Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

O boi, amigo do homem, no folclore, por Hernani de Carvalho.

A mulher e a galinha, por Eduardo Campos.

"Era então o lenço mais objeto de luxo que de necessidade." O lenço no folclore, por Mário Melo.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


A MULHER E A GALINHA

Eduardo Campos


Será motivo para estudo o se saber por que razão os nordestinos, de uma maneira geral, mostram-se tão irreverentes com referência às galinhas. Até agora há sido inútil nossa tentativa de reencontrar, no passado, algum tema de história popular que ponha em situação duvidosa essas aves que, ainda hoje, prestam valiosa contribuição à alimentação do homem. Moderno filósofo chinês, que atende pelo nome de Lin Yutang, capaz de descobrir verdadeiras fontes de prazer, de viver, em fatos e coisas as mais triviais deste mundo, se conhecesse o serviço que nos prestam essas aves, certamente tê-las-ia incluído naquele seu delicioso roteiro que nos oferece como capaz de promover a felicidade de qualquer pessoa que se prepare a tomar chá. Realmente, não basta o se ter o coração e as mãos ociosas, estar cansado num dia festivo ou "tocando o "chim" e olhando pinturas", e mais outras coisas que enumera com muito bom gosto, mas contemplar — dizemos nós — as aves do quintal, as adoráveis galinhas que constituindo criação e arte, embora exijam muito trabalho, são substancial prova de nosso amor pelos bichos.

As histórias para crianças — e que hoje relembramos com prazer — sempre nos apresentaram os animais domésticos em sua posição de amigos e colaboradores do homem, permanecendo, ainda, na lembrança de todos, com certeza, a venturosa narrativa da galinha dos ovos de ouro, que repetir aqui talvez nos tornasse enfadonhos. Bem tratada nos contos e nas lendas, não obstante na vida prática ser uma das melhores atrações da arte culinária, permitindo o preparo de excelente refeição, a galinha, injustamente, tem contra si o falatório do populacho. Naturalmente, é pouco o seu quinhão de sacrifício pelas exigências do estômago. Não basta ser nos leilões de caridade do hinterland nordestino, quando oferecida assada e enfeitada de papel de seda encarnado ou verde, acompanhada de uma dúzia de garrafas de cerveja, a prenda mais apetecida. Não basta, por outro lado, ser prato ideal para as parturientes nos primeiros quinze dias post-parto— embora, agora, nas capitais já não a aconselhem os médicos — nem tampouco a salvadora refeição a recuperar o estado de tranqüilidade que as surpresas de determinados hóspedes nos preparam.

O cantador é todo cheio de alegria, de satisfação, quando dá de mão na viola e faz gemer as suas doze cordas, declinando no verso fácil e distinto a sua reconhecida hospitalidade. E no improviso não deixará de incluir por certo urna referência ao almoço de galinha:

Quando meu patrão pender
Pras bandas do meu sertão
Tem almoço de galinha
E, na falta, tem capão
Tem mulher pra lhe servir
Numa coisa, noutras não

O almoço de galinha é reconhecido por todos: é prato por excelência do sertanejo. Se o patrão chegar, de repente, à casa do seu morador, não sofre embaraço nenhum. Pode ficar certo que terá urna galinha ensopada ou preparada a cabidela para a refeição. Quem pensaria oferecer ao dono da terra, ao homem que o emprega, refeição menos substancial? Não ter galinha para ocasiões de importância equivalente a esta é o mesmo que não ter café para oferecer à visita de cerimônia.

Por conta disso deve ter surgido penetrante adágio que bem expressa essa situação: "Rico em casa de pobre é desgraça de galinha". Mas, mesmo se reconhecendo essa infelicidade, estaremos prestando uma homenagem à ave que caracteriza os nossos quintais e o terreiro da roça. Se a galinha é sacrificada porque o rico visita a casa do pobre, é sinal de que possui os seus méritos, ensopada ou simplesmente assada e servida com farofa. Porém o que não se admite é que se deixe circular todo um irreverente processo de difamação contra ela. E tudo isso, criando desagradável situação, possivelmente gerado pela desfaçatez do povo a fazer comentários, ora da mulher para a galinha, ora da galinha para a mulher.

É esse, aliás, um velho processo pelo qual se incompatibilizam as criaturas com os animais e vice-versa. E na maioria dos casos tudo que se diz é mal fundamentado e parte de certos erros de precipitada observação. Diz-se de um homem desmazelado, ao extremo, que é igual a um porco, como se os porcos fossem criados para viver na lama. Com referência à mulher e à galinha, os adágios, os versos, as histórias, os ditos populares são inúmeros. Até parece que é uma tola vingança do sexo forte em defesa do paspalhão daquela história que indo dormir, ao acordar, encontrou debaixo da rede um ovo. Espantado, chamou a esposa e contou-lhe o que havia acontecido. Ocorrera, enquanto dormia, qualquer coisa desagradável. A prova estava ali: pusera um ovo.

