João Batista Siqueira
A procura constante de elementos de renovação para integrar o ambiente artístico de nossa nacionalidade, levou-nos ao aconchego da tradicional modinha do período colonial. É uma composição de caráter moderado, como o lied alemão, a canção francesa e a ária italiana. Seu lugar é o das peças moderadas, visto o caráter do andamento.
O ressurgimento da modinha brasileira está se processando firmemente ora como música dramática, ora como música absoluta.
No primeiro caso ela deve ser cantada e ter por ambiente os recursos da harmonia sugestiva dos violões.
Como música pura é um atraente aspecto do nacionalismo essencial. Os artistas verdadeiros certamente se encarregarão de burilá-las sem aberrar nos exotismos, nem aplicar-lhes apenas o trivial da harmonia erudita.
Precisamos construir com nossas modinhas, trabalhos artísticos que não venham, algum dia, comprometer nossas tradições culturais nem a de nossos antepassados.
Se tivermos de transformar algumas delas, em seu aspecto dramático, a fim de apresentá-las como linguagem eminentemente musical (sem o concurso das palavras), que o façamos, sem, no entanto, conturbar suas características intrínsecas. Aí deveremos encontrar pretextos para motivar sugestivos entrechos do mais variado matiz. O fenômeno da transplantação de temas populares, passando ao eruditismo, com sua fisionomia própria, guardando certas linhas mescladas de atavismos, é fato indiscutível em matéria de arte. Fenômeno igual podemos observar no Velho Mundo onde, canções e danças do povo, foram adaptadas e incorporadas ao patrimônio artístico de várias nacionalidades, constituindo, a seguir, padrões do mais elegante feitio clássico. Se as razões da estética musical não se acham apenas nas sucessões sonoras, nem mesmo nos sons acústicos, nem ainda na lógica pura, como bem o demonstram as experiências, mas na adaptação natural das condições do pensamento e da matéria, é nesse conceito que devemos procurar a expressividade de nossa modinha colonial.
A canção popular de onde nos veio a modinha é historicamente muita antiga e surgiu espontaneamente da inspiração. Seria bastante difícil, senão impossível, precisar-se a época em que ela apareceu, posto que é uma variante direta da canção primitiva, e o homem sempre que procurou exprimir suas emoções o fez através de cantigas...
O ressurgimento da modinha é acentuado nas grandes cidades, embora nas províncias nunca tenha caído em desuso.
Contando os mesmos segredos, os mesmos queixumes, as ternuras ingênuas de outras eras, elas reaparecem trazendo o perfume sutil que certos arcaísmos costumam despertar. Tudo quanto é sentimento vago, motivo de êxtase do espírito escondido em profundo escrínio da alma humana, pode brotar em nosso sentimento, ao ouvirmos uma modinha repassada de langor... É, porém, do amor contrafeito, da imagem quase apagada, do afeto primeiro (aquele que se perdeu num arroubo da mocidade), que a modinha melhor fala na linguagem subjetiva da música pura. É preciso, porém, muita abnegação, muito amor ao passado, enfim, alta dose de bom senso, ao nos inclinarmos a beber o líquido inebriante dessa fonte idílica... Que a modinha apareça em sua alvura de garça real.
Esse renascimento assim expurgado, esse diamante saído do cascalho virgem, é que ansiosamente esperam os amantes da verdadeira arte dos sons.
Por felicidade nossa, ainda estamos em condições de poder salvar da bruma alguns raios luminosos, algumas centelhas que faíscam no horizonte... Falamos de modinhas quase submersas nos abismos do esquecimento. Mas a realidade dramática de sua contextura serviu sempre de apoio à linguagem sonora – que costuma desaparecer em primeiro lugar – a melodia.
Com o aspecto que tem as modinhas, podem oferecer grande contribuição ao nacionalismo musical, quer se apresentem como “absorção natural” das idéias integrais, quer servindo de comparação a novas concepções ideais...
Quanto à transplantação de temas ou cantos de âmbito popular, apresentados de maneira erudita, foi sempre praticado em grande escala na polifonia alemã, chegando o compositor inglês Vaughan Williams a dizer que na obra de Bach, “cerca de três quartos tem esse caráter”. [1]
Atualmente está em franca evolução, e consagrado pelo uso geral, o conceito de música “nacionalista essencial”, que tem dado à musicologia, perenes movimentos de inspiração. Chopin foi um propulsor desse grandioso movimento, acompanhando escolas que se formaram sob impulso dessa onda de energia criadora. O “nacionalismo essencial” conceitua a música moderna de acordo com sua origem popular, tendo por termo a nacionalidade de onde procedeu.
