
"Há dias sem vento, ou de brisas
apenas. Há horas sem ventos; as horas mortas do dia e as horas mortas da noite." Dizem que..., Aluísio de Almeida.
"Esta corrente veio da Venezuela e foi escrita por Salamón Brasco e tem
o mister de correr o mundo". Corrente.
"Os
animais fazem parte essencial da vida do caboclo. No trabalho e na alimentação,
principalmente." Simpatias para animais, por Osvaldo Elias
Xidieh.
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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
Os animais fazem parte essencial da vida do caboclo. No trabalho e na alimentação,
principalmente. O cavalo, o boi, o porco e o cachorro constituem os prosaicos, porém,
verdadeiros pontos cardeais da zona rural. Isso do ponto de vista positivo; do negativo,
enfileiram-se a formiga, as bicheiras, a cobra e as pragas de plantações.
Os lugares onde esses animais mandam na vida da gente são bem mais numerosos e extensos
do que podem os homens da cidade imaginar. Não, não vou ruminar a tese de que sejamos um
país estritamente agrícola, que de agricultura temos é muita fama e muito vento na
pança. Que Deus se digne um dia iluminar o nosso povo, que por lá, na tal zona rural,
há é muita barba de bode, muito caraguatá, muita gente ganhando, para cultivar uma
venerável miséria, dez cruzeiros por dia e muito desânimo. Dá a impressão de que tudo
aquilo vive mais é por caradurice ou para dar cor local, esse pitoresco pungente,
constantemente quebrado, agora pela inquietante presença de uma lata de Whole Milk
nas prateleiras dos sítios e das fazendas. E outras coisas que por causa do Pão de
Açúcar ninguém quer saber. Ora, o Pão de Açúcar simboliza bem aquilo que nós mais
gostamos de fazer: "fazer-de-conta" que somos isto ou aquilo... com referências
às formais e obrigatórias declarações laudatórias dos viajantes ilustres... Contra
isso não há simpatia que sirva.
*Todavia, voltando ao assunto, o nosso caboclo sabe como tratar seus animais de acordo
com velhas experiências resumidas em simpatias. Citaremos algumas colhidas por todo o
estado e qualquer pessoa poderá verificar que elas tendem a proteger, curar, atacar e
mesmo modificar os animais.
1. Para curar bicheira de animais é bom fazê-los passar por um lugar
úmido e enfiar pregos nos rastros que ali deixarem, a medida que os pregos vão se
enferrujando, a bicheira irá sarando.
2. Para curar broca de casco de cavalo, fazer com que ele passe por um
lugar úmido e, em seguida, com uma faca, revirar um dos seus rastros, no mesmo lugar,
pondo por baixo um pouco de capim verde. Quando o capim secar, a broca desaparecerá.
3. Dar um nó no rabo do cavalo, o que muita gente faz por boniteza, é
muito ruim para o animal, pois acarreta-lhe dor de barriga. Para curá-lo desse mal basta
que se lhe amarre o rabo com uma fita de palha de milho.
4. Um saquinho com azougue dependurado ao pescoço do cavalo cura-lhe
qualquer bicheira.
5. Salva-se um cavalo antanguido amarrando-se um barbante em cada uma das
suas patas, no pescoço e no rabo.
6. Para curar uma galinha atacada de bouba, deve-se arrancar uma pena da
asa direita de uma galinha sã e atravessá-la, sob as penas, no pescoço da galinha
doente.
7. Para que uma criação de aves progrida é necessário vender um
frango na véspera do Natal e oferecer o dinheiro ao menino Jesus.
8. Caso aconteça que as galinhas do terreiro comecem a morrer à toa é
preciso que se faça o seguinte: escolhe-se a ave mais gorda e mais bonita do galinheiro
para oferecer a São Roque. Quando chegar a festa desse santo leva-se a galinha à capela,
onde se faz o oferecimento verdadeiro. depois disso não se pode matar a ave oferecida.
Deverá morrer de velhice.
9. Cura-se pigarra de galinha tirando-se a pele que está debaixo da
língua, cortando-se uma pontinha dela, e, por fim, atravessando-se uma pena ao seu
pescoço.
