Jangada Brasil – a cara e a alma brasileiras – Edição Especial de Natal

As Pastorinhas do Pará

Adelino Brandão

A semelhança das cheganças do Nordeste, as pastorinhas do estado do Pará constituem das mais típicas e espalhadas festas populares da quadra natalina na Amazônia, especialmente pelo caráter  tradicional que, graças a Deus o “progresso” ainda não conseguiu matar.

Essas festas iniciam-se no dia 24 de dezembro e terminam no dia de Reis (6 de janeiro), quando, então “queimam-se as palhinhas” em honra ao Menino-Deus. A primeira encenação é feita precisamente à meia-noite, e até os dias que correm, nem o cinema, nem o rádio, nem o teatro, nem as novelas xaroposas das emissoras têm afastado o público que, todos os anos acorre aos teatrinhos dos bairros e casas de família, para assistir o mesmo espetáculo a que assistiram com o mesmo prazer no ano passado.

Nota-se até que as pastorinhas mais apreciadas são justamente aquelas que conservam os caracteres ingênuos, primitivos, e não as que, achando melhor se modernizarem, organizam-se de maneira mais lógica, mais como teatro, mais perto da moderna técnica, abandonando os diálogos cantados e as figuras e personagens que representam, por exemplo, fenômenos atmosféricos como a “Aurora”, ou coisas da natureza como a “Rainha das Flores” (a Rosa).

Estas figuras, indispensáveis numa pastorinha tradicional, recitam poesias simples, em que traduzem as alegrias das gentes, da natureza, pelo nascimento do Menino Jesus. Assim: a margarida, a rosa, a aurora, a estrela d’Alva etc.

Em suas linhas gerais as pastorinhas representam o drama, em sua maior parte musicado, do nascimento de Cristo. E, como as cheganças e os ranchos de Reis, e os bailes pastoris que se levam em outras cidades do Brasil, pela mesmo época, são de origem nitidamente portuguesa. (Ver Flausino Rodrigues Vale: Elementos do folclore musical brasileiro).

No estado do Pará, esse espírito lusitano das pastorinhas tem subsistido quase sem sofrer as influências das incursões culturais de outros povos que, direta ou indiretamente, tem ido à Amazônia. Nenhuma influência negra ou indígena parece, penetrou nas pastorinhas paraenses. Tão pouco apresentam elas qualquer porcentagem da mundanidade e falta de decoro, tais quais aquelas que em Pernambuco do século passado exigiram os protestos do bispo de Olinda, dom Azevedo Coutinho, conforme nota de Luís da Câmara Cascudo, em rodapé ao livro de Melo Morais Filho, Festas e tradições populares do Brasil (Rio de Janeiro, Edição Briguiet).

Poder-se-ia, talvez fazer restrições às danças dos “galegos” que aparecem quase no fim da festa, antes da apoteose. O público se conformaria com a ausência de todos os personagens, menos com a dos galegos.

São dois garotos. Um menino e uma menina: às vezes duas menininhas, uma delas vestida masculinamente. Para nós os “galegos” não passam de uma crítica disfarçada aos portugueses. Não há nenhuma explicação lógica nem histórica para que houvesse portugueses adorando o Messias quando de seu nascimento, em Belém da Judéia. Mas essas aberrações cronológicas e especiais não são novidades nos autos populares; encontramo-los no velho Gil Vicente onde nos seus autos de Reis, coexistem as figuras históricas de Cristo-menino, Santo Agostinho etc…

Pode-se aventar que a origem da introdução dos “galegos” nas pastorinhas do Pará, fosse a intenção de os nossos avós caricaturarem os primitivos senhores que aqui chegavam como imigrantes, especialmente no estado do Pará, ponto mais perto de chegada para navios que vinham de Portugal. Graças à solidariedade dos patrícios que lá já se encontravam e ao mourejar contínuo adquiriam, em breve, alguma riqueza, da qual se aproveitavam para se arvorarem em fidalgos ou grão-senhores. Mas no fundo não passavam mesmo de bons saloios.

Com a apresentação dos “galegos”, figuras grotescas de  lusos como as que estamos acostumados a retratar nas anedotas populares, vingavam-se nossos antepassados da condição de subalternidade que lhes impuseram outrora os arrivistas. Esta é a nossa hipótese sobre o espírito que presidiu à intromissão dos “galegos” como personagens das pastorinhas paraenses.