Aproveitadas as modinhas como música instrumental, devem trazer aquela atmosfera [2] de que se acham saturadas, sem o que perderão em beleza e expressividade.
A modinha apresentada como música pura [3] é uma crisálida, cujo momento de voar se aproxima... Orientemos sua metamorfose, cuidemos do vergel em que se abriga... Assim outros filhos deste solo abençoado, poderão repetir cantos que, sem isso, desconheceriam completamente.
Destacamos a importância da atmosfera harmônica das modinhas, embora pareça que estamos repisando o mesmo assunto, tocando em surdina a mesma nota. Mas o verdadeiro ponto culminante da modinha brasileira, renovada, está a nosso ver, na ambientação que se lhe possa dar; principalmente se o processo atingir sua finalidade objetiva, que é a estética. Estratificadas as modinhas, em seções diversas, que se aproximem das referências morfológicas dos europeus, sem contudo adotar-lhe os planos, obteremos novas estruturas características que serão padrões futuros de clássicos brasileiros. Façamos interlúdios instrumentais curtos, alterando-os a seguir, com as várias seções representativas das estâncias poéticas de tal modo ajustadas, que a estrutura formal possa oferecer algum aspecto de renovação.
Além dessas sugestões de ordem técnica devemos perfilhar as idéias contidas nas versões que mais se expandiram, acompanhando as aspirações e índole do povo. Elas se encontram expressas nos contornos melódicos, delineadas sob ritmos poéticos definidos. Não há como negar o caráter tripartite da modinha brasileira, isto é, da procedência popular, semierudita e erudita. Evitemos a todo o custo o repisamento das mesmas idéias, quer dizer, a exploração temática de conteúdo polifônico ou metamorfismos e principalmente processos de renovação (tipo ária italiana), plasmada sob base de idéias subsidiárias. Se bem não tenhamos interlúdios sistematizados graficamente, eles se avolumam na tradição, na literatura histórica e no idiomatismo dos violões. Esse terreno é fértil em novidades harmônicas, principalmente nas modulações passageiras, nos acordes alterados sem modular, nas apogiaturas expressivas e nas cadências evitadas. Nesse último aspecto podemos encontrar as mais audaciosas licenças quiçá usadas nas escolas que um dia abraçaram novidades sonoras – exuberância do idealismo romântico.
Quando os compositores europeus, se abeberam nas fontes palpitantes deixadas pelos menestréis, – daqueles espíritos visionários do passado, – encontraram também mananciais inesgotáveis como os que aqui deixaram os nossos trovadores...
Por tudo o que acabamos de referir podemos avaliar a importância da modinha na formação da música brasileira, como já influiu no ambiente circunscrito dos meios sociais. Os indivíduos que a fizeram querida do povo, foram um dia chamados de vadios e desordeiros, justamente porque a sociedade não soube avaliar a importância de sua contribuição. Os capadócios, os seresteiros, acusados erroneamente de maus elementos, de agentes perturbadores da ordem social, nada mais eram que indivíduos de outro temperamento, vivendo em conflito com as normas inaceitáveis para seu modo de entender as coisas. O nosso Domingos Caldas Barbosa foi, aqui na Colônia, preso e obrigado a ser soldado, porque era amigo da viola. No entanto, na Corte, chegou a vestir a sotaina e foi, pelo seu canto, que conseguiu imortalizar-se.
Os trovadores das pequenas cidades, não tinham contas a justar com as autoridades, precisamente porque o meio lhes era inteiramente propício. A vida fácil não se poderia conturbar com sua atividade, ou apesar dela...
Eis o plano estabelecido para a estratificação de determinados espécimes de modinhas, cuja exegese achamos indispensável proceder:
a) Exegese melódica da modinha;
b) Características intrínsecas estratificadas;
c) Ambiente instrumental.
As músicas preferidas para essa análise – se possível, de uma aferição de valores subjetivos, – nos darão conta, talvez, do que deve ser essa procurada brasilidade, possivelmente existente na contextura melódica das modinhas. Selecionamos alguns espécimes, onde nos parece existir algo de importante a cotejar.
Essas modinhas, de acentuada popularidade, vão abaixo especificadas na seguinte ordem de sucessão:
Minha terra – modinha recolhida por tradição oral e pertencente ao folclore cearense;
Já não me queres bem – modinha do folclore nordestino e, ao que sabemos, nunca foi impressa;
Elisa, bela – modinha do folclore pernambucano, recolhida da tradição oral, e, segundo pensamos, o mais antigo documento do gênero.
