Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"Há dias sem vento, ou de brisas apenas. Há horas sem ventos; as horas mortas do dia e as horas mortas da noite." Dizem que..., Aluísio de Almeida.

"Esta corrente veio da Venezuela e foi escrita por Salamón Brasco e tem o mister de correr o mundo". Corrente.

"Os animais fazem parte essencial da vida do caboclo. No trabalho e na alimentação, principalmente." Simpatias para animais, por Osvaldo Elias Xidieh.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


SIMPATIAS PARA ANIMAIS

Osvaldo Elias Xidieh


Os animais fazem parte essencial da vida do caboclo. No trabalho e na alimentação, principalmente. O cavalo, o boi, o porco e o cachorro constituem os prosaicos, porém, verdadeiros pontos cardeais da zona rural. Isso do ponto de vista positivo; do negativo, enfileiram-se a formiga, as bicheiras, a cobra e as pragas de plantações.

Os lugares onde esses animais mandam na vida da gente são bem mais numerosos e extensos do que podem os homens da cidade imaginar. Não, não vou ruminar a tese de que sejamos um país estritamente agrícola, que de agricultura temos é muita fama e muito vento na pança. Que Deus se digne um dia iluminar o nosso povo, que por lá, na tal zona rural, há é muita barba de bode, muito caraguatá, muita gente ganhando, para cultivar uma venerável miséria, dez cruzeiros por dia e muito desânimo. Dá a impressão de que tudo aquilo vive mais é por caradurice ou para dar cor local, esse pitoresco pungente, constantemente quebrado, agora pela inquietante presença de uma lata de Whole Milk nas prateleiras dos sítios e das fazendas. E outras coisas que por causa do Pão de Açúcar ninguém quer saber. Ora, o Pão de Açúcar simboliza bem aquilo que nós mais gostamos de fazer: "fazer-de-conta" que somos isto ou aquilo... com referências às formais e obrigatórias declarações laudatórias dos viajantes ilustres... Contra isso não há simpatia que sirva.

*

Todavia, voltando ao assunto, o nosso caboclo sabe como tratar seus animais de acordo com velhas experiências resumidas em simpatias. Citaremos algumas colhidas por todo o estado e qualquer pessoa poderá verificar que elas tendem a proteger, curar, atacar e mesmo modificar os animais.

1. Para curar bicheira de animais é bom fazê-los passar por um lugar úmido e enfiar pregos nos rastros que ali deixarem, a medida que os pregos vão se enferrujando, a bicheira irá sarando.

2. Para curar broca de casco de cavalo, fazer com que ele passe por um lugar úmido e, em seguida, com uma faca, revirar um dos seus rastros, no mesmo lugar, pondo por baixo um pouco de capim verde. Quando o capim secar, a broca desaparecerá.

3. Dar um nó no rabo do cavalo, o que muita gente faz por boniteza, é muito ruim para o animal, pois acarreta-lhe dor de barriga. Para curá-lo desse mal basta que se lhe amarre o rabo com uma fita de palha de milho.

4. Um saquinho com azougue dependurado ao pescoço do cavalo cura-lhe qualquer bicheira.

5. Salva-se um cavalo antanguido amarrando-se um barbante em cada uma das suas patas, no pescoço e no rabo.

6. Para curar uma galinha atacada de bouba, deve-se arrancar uma pena da asa direita de uma galinha sã e atravessá-la, sob as penas, no pescoço da galinha doente.

7. Para que uma criação de aves progrida é necessário vender um frango na véspera do Natal e oferecer o dinheiro ao menino Jesus.

8. Caso aconteça que as galinhas do terreiro comecem a morrer à toa é preciso que se faça o seguinte: escolhe-se a ave mais gorda e mais bonita do galinheiro para oferecer a São Roque. Quando chegar a festa desse santo leva-se a galinha à capela, onde se faz o oferecimento verdadeiro. depois disso não se pode matar a ave oferecida. Deverá morrer de velhice.

9. Cura-se pigarra de galinha tirando-se a pele que está debaixo da língua, cortando-se uma pontinha dela, e, por fim, atravessando-se uma pena ao seu pescoço.

