
"Há dias sem vento, ou de brisas
apenas. Há horas sem ventos; as horas mortas do dia e as horas mortas da noite." Dizem que..., Aluísio de Almeida.
"Esta corrente veio da Venezuela e foi escrita por Salamón Brasco e tem
o mister de correr o mundo". Corrente.
"Os
animais fazem parte essencial da vida do caboclo. No trabalho e na alimentação,
principalmente." Simpatias para animais, por Osvaldo Elias
Xidieh.
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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
Há dias sem vento, ou de brisas apenas. Há horas sem ventos; as horas mortas do dia e as
horas mortas da noite. Quanta poesia! Ao meio-dia horas mortas. Tudo para nem um
sussurro, quietas as folhas, a natureza faz uma pausa. Nas matas silenciosas os animais de
asas e de pêlo, os insetos e os vermes se calam. Não é indicado entrar então na
floresta. Ouve-se: zás! zás! zás! é o saci que está puxando cipó das mais altas
árvores, e aquele barulho é inconfundível a qualquer roceiro. Ele próprio, o saci
tentador, pode pedir-vos fumo, e foge visível, à beira do caminho, ou invisivelmente
cavalgando o vosso pescoço: pode com uma perninha só ir batendo-vos sobre o coração,
donde brotam os maus pensamentos. Uma hora depois infalivelmente vem uma brisa, do lado do
vento dominante.
Meia-noite! Horas mortas da noite. É a hora do mistério. Alguma coisa se foi, ficou
atrás no caminho de nossa vida, e começa outra. Os seres racionais e irracionais se
impregnam de respeito. Nem o trilhar dos grilos se percebe. Até o galo, relógio noturno
que marcará as onze horas, se calou e voltará a cantar pela "uma-hora". Os
outros barulhos também se calam um instante; o homem do planalto não se refere ao mar,
mas lembra as cachoeiras que ribombam eternamente no seio das matas ou à beira das
cidades, como Piracicaba e Salto de Itu, e diz que elas emudecem. São as horas mortas da
noite, silêncio que Deus dá.
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O pica-pau que se ouve martelando as árvores com o bico tan-tan-tan e,
precedendo essa martelação, um prrr é uma ave lendária. Pelo jeito das batidas,
os homens e as mulheres de fora ficam sabendo que a dona da casa está grávida. É um
denunciador.
Ele há de ficar no fim do mundo sozinho, a picar as árvores. Então todos os homens,
maridos e filhos, segundo os livros santos há de ter ido para as guerras finais.
Saudosas, as mulheres ouvirão os pica-paus e dirão: é gente que vem vindo. São eles,
os nossos homens. E vão ver! Que desolação!
A codorna, que levanta o vôo e assusta o viajante distraído, é uma ave amaldiçoada,
porque, quando Nosso Senhor menino ia em fuga para o Egito no colo de Nossa Senhora,
assustou o burrinho, e os viajantes sagrados foram para o chão.
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Beija-flor que entra pela casa a dentro, se verde é esperança; branco, alegria; preto,
é luto.
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A coruja que tem duas pontas de rabo mais compridas em forma de tesoura, anuncia a morte.
Se passa cortando mortalha pelo telhado, à tarde, chamam-na corta mortalha.
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Um bicho-preguiça estava debaixo de uma embaúba que dá umas frutinhas em cacho, como
bananinhas, muito apreciadas por ele ou ela, pois se diz também a preguiça. Então, foi
subindo devagarinho. Nessa longa viagem, sete vezes a embaúba floresceu e deu frutos. A
preguiça agarrou o cacho, mas caiu com ele e morreu. Depois de sete anos de sacrifícios!
E disse, ao morrer: o diabo teve a pressa!
O padre Galvão, de Piracicaba, era amante das boas caçadas. Sabia chamar um macuco pelo
pio, que era uma perfeição.
Um dia que ele saiu pelo mato com um amigo fazendeiro, a horas tantas começou a piar.
Além, outro macuco respondeu. O padre foi andando na direção deste, espingarda
carregada, olhando para o alto. O amigo junto. De repente, atrás de um jequitibá, o
fazendeiro enxergou uma pintada. Imediatamente atirou, a bicha deu um pulo e foi morrer
adiante.
O fazendeiro salvou, talvez, a vida do padre, que ia olhando as copas das árvores. A
onça remeda macucos, para os pegar de traição.****
Havia um pescador, num desses rios grandes por aí, que era tão fanático a ponto de lhe
acontecer o seguinte caso: Ele ia na canoa, de rodada. Pegou tanta piranha que acabou a
isca. O homem ficou com pena de largar da pescaria. Então ele botava um dedo da mão
dentro da água. A piranha chegava e o agarrava. Ele puxava a mão e a piranha e, zás!
dentro da embarcação. Homem! Quando chegou ao pouco, tinha-se regalado de pegar piranha,
mas o dedo era só um toco e foi preciso botar arnica sem dó. Ota! Corajudo!