A) Contextura melódica da modinha
Convém frisar, desde logo, que será impossível realizar tarefa de tal monta sem descer aos processos técnicos do didatismo tradicional que até aqui olvidamos propositadamente. Porém, se quisermos indagar das modinhas o que é que escondem nos seus enleios, nesse queixume que a linguagem musical subjetivamente exprime, não teremos caminho mais acessível, embora saibamos as curvas e os aclives que teremos de enfrentar.
Mas as viagens são, no geral, enfadonhas, mesmo as do pensamento...
Para conhecermos a índole das modinhas brasileiras, chegar à sua intimidade, descer a seus encantos, é preciso viver um pouco fora desse mundo atribulado e descansar a mente, murmurando como numa prece, meio risonha, meio saudade, as suas doces e suaves melodias. Assim, quem não desejar conhecer as minúcias do canto, quem não precisar, senão da beleza, do fluído melódico, que faça como o viajor do deserto – repouse um pouco no manancial das melodias...
Destacamos nessa parte, textos musicais da verdadeira modinha popular, recolhida em vários ciclos do folclore, nos quais as originalidades da linguagem possam sugerir a procurada brasilidade de que se fala, com a incerteza de quem procurasse reconhecer a corola de uma flor, pelo perfume inebriante trescalado na brisa fagueira. Não queremos, porém, deixar transparecer que os detalhes técnicos aqui usados, sejam capazes de revelar todas as modalidades de brasilismos, descobrir todas as características que as modinhas têm.
Não! Mil vezes, não!...
Se assim pensássemos, se isso entendêssemos possível, antes um Manual de interesse eminentemente técnico.
Temos ideais mais elevados.
Todavia o trabalho de análise da contextura melódica da modinha indiscutivelmente popular será feito evitando-se, o mais possível, a dissertação vulgar, essas passagens em que o pensamento, sem encontrar um atrativo qualquer, se abstrai no vazio das idéias, indo divagar em contemplações instintivas. Tudo faremos a fim de que essa exegese necessária se torne o menos cansativa possível, onde visíveis escolhos não se possam agrupar em promontório. Por isso, adotamos, desde já, o sistema de compassos numerados na linha melódica e algarismos romanos seccionando os períodos em frases binárias que, por seu turno, irão demonstrar a influência cadencial dos versos na subdivisão igualmente bipartida das frases musicais.
Modinha – Minha terra
(clique para midi e partitura)
Análise
Modinha em sol menor tendo no compasso 15 a nota característica diferencial. A primeira frase assinalada pelo algarismo I, vai repousar, em cadência imperfeita, no compasso número oito.
A seguir, isto é, a partir do número 9 converge em modulação passageira para o tom da quinta justa inferior, utilizando-se aqui um processo inteiramente artificioso, ,se o compararmos com os primados da técnica européia que, firmada nas leis da acústica, manda inclinar a modulação para a quinta justa superior.
Esse fenômeno peculiar à modinha, podemos destacar como premissa no bosquejo que estamos empreendendo. Nos compassos números 11 e 13, surge um novo aspecto que se apresenta assim:
Repetição temporal da nota fá seguida de vários intervalos descendentes que, para maior aniquilamento da idéia, caem num intervalo de sexta menor descendente.
Esse fato se repete a seguir nos compassos 14 e 15 dando-nos a entender uma ordem de fatores absolutamente novos, uma vez que a estética contrapontística procura evitar justamente essa seqüência descendente se abismando em busca do nada...
Para coroar a languidez procurada, a segunda frase inclui as notas sensíveis dos tons menores, quer dizer, do tom modulante, do compasso 9, e do tom principal do compasso 15.
O sentido do canto é descendente e com raríssimas exceções vemos graus conjuntos para subir. Quase todos os membros são epitéticos e femininos. As apogiaturas expressivas se encontram nos compassos números 2, 4 e 6; as acentuações patéticas mais importantes ocorrem nos compassos de números 11, 13 e 15.
No compasso número 13 o pensamento musical cai num verdadeiro abandono,
focalizado pelo intervalo de 6ª menor descendente de efeito psicológico.
Modinha – Já não me queres bem
(clique para midi e partitura)
Análise
Constatamos tão grande afinidade na contextura dessa modinha com a anteriormente analisada que uma esquematização geral acabaria repetindo termos anteriormente empregados. Mas essa semelhança não é, absolutamente, em valorização sonora; é no aspecto rítmico e métrico, em razão da origem poética comum.
