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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Regina Lacerda
Comunicação à Comissão Nacional de Folclore |
Este costume de caráter regional representa um gostoso paradoxo, pois uma
"traição" dá sempre idéia de prejuízo, fracasso, enfim uma série de
maldades do traidor ao traído.
Em Goiás, porém, a coisa se apresenta de forma diferente; na zona rural devido a
escassez de braços para o trabalho e muitas vezes por falta de recursos financeiros
acontece encontrar-se um "fazendeiro" em dificuldade com seus pastos fastejados
de ervas, ou com seu milharal "sujo" isto é, com o mato crescido de permeio, e
outras tantas complicações da mesma natureza; quando então aparece a
"traição".
Passa-se assim:
Um vizinho amigo reúne os seus camaradas (empregados) e convida outros amigos que com
seus homens, em surdina, preparam um "ajudatório" de "surpresa".
Debaixo do maior sigilo investigam qual é o trabalho a fazer, para quantos dias, etc.
fazem o cálculo de redução: para um dia, qual o número de trabalhadores, etc.
Reúnem de 50 a 90 pessoas conforme a tarefa e por volta das 10 ou 11 horas da noite,
munidos das enxadas, foices não deixando as chorosas violas que são tão indispensáveis
quantos os primeiros instrumentos dirigem-se à casa do amigo.
O fazendeiro que ignorando tudo, dorme tranqüilamente (ou talvez preocupado com suas
complicações), acorda assustadíssimo com a chegada da "traição".
Ao lado deste aspecto de cooperativismo, de altruísmo e amizade está o social, o
pitoresco, o divertido.
O traído no momento fica nervoso pois que talvez o café torrado não dê, talvez
não poderá tratar de tanta gente, mas sem ligar para estas preocupações os traidores
cantam sua saudação de chegada.
As violas e sanfonas acompanham os cantadores e as cantigas se alongam pois que a
"chegada" é variada.
O pessoal da casa não pode abrir as portas antes que, para tal seja intimado em versos.
São recebidas cordialmente pelo dono da casa que já se refez do susto pois em muitos
casos (de acordo com a situação financeira do traído) trazem cargueiros de gêneros
alimentícios e as "negras" para ajudarem a patroa na cozinha.
O sol vem encontrá-los em uma catira "sarada", pois o "brinquedo" é
parte integrante da "traição".
Pela manhã, depois do leite quente, café com bolos etc., partem para o serviço.
Enquanto trabalham e cantam são regados de vez em quando com uma boa pinguinha.
O almoço é levado lá mesmo onde trabalham pois a festa é no jantar.
Ao pôr-do-sol, cada turma já deu conta do seu "eito", e vão saborear o
jantar.
Leilões e frangos são sacrificados para a ocasião que é uma festa, pois o trabalho que
exigia dois meses ou mais está feito debaixo de toda alegria e amizade.
Antes do jantar cantam o "Benedito" e à noite outro baile os espera.
Versos para a chegada
(do lado de fora da porta)
Acorda se está durmino
Levanta moradô
vem recebê a traição
que na sua casa chegô...
De tão longe venho vindo
Rompendo mato e serradão
Prá trazé à vossa casa
Esta bela traição
Acordai minha gente
escutai esta arvorada
O festero tá chamano
Pro café da madrugada...
Senhora dona da casa
Sombrancêia de retrós
Põe chalera no fogo
Vai fazer café pra nós.
Senhor dono da casa
não dá suspiro à toa
Nós somos face de tratá
somo só noventa pessoa...
Senhor dono da casa
não queira se arrepará
não viemo passá bem
Viemos pra te ajudá!
(Quando se deve abrir a porta)
Senhor dono da casa
Alegra o seu coração
Abra a porta acende a luz
pra recebê sua traição.
Cantam durante o trabalho
Fui no campo campeá
O gado arrudiei
fartô novia "china"
Qui no gado num achei
Eu subi naqueles arto
Onde minha vista arrancô
Avistei campina limpa
Onde a beleza morô...
Fura eito vai desceno
Donde o solo vai entrano
Logo vai escureceno aí...
À meia noite cai sereno.
(eito serviço feito em partes).
Eu deito no chão e rolo,
Furo nego no punhá
O dia que eu tô assim.
Não bebo café nem chá.
(Outros versos vão surgindo conforme a inspiração)
A volta do serviço
Lá se vai o solo entrano
por cima da morraria,
acabou o meu muchirão
cum prazê e alegria.
Lá vai o solo entrano
entrano em boa hora
Boas tardes pros senhores
Boas noites pras senhoras...
Outros versos são cantados enquanto vêm voltando com o dono da casa, dentro de um quarto
feito com os cabos da enxada ou foices, e os demais acompanham em duas filas batendo os
cabos dos instrumentos cruzados para o alto e marcando o ritmo da música.
Versos para a despedida
Adeus meu patrão
que nóis já vamos vortá
se a fortuna me vié
algum dia hei-de torná
E chamam a isso "traição"...
(Lacerda, Regina "Traição". Correio Paulistano, São
Paulo, 26 de novembro de 1950, "Correio folclórico", 42) |
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