10. Idem, passando-se sumo de limão bravo na sua língua, ao entardecer.

11. Quando picar uma ninhada, passam-se os pintinhos, um por um na defumação feita com palma benta, alecrim e guiné. Só depois disso é que se solta a galinha no terreiro. Estão imunizados contra o quebranto.

12. Para que o trovão não faça gorar uma ninhada, coloca-se no ninho da galinha um pedaço de ferro e um pedaço de carvão.

13. Dentre as galinhas que nascerem na noite de Natal, uma porá sempre dois ovos de cada vez.

14. Quando um cachorro não quer acostumar-se na casa do dono, basta tirar o seu comprimento com um barbante e depois enterrá-lo, sob um tijolo, debaixo do fogão.

15. Cura-se tosse de cachorro colocando-se no seu pescoço um colar de sabugo de milho.

16. Quando não se deseja que um cachorro fique muito grande é bom passá-lo três vezes pela asa de um tacho de cobre.

17. Para não dar peste ou feridas num cachorro, tira-se o peso dele em sal.

18. Para que um cachorro não fique louco é bom marcá-lo com uma cruz de ferro em brasa bem no meio da cabeça.

19. Cura-se lambevo de cachorro, untando-se as orelhas dele com óleo de mamona, durante nove dias.

20. Para que os cães não fiquem doentes e sejam bons vigias é bom oferecer-lhes, no dia de São Roque, um almoço como se fosse feito para gente.

21. Para dar "querença" ao cachorro, basta que ele coma um pouco do alimento mastigado pelo seu dono.

22. Para "mordedura" de cobra: mata-se uma galinha que, depois de aberta, bem pelo meio, é colocada com tripa e tudo sobre o local da picada.

23. Evita-se picada de cobra, levando-se no bolso treze dentes de alho descascados.

24. Quando se deseja que uma cobra não saia do lugar onde está, manda-se uma mulher chamada Maria dar um nó na saia.

25. Fazer lacinhos de capim verde, enquanto se caminha afasta cobras para o mato.

26. Para que nenhuma cobra venha picar a gente, é bom que se recite:

Jesus, Ave Maria
Água benta no altar
As cobras do caminho
São bento vai vigiar
Jesus Cristo no altar
As cobras do caminho
Vão deixar eu passar

27. Para livrar os animais de mau-olhado, coloca-se um chifre de carneiro na porteira do curral.

28. Para livrar os porcos de quebranto e de golpes de ar, dependura-se uma garrafa de vidro branco cheia d’água numa das quinas do lado direito do chiqueiro.

29. Corta-se a pontinha do rabo de um gato e atira-se ao fogo para que ele se acostume com seus donos e não fuja da casa.

30. Para facilitar o parto de uma porca muito gorda, a melhor coisa a fazer é enrolar o seu pescoço com uma rama de aboboreira.

31. Salva-se uma vaca que se engasgou, com laranja ou com outra coisa qualquer, cirando-se um tição do fogão e deixando o braseiro do lado de fora.

32. Cavalos, bois, porcos e porcas devem ser castrados somente no minguante.

33. Para combater diarréia de bezerros, dependura-se no curral uma cordinha cheia de nós.

34. Carrapatinho pólvora não gruda em quem fizer em si mesmo um rabo de ramo de árvores.

35. Cura-se frieira brava do gado, procedendo-se da seguinte maneira: limpar bem o casco, passar óleo de mamona e, por fim, aplicar piche quente. Repete-se o tratamento até três vezes.

36. A pior doença que pode atacar um cavalo é a "peste aleijada". Ataca de início, os membros e o lombo do animal e, na fase final, a cabeça. Os caboclos curam-na assim: defumação de casca de alho na cabeça do animal. Despeja-se sobre o lombo do animal meio litro de álcool, põe-se fogo e abafa-se com um cobertor.

37. Cura-se garrotilho: defumação feita com casca de alho e casca de cebola no focinho do animal. Depois, sangria.

38. Cura-se tosse de cavalo com sal queimado ou torrado.


(Xidieh, Osvaldo Elias. "Simpatias para animais". O Estado de São Paulo, São Paulo, 02 de junho de 1949)

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