Tema em si menor constituído de um período de 16 compassos, subdividido em duas fases e quatro membros; inícios rítmicos epitéticos quase gerais, oferecendo terminações femininas (com exceção do repouso fraseológico que se encontra no 8º compasso).
Justamente no compasso número 11 vem a modulação ao tom da quinta justa inferior, com sua respectiva nota diferencial. A esperada repetição temporal, seguida de intervalos descendentes, culminando em salto descendente de efeito aniquilante, se encontra a partir dos números 12, 13 e acaba no número 14.
As notas sensíveis das tonalidades estão presentes nos compassos números 1, 5, 7, 9, 11 e 15. Observa-se que a segunda frase é conclusiva e revela o sentido psicológico dos versos, combinando-os à nostalgia melódica.
Esta análise que se vai alongando mais do que prevíramos pode ser utilizada em confrontação melódica, com as seguintes modinhas populares insertas nesta obra e procedentes do Nordeste: Ao luar, Adormecida, Coração, Sou poeta, Ela era virgem, Borboleta que voeja, Abelha.
Modinhas populares do cancioneiro sulista tendo idêntico aspecto: Jovelina,
Meu país, Se eu soubesse...
Modinha – Por causa de uma saudade (Elisa, bela)
(clique para midi e partitura)
Modinha em ré menor apresentando nota característica de tom modulante no compasso número 11. A modulação é ainda para o tom da quinta justa inferior.
No geral as idéias são téticas e femininas, e o fenômeno observado de linha descendente que acaba saltando inferiormente se evidencia na última frase do período musical (compasso nº 14). O canto é elementaríssimo, por isso de grande antiguidade. Esses aspectos sucessivos que deveriam banalizar a linguagem, quando aliado às palavras, de sabor arcaico, dão-lhe, ao invés, uma certa graça repassada de ingenuidade, que convém ressaltar...
A modinha A vida desta alma (página 272), do folclore nordestino, oferece muita coisa semelhante, particularizando-se por ter início pelo tom da quinta justa inferior. Esse fato é também geral nas modinhas de todos os ciclos folclóricos do Brasil. (Vejamos Na hora em que se cobre.)
Se os meus suspiros pudessem, do cancioneiro fluminense, é um espécime que pode ser confrontado com os anteriormente estudados fornecendo vários pontos de contato de interesse específico.
Borboleta que voeja e Fiz um juramento, ambas do folclore nordestino, oferecem à análise os mesmo fenômenos até aqui constatados.
Desejamos encerrar esse bosquejo analítico dizendo que as modinhas em tom maior preferem a modulação ao tom do segundo grau fazendo assim, uma inflexão a tom menor, principalmente quando a psicologia dos versos assim o exigem.
Como exemplo frisante desse fato, damos as modinhas do folclore – A vida desta alma e Em horas mortas onde do tom de fá maior o canto passa a sol menor como modulação passageira. O mesmo ocorre com a modinha Meia-noite, que foi gravada por Baiano em disco da Casa Edison, e que tivemos a ventura de adquirir recentemente.
B) Características instrínsecas estratificadas
Tendo esboçado, através do princípio de análise experimental, uma série de traços cumulativos, cuidamos que agora é tempo de descortina-los usando o velho processo dos paradigmas. É indispensável acentuar, todavia, que os fatores de índole puramente subjetiva, ligados, por seu turno, ao sentido anímico de alguns versos, não serão aferidos, porque nem a grafia musical, nem as acentuações rítmicas possuem elementos materiais para concretiza-los.
Eis, pois, os principais elementos que conseguimos vislumbrar na intimidade das modinhas, capazes de ajudar a descobrir os caracteres de brasilidade de que elas estão cheias:
a) modulação passageira ao tom da quinta justa inferior, ora no membro da frase inicial, ora no terceiro membro do período binário de 16 compassos;
b) intervalos melódicos descendentes apresentados sucessivamente, caindo além, numa quinta justa, numa sexta inferior, ou inversões correspondentes;
c) “repetições temporais”, “apogiaturas expressivas”, “frases decapitadas”, com terminações femininas e ausência completa de modulação ao tom da dominante;
d) quando a modinha passa do tom maior ao relativo menos, evita a nota sensível dessa última tonalidade para se ajustar ao uso brasileiro da ambigüidade modal;
e) não raro, encontramos o sentimento anímico descrito em intervalos descendentes entre a tônica e a dominante (graus mais fortes), atingindo uma cadência melódica que sugere o completo abandono do poder emotivo:
f) processo brasileiro geral de interesse descendente, utilizando o sistema de graus disjuntos para atingir aos planos superiores;
g) modinhas em maior modulando sistematicamente ao tom do segundo grau por meio da modulação passageira.
