
"Não há animal tão vivo, na Bahia, quanto o boi, que se faz presente
em todas as canções e folguedos populares." Este boi dá...,
de Edison Carneiro.
Segundo domingo de outubro, Círio
de Nazaré. A basílica de Nossa Senhora de Nazaré, por
Leandro Tocantins.
Festas
Populares no Tejuco, distrito diamantino, Minas Gerais, 1818, por Karl von Martius. |
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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
FESTAS POPULARES NO TEJUCO, DISTRITO DIAMANTINO,
MINAS GERAIS, 1818 |
Karl Friedrich Philipp von Martius
Viagem pelo Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa
Nacional, 1938 |
Já desde nossa chegada a Tejuco se haviam tomado disposições para solenizar a
coroação do rei com festejos patrióticos, que haviam sido ao mesmo tempo organizados em
todo o Brasil, O patriotismo de Ferreira da Câmara, que compreendia a grandeza e
dignidade do acontecimento, pelo qual o Brasil, pela primeira vez, recebia a sagração da
independência, incitou-o a dar a essas festas toda a pompa e esplendor significativo.
Tivemos com isso ocasião de admirar o tato perfeito e fino sentimentalismo do sertanejo
brasileiro. Começaram as cerimônias com um espetáculo em teatro, para esse fim erguido
com tablado na praça do Mercado, para onde o povo e os atores se dirigiram em préstito
festivo. Arautos abriam o séquito, seguia o coro de cantores e mais quatro figurões,
que, representando as vastas possessões da monarquia portuguesa, traziam com os emblemas
dos povos europeu, índio, negro e americano, um globo terrestre, acima do qual estava a
imagem de dom João VI. Fechava o préstito um grupo imponente de rapazes e raparigas,
vestidos como pastores, trazendo guirlandas de flores, com as quais, chegando ao teatro,
enfeitaram a imagem do monarca, ao estrondo das aclamações do público. Os pastores
executaram depois danças portuguesas, das Índias Orientais e dos negros, e, no
intervalo, apareceram quatro arlequins, que divertiram a numerosa assistência com pulos
bizarros, parodiando os desajeitados gestos dos selvagens americanos. Menos significativa
foi a peça tragicômica A noiva reconquistada. O pano da cena representava o
gênio do Brasil, pisando a hidra da desunião, oferecendo aos habitantes um molho de
espigas. Essa pintura era obra de um brasileiro, que, sem estudos, dispusera tão bem as
figuras e tão proporcionadas, além do colorido muito adequado, que em tal painel se
reconhecem, com prazer, sinais de belas qualidades artísticas na gente deste país. Não
menos interessante espetáculo foram as cavalgadas. Cavaleiros trajando veludo
vermelho e azul, bordado a ouro, armados de lanças, figuraram combates entre mouros e
cristãos, e, nesses desafios, faziam lembrar a bela época cavalheiresca da Europa. Antes
de começar esse combate simulado, cruzaram-se cristãos e mouros: depois, separaram-se em
duas filas e correram uns para os outros, atacando-se ora com lanças, ora com espadas e
pistolas. No seguinte carroussel da argolinha, conseguiram com grande agilidade,
uns após outros, enfiar o anel em rápida correria desde o camarote do intendente até ao
fim da pista fronteira, onde ele estava pendurado. Se o herói era bem sucedido, retirando
a argolinha com a lança, ele escolhia na assistência uma dama, mandava-lhe um pajem
negro pedir licença para lhe oferecer o troféu, entregava-lho, e, triunfante, ao som de
fanfarra corria ao encontro dos cavaleiros, trazendo na lança uma écharpe ao
laço de fita, ali amarrado pela mão da escolhida. Noutras manobras, os combates de
esgrima e tiro ao alvo eram para obter cestos com artísticas flores, frutos ou animais do
país ou eram lutas contra mascarados. Uma linda diversão, que fazia lembrar a galantaria
do tempo da cavalaria, consistia em levarem os cavaleiros limões de cera, cheios de
flores, que beijavam como presente de sua dama, e depois os atiravam uns nos outros,
enchendo de flores o campo da batalha. Esses divertidos espetáculos encerraram-se com
corridas em filas, formando meandros, volteios e círculos, nos quais os atores se
mostraram exímios cavaleiros e todos se dispersaram, depois das lutas, trocando entre si
manifestações de amizade, como bons cristãos. O remate dessas festas foram bailes e
iluminações.
