Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"Há dias sem vento, ou de brisas apenas. Há horas sem ventos; as horas mortas do dia e as horas mortas da noite." Dizem que..., Aluísio de Almeida.

"Esta corrente veio da Venezuela e foi escrita por Salamón Brasco e tem o mister de correr o mundo". Corrente.

"Os animais fazem parte essencial da vida do caboclo. No trabalho e na alimentação, principalmente." Simpatias para animais, por Osvaldo Elias Xidieh.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


CORRENTE

Recebemos:

"Esta corrente veio da Venezuela e foi escrita por Salamón Brasco e tem o mister de correr o mundo"

Assim começa a coisa, veio pelo correio, selada e tudo o mais. O pai ficou pensando em Salamón Brasco, procurou na Enciclopédia e o pai-dos-burros não dizia nada. Bulufas pra Salamón que tem o mister de correr mundo. Quem corre, vaga. Logo: vaga-mundo e quase dá certinho na palavra exata. Segue:

"Faça vinte cópias e as envie a vinte amigos, acompanhando um óbulo em dinheiro"

Já engrossou. Vinte amigos é coisa que não sei se tenho. Em tendo, dar um óbulo pros cujos, arrisco uma ofensa, chamando-os de pelados. Pior é óbulo; vão dizer que é a minha, a coitada da velhinha lá de casa. Continua:

"Anastácio Dias, oficial do exército venezuelano, fez as cópias e nove dias depois da distribuição, recebeu pelo correio, um prêmio de mil libras esterlinas".

Gentes, até o dinheiro da Venezuela mudou, libras em vez de pesos. O Anastácio Dias ficou feliz, o que não vai acontecer com um outro distinto milico de lá. Leiam:

"Aureliano Russ, recebeu a corrente e deu ordem para um cabo queimar, desprezando-a. Após esse ato selvagem, viu a casa arder em fogo e perdera a metade da sua família".

Virou churrasco... Ah, o Teixeirinha tá cantando pro Aureliano Russ. A corrente se arrasta como todas as correntes, passa pelos Andes e chega no Brasil. Precisamente, em Pernambuco;

"O fato mais eloqüente pela quebra desta corrente, foi o ocorrido com o ex-governador pernambucano Agamenon Magalhães, que disse ser tolice e caiu fulminado por um ataque cardíaco".

Caiu durinho no chão, diz a corrente. Vai ver o ex-governador Miguel Arraes, também não deu bolas pra ela. Vai daí, foi pescar em Fernando de Noronha. A coisa termina, além de alguns incêndios na alma e na casa do "descumpridor da corrente" com uma mensagem misericordiosa, bonita, falando em bem-aventurados que ganharão às pampas, dinheiro e céu. Dinheiro, mesmo que é bom, vinha junto uma notinha de cinco cruzeiros, o barão de Rio Branco, muito envergonhado. — Dei para um pobre ali na praça da Alfândega e começou meu castigo. Disse o fulano, muito brabo: "Miserave. Dá prá tua vó". Agora só falta o incêndio.


("Corrente". Zero Hora, Porto Alegre, 4 agosto 1964, 1. Cad.9)

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