C) Ambiente instrumental
A contribuição que trazemos através desse trabalho é das “Orquestrinhas” que, reunidas em torno de um artista renomado, serviam para gravar os discos da música popular da Casa Edson.
Fred. Figner, demonstrando elevado tirocínio e escudado no bom senso, aceitou esses conjuntos instrumentais, organizados por músicos habilidosos, dando-nos, hoje em dia, uma prova do gosto do público brasileiro, pelos timbres suaves dos instrumentos de cordas dedilhadas, bem como das flautas e clarinetas.
O assunto é de âmbito geral e quando, cerca de 1926, estive em Cajazeiras, no estado da Paraíba, encontrei um conjunto característico que a gente do povo batizou de – orquestra de pau e corda.
Voltando ao comentário das gravações de disco do início deste século, desejamos declarar que o trabalho que nos prestaram, diríamos melhor que prestaram às tradições nacionais, é dos mais fecundos. E a seguir temos de lamentar que obra tão eficiente, em menos de meio século esteja prestes a desaparecer pela desnacionalização das gravações atuais, e muito particularmente pela orientação exclusivamente comercial das nossas estações de rádio.
Não há (para tristeza nossa), em nosso país, uma organização científica, nem mesmo um departamento técnico encarregado de fiscalizar e orientar os programas destinados ao público e, por isso, cedo ou tarde, se há de aniquilar a fonte de onde brotavam as cristalinas melodias do povo. Vemos, sem nada poder fazer em contrário, essa onda avassaladora crescer em todas as latitudes, processando o aniquilamento sistemático da música nativista.
Uma caudal de música importada, bem arranjada e, ainda melhor, propagada, desce como rolo compressor sobre a nossa frágil música popular, ora pelo jazzismo, ora pelos tangos argentinos; a invasão se faz pelas telas dos cinemas e estações de rádio, asfixiando a arte popular, sem lhes deixar espaço onde possa respirar um pouco e viver em paz.
Em 1912 aparece no Catálogo da Casa Edson, um conjunto gravador assim distribuído:
2 violões
1 viola de arame
1 bandolim
1 cavaquinho
Nota-se, porém, que os instrumentos se destinavam a gêneros específicos, conforme a tradição popular.
As modinhas eram acompanhadas por violões.
As canções gaúchas (estilo chimarrita), por violas.
O grupo integral, incorporava a flauta e tinha o curioso nome – Grupo terror dos “facões”. Gravava músicas alegres, conforme se indica à página 4 do referido catálogo.
Já em 1914 surgem grupos famosos, como os de Canhoto e Lima Vieira:
Grupo do Canhoto: 1 flauta em dó; 1 clarineta em si bemol; 1 cavaquinho; 1 violão.
Grupo do Lima Vieira: 1 flauta em dó; 1 saxofone soprano; 1 cavaquinho; 1 violão.
Quanto ao acompanhamento das modinhas, a supremacia era dos violões plangentes que se reuniam em grupos, formando uma atmosfera de brasilidade indiscutível. Eram acompanhamentos improvisados sem partes impostas, de maneira que os executores, cheios de musicalidade, tinham apenas que seguir o sentido tonal da modinha. Quando a estrofe terminava, seguia-se um interlúdio feito de improviso, que ia variando com a inspiração excitada pelo próprio ambiente peculiar à modinha. Tínhamos assim uma variação de interlúdios estereotipados, repletos de passagens modulantes, e empregos de acordes alterados e apogiaturas expressivas, que se tornaram deliciosamente nacionais.
NOTAS
1. Introdução à Música Moderna, de Fernando Lopes Graça, edição da Biblioteca Cosmos, p.85 (1946).
2. Atmosfera – “Sentimento muito definido, um determinado ambiente sonoro produzido quase sempre por sensações harmônicas e conjuntamente com os timbres instrumentais”. Eaglefield Hull.
3. Mário de Andrade em Música, doce música, orienta muito acertadamente o emprego da modinha como música absoluta: “Em vez de pegar no canto e fazer dele nosso jogo temático, o respeita inteirinho”.
(Extraído de Siqueira, João Batista Siqueira. Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas, Rio de Janeiro, 1956, p.99-112)
Todas as partituras e MIDIs por Alessandro Valente
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