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Quem chorou no ventre materno e dizem que isso pode acontecer com dois meses antes
do nascimento será um grande cantador ou domador ou feiticeiro; enfim, brilhará
naquelas ocupações que mais encantam o vulgo, porque são uma partilha de poderes de
várias espécie, nem a todos concedidos. Parece haver aí uma reminiscência de São
João Batista, que se mexeu nas entranhas maternas e foi profeta.
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O que teve a desgraça de ficar doente do mal, o melhor que tem a fazer é afundar no mato
e passar a carne de onça sem sal. Ou andar pelo campo no tempo dos cajus e passar só com
eles, até sarar. Abraçar e beijar uma criança. Dizem que sara.
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A rainha das frutas é a uva: o rei dos alimentos, o trigo e o rei das madeiras o cedro.
Das frutas é a uva a rainha, porque dela se faz o vinho, que na missa se converte em
sangue do Senhor. Dos alimentos o rei é o trigo, porque dele se faz a hóstia, que na
missa se transforma em Nosso Pai. Das madeiras o rei é o cedro, porque dele se faz a
santa cruz de Jesus Cristo, que se ergue nos caminhos. Isto não é inventado. É uma
tradição oral belíssima, que nunca vimos nos livros.
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Galinha que canta como galo é agoirenta para o dono da casa. Ele desmancha o agoiro,
cortando a cabeça dela para jogar ao telhado.
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Árvore que passa a altura da casa indica a morte do dono.
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Quem faz casa nova para morar sendo já velho, morre logo. Mudanças, só três!
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Para abreviar o parto, a paciente veste a camisa e põe na cabeça o chapéu do marido,
enquanto este dá três vezes a volta da casa. Para curar cachumba, friccionar o lugar
afetado, com a colher de pau ainda quente e gordurosa (Silveiras, pesquisa de dona Maria
de Carvalho de Sene).
Na Mantiqueira também se faz chá de jasmim do campo (nortesco referens) para
curar sarampo. E chá de nove piolhos para moléstias várias. No sul de São Paulo, um
estrangeiro fazia chá de piolhos para doenças de criança. De certo porque o doente não
era ele.
Dor de pescoço? Embrulhem-no com uma meia usada (Mesma informante)
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(Velha historieta, velhíssima). O pobre foi pedir ao rico uma quantia emprestada. O
avarento abriu a gaveta, tirou a cédula ou a moeda, mostrou-lhe e disse: Está
aqui o dinheiro, mas não lho empresto. Se você levar o dinheiro não me paga, mesmo, e
ainda fica de mal comigo, e eu fico sem os meus cobres e sem a sua amizade. Então é
melhor perder só a amizade, e guardar os cobres.
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Para proteção da criança contra a bruxa, põe-se em baixo do travesseiro uma tesoura
aberta. O aço é receita universal contra bruxedos. Corta.
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Sendo o raio, segundo os supersticiosos, um machadinho de pedra que se afunda terra a
dentro e vem subindo sete anos até a superfície, quem o fosse desenterrar seria atacado
por outro machadinho.
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Bicho de pé, assunto muito popular. É o "colonio", porque perseguiu os
primeiros colonos das fazendas de café. Pula que nem pulga. Gosta dos porcos e, por isso
cuidadinho com os chiqueiros. O seu habitat é a poeira, nas taperas e paióis.
Dizem que o cachorro tira com os dentes o seu bicho de pé. Aliás essa restrição é
incompleta, pois o bicho pode inserir-se em todo o corpo. Quando começa a multiplicar-se,
cria rainha ou capoite e faz-se uma moranga, linguagem metafórica. Parece que o bicho
persegue até as caças do mato.
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Há outra espécie de mastro de São João, o mais pobre de todos, sem a bandeira. O jeca
vai ao mato e corta um pau alto e direito, desgalhado desde a forquilha, mas deixando na
ponta uns ramos menores com suas folhas verdes. Pode ser um guarantá, um capituna, um
chupa-ferro. No dia ou na noite de Sã João, ergue-o no terreiro ao som das salvas, não
esquecendo de pôr no buraco em que o afirma, três ovos bons, e na ponta as três espigas
de milho do ritual. Ele crê que desse jeito protege a lavoura e a criação ao mesmo
tempo.
Os três ovos põem-se também sob o mastro com a bandeira. Esse mastro é pintado e
bonito. Erguido ao som de fogos, ronqueiras e salvas no terreiro do lavrador rico e ao
clarão da fogueira, todos ficam olhando para a bandeira. Conforme o lado para onde ela se
vira, é a casa do festeiro do ano próximo. As espigas servem para de alguns grãos
plantarem-se três covas na próxima roça de milho, proteção contra a ventania e chuva
brava que entra só pelo canto deixado livre (do retângulo) e, dando com os outros três,
faz meia-volta.
A crença de voltar-se a bandeira para o lado do fututo festeiro, lembra, por analogia,
outras deduções de mesmo jaez. Os bugres (caingangues) do baixo Parapanema e que
entraram em contato com os brancos ainda neste século, ao enterrarem seus mortos, faziam
uma fogueira. Se a fumaça subia certinha para o céu, a alma do morto para lá estava
caminhando.
(Almeida, Aluísio de. "Dizem que..." O Estado de São Paulo, 3
de fevereiro de 1949) |
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