10. Idem, passando-se sumo de limão bravo na sua língua, ao entardecer.
11. Quando picar uma ninhada, passam-se os pintinhos, um por um na
defumação feita com palma benta, alecrim e guiné. Só depois disso é que se solta a
galinha no terreiro. Estão imunizados contra o quebranto.
12. Para que o trovão não faça gorar uma ninhada, coloca-se no ninho
da galinha um pedaço de ferro e um pedaço de carvão.
13. Dentre as galinhas que nascerem na noite de Natal, uma porá sempre
dois ovos de cada vez.
14. Quando um cachorro não quer acostumar-se na casa do dono, basta
tirar o seu comprimento com um barbante e depois enterrá-lo, sob um tijolo, debaixo do
fogão.
15. Cura-se tosse de cachorro colocando-se no seu pescoço um colar de
sabugo de milho.
16. Quando não se deseja que um cachorro fique muito grande é bom
passá-lo três vezes pela asa de um tacho de cobre.
17. Para não dar peste ou feridas num cachorro, tira-se o peso dele em
sal.
18. Para que um cachorro não fique louco é bom marcá-lo com uma cruz
de ferro em brasa bem no meio da cabeça.
19. Cura-se lambevo de cachorro, untando-se as orelhas dele com óleo de
mamona, durante nove dias.
20. Para que os cães não fiquem doentes e sejam bons vigias é bom
oferecer-lhes, no dia de São Roque, um almoço como se fosse feito para gente.
21. Para dar "querença" ao cachorro, basta que ele coma um
pouco do alimento mastigado pelo seu dono.
22. Para "mordedura" de cobra: mata-se uma galinha que, depois
de aberta, bem pelo meio, é colocada com tripa e tudo sobre o local da picada.
23. Evita-se picada de cobra, levando-se no bolso treze dentes de alho
descascados.
24. Quando se deseja que uma cobra não saia do lugar onde está,
manda-se uma mulher chamada Maria dar um nó na saia.
25. Fazer lacinhos de capim verde, enquanto se caminha afasta cobras para
o mato.
26. Para que nenhuma cobra venha picar a gente, é bom que se recite:
Jesus, Ave Maria
Água benta no altar
As cobras do caminho
São bento vai vigiar
Jesus Cristo no altar
As cobras do caminho
Vão deixar eu passar
27. Para livrar os animais de mau-olhado, coloca-se um chifre de carneiro
na porteira do curral.
28. Para livrar os porcos de quebranto e de golpes de ar, dependura-se
uma garrafa de vidro branco cheia dágua numa das quinas do lado direito do
chiqueiro.
29. Corta-se a pontinha do rabo de um gato e atira-se ao fogo para que
ele se acostume com seus donos e não fuja da casa.
30. Para facilitar o parto de uma porca muito gorda, a melhor coisa a
fazer é enrolar o seu pescoço com uma rama de aboboreira.
31. Salva-se uma vaca que se engasgou, com laranja ou com outra coisa
qualquer, cirando-se um tição do fogão e deixando o braseiro do lado de fora.
32. Cavalos, bois, porcos e porcas devem ser castrados somente no
minguante.
33. Para combater diarréia de bezerros, dependura-se no curral uma
cordinha cheia de nós.
34. Carrapatinho pólvora não gruda em quem fizer em si mesmo um rabo de
ramo de árvores.
35. Cura-se frieira brava do gado, procedendo-se da seguinte maneira:
limpar bem o casco, passar óleo de mamona e, por fim, aplicar piche quente. Repete-se o
tratamento até três vezes.
36. A pior doença que pode atacar um cavalo é a "peste
aleijada". Ataca de início, os membros e o lombo do animal e, na fase final, a
cabeça. Os caboclos curam-na assim: defumação de casca de alho na cabeça do animal.
Despeja-se sobre o lombo do animal meio litro de álcool, põe-se fogo e abafa-se com um
cobertor.
37. Cura-se garrotilho: defumação feita com casca de alho e casca de
cebola no focinho do animal. Depois, sangria.
38. Cura-se tosse de cavalo com sal queimado ou torrado.
(Xidieh, Osvaldo Elias. "Simpatias para
animais". O Estado de São Paulo,
São Paulo, 02 de junho de 1949) |
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