Sua companheira, longe de guardar segredo, confiou-o à vizinha que, por sua vez, passou a noticia adiante, informando que o marido da amiga não pusera um ovo e, sim, dois. Logo mais toda a cidade era informada que sob a rede do pobre homem havia mais de uma dúzia de ovos.

Teria nascido daí a maledicência popular a respeito da galinha? A verdade é que em quase todos os provérbios relacionados com o assunto, sente-se a presença de uma velha questão: o domínio do lar. Daí o se dizer com muita propriedade: "Terreiro onde canta a galinha, o galo tem bico fechado", ou, então, "Em casa de Gonçalo quem canta é a galinha". Há várias outras expressões, ainda, alternativamente, ditas por homens e mulheres:

Quem canta nesta casa sou eu.
Cantiga de galinha é só para chocar.
A galinha que queria cantar aqui a raposa já comeu.
A gente mata galo é na primeira noite de casamento.
Galinha foi feita pra panela e galo pro terreiro.
Marido manhoso é como galo cego, só come na mão.
Galinha que canta muito está preparando para morrer, etc, etc.

Dessa desinteligência entre cônjuges, ou talvez da simples preocupação de procurarem os maridos mais humildes vingarem-se das suas esposas dominadoras, haja se formado o conceito desprimoroso da mulher que se ouve com mais freqüência entre nós:

— Você quer ser muito boa, mas não passa de uma galinha!

Não há, é evidente, para a mulher da classe média, insulto mais ferino e exasperante. A reação é imediata, porque a ofensa assim pronunciada tem a mesma força depreciativa de termos injuriosos, equivalendo a imputação de prática desonesta, o mesmo que se dizer que a mulher prevarica.

Quando o sertanejo está feliz, sentado no terreiro de sua casa, considera a galinha por um ângulo mais afetivo e humano. É a "minha galinha carijó de estimação", "minha vermelha que põe tantos ovos", "a dona de uma ninhada tirada, agora, que é uma beleza", e outros elogios ajustados à ocasião. Mas, de repente, se se desgosta de alguém, principalmente de uma mulher, muitas vezes da sua esposa, esquece que a sua ave é bonita, que põe ovos pesados e grandes, que cria os pintos mais bonitos do lugar, para transformá-la no mais comum insulto que se utiliza para macular a honra alheia:

— Aquela mulher dele? Uma galinha! Onde se senta, põe um ovo.

Estão, assim, ligadas para sempre na voz do povo as galinhas e as mulheres levianas por um conceito desprimoroso e injusto, acreditamos nós. E longe de se modificar a situação, dia a dia, existirão mais versos, mais ditos populares, mais provérbios ou simples pensamentos intencionais, porque continuará subsistindo uma verdade consagrada pelo povo:

A mulher e a galinha
Não se deixa passear:
A galinha o bicho come
a mulher dá que falar

Introducción al estudio de la gallina en el folklore de Venezuela, é bem fundamentado estudo de Miguel Acosta Saignes que, após termos escrito as considerações iniciais deste trabalho, tivemos oportunidade de ler. Miguel Acosta Saignes veio apenas atestar a excelência do assunto, deixando-nos convencidos de que o folclore aqui nascido ou simplesmente aclimatado serve-nos deliciosos motivos para pesquisas dessa natureza.

Nunca é demais insistir na participação da galinha na terapêutica popular. Já por ocasião da publicação de nosso Medicina popular, recenseamos dezenas de receitas dessa terapia nas quais se evidenciava a presença de órgãos e secreções das aves domésticas. Desde as simpatias de lavagem dos nossos pés em mesma água em que foram lavados os pés de três galinhas, para extinguir a frieira, até às adivinhações de qual sexo será a criança que vai nascer — e para isso terá a futura mãe de cozinhar o coração da ave — ou ao emprego da sua banha, untada ao pescoço, contra os acessos de tosse, inflamação de garganta, etc., fornece a galinha um sem-número de remédios, não nos esquecendo, por certo, de citar as vantagens de seu esterco ou o poder recuperador de sua tenra carne em canjinhas especiais próprias para convalescentes ou parturientes.

Quis o destino que os homens, na preocupação de disputarem o amor a qualquer, preço, fizessem ciumentas algumas mulheres. E como o ciúme provoca o ódio, e o ódio, por sua vez, leva as criaturas ao desespero e, por conseguinte, à prática de atos desabonadores, surgiram os despachos, as inevitáveis feitiçarias onde a galinha, imerecidamente, tem a sua participação delituosa.

Porventura já se encontraram, altas horas da noite, com urna galinha recheada de cinza, areia de cemitério, na intercessão de dois ou mais caminhos, rodeada de velas acesas, posta sobre velha toalha ou simples exemplar de jornal já lido? A inocente ave que conquistou um lugar de honra na mesa do nordestino gastrônomo, que põe o ovo que entra obrigatoriamente no preparo de quase todos os pratos da deliciosa cozinha cabocla, em dias de festa, transforma-se, nessa ocasião, em veículo do mal. Vá se ver, e é o ódio de alguma mulher contra a despudorada que lhe deseja roubar o esposo.

