Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

O boi, amigo do homem, no folclore, por Hernani de Carvalho.

A mulher e a galinha, por Eduardo Campos.

"Era então o lenço mais objeto de luxo que de necessidade." O lenço no folclore, por Mário Melo.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O LENÇO NO FOLCLORE

Mário Melo


Luís R. de Almeida fez à Comissão Nacional de Folclore interessantíssima comunicação sobre o lenço no folclore.

Creio nem todo mundo sabe que o uso do lenço, por quem quer, é conquista democrática. Outrora, somente os cavalheiros, isto é, os nobres, podiam usá-lo e ainda assim, quando dádiva de uma dama.

Posteriormente, veio em parte a vulgarização, mas era feio tirar-se em público um lenço.

A imperatriz Josefina tinha a boca feia por causa da imperfeição dos dentes. Para encobri-la, usava lenços bordados quando ria. Pelo espírito de imitação, que é o característico das mulheres e daí o a que chamam de moda, as damas começaram a usar o paninho bordado como o fazia a imperatriz e a coisa vulgarizou-se.

Era então o lenço mais objeto de luxo que de necessidade. Com ele ninguém se assoava. Em caso de necessidade, o indivíduo apertava o nariz entre o polegar e o indicador.

Ainda hoje se diz a esse antigo sistema: assoar-se com lenço de cinco pontas, ou seja, com a mão, onde há cinco dedos.

No tempo do romantismo, direi melhor, no meu tempo de menino, quando se via a namorada de longe sem as facilidades de hoje, o lenço exercia o papel de telegrafia semafórica. Posto de um modo, significava uma coisa; colocado de outro, significava coisa diversa.

E como dele abusaram os poetas! É notável o soneto em que Guimarães Passos mandava, à namorada, o lenço côncavo de beijos.

O comunicante colheu algumas quadras para figurarem no folclore erudito.

Aqui vão umas:

Este lenço representa
A nossa grande amizade
Cada ponta, amor indica
Cada letra, uma saudade

Tenho umas letras no lenço
Que me ofereceu meu bem
O que dizem essas letras
Só eu sei e mais ninguém

Tenho um lenço de ciúmes
Ó meu amor, pra te dar
Com quatro nós tão bem dados
Que não posso desatar

Hoje, a não ser no bolso de algum almofadinha, mesmo porque o paletó vai sendo abolido, o lenço é de utilidade absoluta.


(Melo, Mário. "O lenço no folclore". Jornal do Comércio, Recife, 17 de fevereiro de 1954)

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