Também os negros esforçaram-se por festejar, a seu modo, essa extraordinária solenidade
patriótica; para isso, acharam justamente então mais adequado escolherem um rei dos
pretos. É costume dos negros do Brasil nomearem todos os anos um rei e sua corte. Esse
rei não tem prestígio algum político nem civil sobre os seus companheiros de cor; goza
apenas da dignidade vaga, tal como o rei da fava, no dia de Reis, na Europa, razão por
que o governo luso-brasileiro não opõe dificuldade alguma a essa formalidade sem
significação. Pela votação geral, foram nomeados rei congo e rainha xinga, diversos
príncipes e princesas, com seis mafucas (camareiros e camareiras) e dirigiram-se
em procissão à igreja dos pretos. Negros, levando o estandarte, abriam o préstito;
seguiam-se outros levando as imagens do Salvador, de 8, Francisco, da Mãe de Deus, todas
pintadas de preto; vinham depois a banda de música dos pretos, com capinhas vermelhas e
roxas, todas rotas, enfeitadas com grandes penas de avestruz, anunciando o regozijo, ao
som de pandeiros e chocalhos, de ruidoso canzá e da chorosa marimba; marchava
à frente um negro de máscara preta, como mordomo, de sabre em punho; depois os
príncipes e princesas, cujas caudas eram levadas por pajens de ambos os sexos; o rei e a
rainha do ano antecedente, ainda com cetro e coroa; e, finalmente, o real par,
recém-escolhido, enfeitado com diamantes, pérolas, moedas e preciosidades de toda
espécie, que haviam pedido emprestado para essa festa; a rabadilha do séquito era
composta da gente preta, levando círios acesos nos bastões forrados de papel prateado.
Chegando à igreja da Mãe de Deus, preta e só dos negros, o rei deposto entregou o cetro
e a coroa ao seu sucessor, e este fez então uma visita de gala, na sua nova dignidade, ao
intendente do Distrito Diamantino, com toda a sua corte. O intendente, já prevenido dessa
visita, esperou o seu hóspede real em camisola de dormir e carapuça. O recém-eleito,
negro forro e sapateiro de ofício, ao avistar o intendente, ficou tão atrapalhado que,
ao ser convidado para sentar-se no sofá, deixou cair o cetro. O delicado Ferreira da
Câmara apanhou-o, e rindo, o restituiu ao rei já cansado, com as palavras: "Vossa
Majestade deixou cair o cetro!" O coro musical exprimiu com barulhenta toada a
respeitosa gratidão pelo gesto do intendente, e finalmente, saiu toda a multidão, depois
de haver, segundo o costume dos escravos, dobrado o joelho direito diante das pessoas da
casa, e, caminhando alegremente pelas ruas, o rei e a rainha voltaram às suas choças. O
mesmo espetáculo repetiu-se no outro dia, mas com umas variantes. O novo rei dos negros
recebeu oficialmente a visita de um enviado estrangeiro à corte do congo (a denominada congada).
A família real e a corte, em roupas de gala, dirigiram-se com pompa à praça do
Mercado; o rei e a rainha sentaram-se em cadeiras, à sua direita e esquerda,
acomodaram-se, em bancos baixos, os ministros, camareiros e camareiras e os mais
dignitários do reino. Diante deles, estavam colocados, em dupla fila, os músicos da
banda, com sapatos amarelos, e vermelhos, meias pretas e brancas, calças vermelhas e
amarelas, com capinhas de seda, todas rotas, e faziam uma algazarra infernal com tambores,
flautas, pandeiros, chocalhos e com a chorosa marimba; os dançadores anunciaram o enviado
com pulos e cabriolas, com as mais singulares caretas e as mais profundas mesuras, e
traziam os seus presentes, apresentando tão bizarro espetáculo, que se imaginava estar
diante de um bando de macacos, suas majestades pretas a princípio repeliram a visita do
estrangeiro, mas acabaram com estas palavras: "Que lhe estavam abertas as portas e o
coração do rei." O rei do congo convidou o enviado a tomar assento à sua esquerda,
e, ao som da música ruidosa, fez distribuição de comendas e bastões espanhóis.
Concluiu-se, afinal, a festança com o brado do rei dos pretos, que o seu povo repetiu:
"Viva el-rei dom João VI!" Quão interessantes são as reflexões do
pensador, que, em retrospectiva visão, recorda as passagens dessa festa!
(Cascudo, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no
Brasil. Rio de Janeiro, Livros Científicos Técnicos, 1977, v.1, p.92-95) |
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