Não importa que em determinadas circunstâncias tenha a sua reputação abalada. Quer seja pinto, frango, galo ou galinha, toda a família representativa dos galináceos está intimamente ligada à vida humana. O galo, representando além do símbolo da fecundidade, o senhor e rei do terreiro, é o relógio do pobre. Principia prestando-lhe um dos serviços mais úteis, o de orientá-lo no amanhecer do dia. Canta geralmente à aproximação da meia-noite e às horas mais baixas da madrugada. Quem dorme no campo sente um prazer indefinido em ouvir o canto dos galos sendo respondido, ora mais perto, ora mais distante, por outros companheiros que acordam e se afinam pelo canto de alvorada.

Fernández de Oviedo, em sua General Historia, citada por Miguel Acosta Saignes, escrevia: "Los gallos en España y otras partes muchas de los cristianos (y aún asi pienso yo que en Europa toda y en la mayor parte de lo que se sabe) cantan a medianoche y cuando quiere amanecer, y aún algunos y los mejores cantan tres veces o en tres partes de la noche..."

Os cantadores do sertão sempre nos lembram a presença, ora do galo, ora da galinha, em comparações às vezes depreciativas e, em outras, elogiosas, sendo possivelmente os melhores versos que já lemos sobre o assunto os recolhidos pelo saudoso Leonardo Mota, na feira do Cedro, na voz de um cantador (João Pedro de Andrada, vulgo Bentevi) desiludido com o auditório que não queria pagar para ouvir os seus repentes:

Rancho de cavalo é milho
De cantador é dinheiro!
Quem canta de graça é galo
Pra divertir o terreiro
De home que faz gosto a macho
Eu só conheço barbeiro
Que alisam freguês na casa
Passa o pente e bota cheiro

Se por um lado é delicioso prato a franguinha tenra servida numa canja, como dissemos linhas atrás, não pode haver comida mais irritante do que um galo velho. A ave não cozinha direito, por mais fogo que se lhe chegue, o que deu motivo a que nascesse o dito popular: "à galo duro!" Diz-se também na conversa: "Comi um galo pra fazer o serviço!" "O negócio foi um galo duro", etc. Odilon de Brito, cantador dos sertões cearenses, em desafio com Maria Bela, violeira de São Paulo, não teve vergonha de declarar:

Quando eu cheguei em Marília
No estado de São Paulo
Encontrei uma cantora
Que me deu um grande abalo
Nas unhas desta mulher
Eu quase comi um galo

O anedotário a respeito do assunto é bem difundido em todo o sertão, valendo a pena repetir-se a história do padre que, ao se servir de uma galinha, numa pensão do interior, notando-a mal cozida, e, sobretudo, com os "canhões" das penas, num gesto de achincalhe, pediu ao vizinho:

— Depressa, me dê seu chapéu!

— O chapéu? Pra quê? — perguntou-lhe o outro, admirado.

— Pra cobrir esta galinha senão ela voa!

Tanto no anedotário, como na terapêutica, tanto nos repentes dos violeiros mais famosos, estará sempre comentada a galinha e toda a sua família. As crianças, principalmente, pela proximidade que dispensam a essas aves, a quem devotam uma ternura bem pronunciada, mais do que ninguém se interessam pelas canções ou simples exercícios escolares que tratam delas. Na Venezuela, segundo o autor do estudo por nós comentado, existe uma cantiga desta brincadeira de saltar, mais ou menos assim:

El gallo, el gallo,
la gallina y el caballo,
se pusieron,
se pusieron
se pusieron a comer
?Que si! ?Que no! ?Que en mi casa mando yo!
Lo que dicen las gallinas
?Tanto poner!
?Tanto poner!
?Y sin zapatos!

Alexina de Magalhães Pinto recolheu uma variedade de danças populares de nosso folclore, apresentando-se em seu famoso Cantigas das crianças e do povo, do qual divulgamos a cantiga de socar: Sinhazinha.

Mulata bonita
Não bambaleia;
No fundo do mar
Tem baleia.

Sinhazinha está doente
Muito mal para morrer;
Não há galinha nem frango
Pra sinhazinha comer

Na ordem das adivinhações o folclorista Veríssimo de Melo recenseou pelo menos duas, muito interessantes, que se cingem ao tema. A primeira: "O que é, o que é? Um capão dentro do outro?" — tem como resposta: um frango. E a segunda vale a pena ser transcrita na íntegra:

Tico-tirico-tico,
Não tem pena, não tem perna
E não tem bico;
Depois,
Tico-tirico-tico,
Já tem pena, já tem perna
E já tem bico — (É o pinto)

E não ficam apenas nesses exemplos o fabuloso folclore brasileiro desenvolvido em torno da galinha. Com mais carinho e tempo não será difícil alguém mais dedicado fazer estudo mais desenvolvido sobre o assunto. Bem que o merece.


(Campos, Eduardo. Folclore do nordeste. Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1960, p.31-40)

Jangada Brasil © 1998-2002