaram-se os pastoris. Mesmo como folguedo misto, ao mesmo tempo religioso e profano, mais profano que religioso — o tema do nascimento do Menino Deus, na momentânea folia, não passando de mero pretexto, conforme testemunho de Rodrigues de Carvalho no seu Cancioneiro do Norte — o pastoril de hoje só conserva sua forma tradicional nas cidades do interior. Nas capitais nordestinas, como o Recife, João Pessoa, Natal e Maceió, até orquestra desapareceu. As melodias já não se inspiram mais em trechos de óperas. Sambas, frevos e marchas de carnaval servem de fontes de inspiração melódica. Daí, a instabilidade das canções, nas músicas e nas letras.

Nos pastoris atuais das capitais nordestinas não há mais clima para as aventuras amorosas. cenas românticas, como a do rapto de pastoras, às vezes terminando  em casamento, não se repetem mais. As classes mais cultas já não encontram atração nos pastoris. Pelo menos, por eles não demonstram interesse ou entusiasmo. O fenômeno tem fácil explicação: as capitais evoluíram, econômica e socialmente. Os arredores suburbanos, antes habitados por gente de condições humildes, foram invadidos pela grande e pequena burguesias, que lá instalaram, empurrados pelo desenvolvimento comercial da área urbana, suas residências. Por outro lado, novos centros diversionais, como cinemas, teatros, bailes em clubes sociais, televisão, nos dias de Festa, Ano Bom e Reis, atraem a maior parte da população, na cidade do Recife. Como espetáculo popular, o pastoril perdeu sua grande função social.

Em sua forma primitiva, embora já um tanto descaracterizado, sobrevive o pastoril em algumas cidades ou povoados da zona rural, um pouco também nas abas do Grande Recife, onde as populações, durante o ciclo natalino, encontram nos espetáculos populares, como bumba-meu-boi, fandango, mamulengo e pastoril, seu melhor motivo de atração.

Valente, Valdemar. “Pastoril no Recife”. Brasil açucareiro, agosto de 1969

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