Continuemos, porém, com o retrato dos galegos. Ele, de calças compridas de listras pretas e brancas, uma faixa vermelha à cintura, como toureiro espanhol, barrete colorido à cabeça: bigodes longos e longas suíças postiças ou quando pastorinha pobre, pintados a carvão. Ela com vistosa e colorida saia, à maneira cigana. Lenço amarrado à cabeça: traz também faixa à cinta cujas pontas pendem soltas ao longo do corpo. Calçam ambos tamancos ou sapatos de madeira que fazem questão de bater estrepitosamente no chão cada vez que dão um passo. Entram de modo espalhafatoso; ele aparentando modos grosseiros, brutais, arrastando a “galega” pelo braço e atirando-a ao chão do palco, como em dança de apache, soltando alguns “Raios te apartam…” enquanto o público ri satisfeito.

Seguem-se diálogos chulos com intervenção de terceiro personagem o primeiro pastor. Há trocadilhos, jogos de palavras, ditos maliciosos, acompanhados de trejeitos meio alusitanados que as crianças decoram e repetem muito bem, fazendo a assistência desandar nas mais sonorosas gargalhadas.

Terminam com uma dança típica. Vão e vêm, de frente um para o outro, encontrando-se do meio do palco com uma umbigada e dando estalos com as castanholas. Há pastorinhas que, ainda mais tradicionais na dança dos galegos, fá-los vir em passos de costas, encontrando-se os “galegos” num choque de traseiras. A malícia, porém, substituindo a simplicidade primitiva, fez com que a maioria das pastorinhas abolisse esta última coreografia.

Fora disso, os mais atos das pastorinhas são ingênuos e românticos, como o idílio do primeiro pastor com a pastora perdida. Isto é, a pastora que, enganada por Satanás, enveredou por caminho diferente daquele que a levaria à cabana do Messias que deveria adorar. E quando ela está prestes a cair nos braços do tentador, aparece o anjo Gabriel e a salva, pondo em fuga o diabo. O anjo dá-lhe por guia o primeiro pastor que a leva sã e salva à gruta de Belém. Aí temos também uma alegoria.

A grande diferença entre as pastorinhas da Amazônia e os autos de chegança e pastoris de outros lugares do Brasil reside em que, estes são folguedos nos quais se evocam páginas gloriosas e heróicas de Portugal nos seus feitos marítimos ou em luta com os mouros (Ver Manuel Diegues Junior, “Cheganças”, artigo no Suplemento Literário do Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 1949), ao passo que as pastorinhas da Amazônia são mais próprias da quadra natalina, evocando exclusivamente a vinda ao mundo do Salvador.

Com pequenas variantes, os personagens são, mais ou menos: A Virgem; São José; o dono da estalagem que nega hospedagem à Família Sagrada: os pastores e as pastoras; o anjo Gabriel; Satanás; a pastora perdida; a cigana rica; a cigana pobre; a salóia; os galegos; a florista; os Reis Magos, zabumbas; etc…

Algumas, por muitos pobres, podem deixar de ter acompanhamento musical, de banda ou conjunto, mas serão sempre entremeadas de canto e coro. As músicas variam, bem como as letras e os diálogos duma pastorinha para outra, porém, o leit-motiv é sempre idêntico. Às vezes as donas das pastorinhas contratam compositores e poetas populares e engendram músicas e versos novos. É interessante observar que a iniciativa das pastorinhas  paraenses é feminina. São as senhoras que organizam, ensaiam, chefiam e deslocam daqui pra ali as pastorinhas, não obstante também atores masculinos, meninos, rapazes tomarem parte dos folguedos.

As representações podem ser feitas com presepe armado ou não. Em palco ou meio de sala. Os bairros organizam-se em concursos e há intercâmbio, indo a pastorinha deste bairro exibir-se noutro distante e a daquele vem encontrar-se neste.

Dos aspectos mais curiosos das pastorinhas do Pará merece registro os nomes como são batizadas e conhecidas. Em Belém, por exemplo, havia (e ainda devem existir) as Filhas da Floresta, Filhas da Betânia, Jovens Moreninhas, Filhas da Judéia. Uma delas, das mais afamadas e disputadas pelos clubes para representarem em seus salões tem o singular título de Filhas de Távora. Sua fundadora, cearense, que paga promessa de exibi-la enquanto for viva, admiradora incondicional do agora general Juarez Távora, não hesitou, quando aquele militar esteve no Pará com a turma revolucionária de 1930, em batizar suas pastorinhas com esse título: Filhas de Távora, em homenagem ao cidadão militar e político. Não é notável?…

As pastorinhas, como os ranchos e cordões de bichos e de pássaros, os bois-bumbás e outras expressões coletivas e populares da quadra de São João e Natal, constituem festas regionais que ainda não foram tratadas pelos nossos folcloristas colecionadores de fatos com o carinho devido.

Seria bom fixá-las bem antes que desapareçam por completo ou venham a sofrer as influências diluídoras do tempo e da técnica.

(Brandão, Adelino. “As Pastorinhas do Pará”. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 06 de novembro de 1955)

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