Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
"Não há animal tão vivo, na Bahia, quanto o boi, que se faz presente em todas as canções e folguedos populares." Este boi dá..., de Edison Carneiro.

Segundo domingo de outubro, Círio de Nazaré. A basílica de Nossa Senhora de Nazaré, por Leandro Tocantins.

Festas Populares no Tejuco, distrito diamantino, Minas Gerais, 1818, por Karl von Martius.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


FESTAS POPULARES NO TEJUCO, DISTRITO DIAMANTINO, MINAS GERAIS, 1818

Karl Friedrich Philipp von Martius
Viagem pelo Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1938


Já desde nossa chegada a Tejuco se haviam tomado disposições para solenizar a coroação do rei com festejos patrióticos, que haviam sido ao mesmo tempo organizados em todo o Brasil, O patriotismo de Ferreira da Câmara, que compreendia a grandeza e dignidade do acontecimento, pelo qual o Brasil, pela primeira vez, recebia a sagração da independência, incitou-o a dar a essas festas toda a pompa e esplendor significativo.

Tivemos com isso ocasião de admirar o tato perfeito e fino sentimentalismo do sertanejo brasileiro. Começaram as cerimônias com um espetáculo em teatro, para esse fim erguido com tablado na praça do Mercado, para onde o povo e os atores se dirigiram em préstito festivo. Arautos abriam o séquito, seguia o coro de cantores e mais quatro figurões, que, representando as vastas possessões da monarquia portuguesa, traziam com os emblemas dos povos europeu, índio, negro e americano, um globo terrestre, acima do qual estava a imagem de dom João VI. Fechava o préstito um grupo imponente de rapazes e raparigas, vestidos como pastores, trazendo guirlandas de flores, com as quais, chegando ao teatro, enfeitaram a imagem do monarca, ao estrondo das aclamações do público. Os pastores executaram depois danças portuguesas, das Índias Orientais e dos negros, e, no intervalo, apareceram quatro arlequins, que divertiram a numerosa assistência com pulos bizarros, parodiando os desajeitados gestos dos selvagens americanos. Menos significativa foi a peça tragicômica A noiva reconquistada. O pano da cena representava o gênio do Brasil, pisando a hidra da desunião, oferecendo aos habitantes um molho de espigas. Essa pintura era obra de um brasileiro, que, sem estudos, dispusera tão bem as figuras e tão proporcionadas, além do colorido muito adequado, que em tal painel se reconhecem, com prazer, sinais de belas qualidades artísticas na gente deste país. Não menos interessante espetáculo foram as cavalgadas. Cavaleiros trajando veludo vermelho e azul, bordado a ouro, armados de lanças, figuraram combates entre mouros e cristãos, e, nesses desafios, faziam lembrar a bela época cavalheiresca da Europa. Antes de começar esse combate simulado, cruzaram-se cristãos e mouros: depois, separaram-se em duas filas e correram uns para os outros, atacando-se ora com lanças, ora com espadas e pistolas. No seguinte carroussel da argolinha, conseguiram com grande agilidade, uns após outros, enfiar o anel em rápida correria desde o camarote do intendente até ao fim da pista fronteira, onde ele estava pendurado. Se o herói era bem sucedido, retirando a argolinha com a lança, ele escolhia na assistência uma dama, mandava-lhe um pajem negro pedir licença para lhe oferecer o troféu, entregava-lho, e, triunfante, ao som de fanfarra corria ao encontro dos cavaleiros, trazendo na lança uma écharpe ao laço de fita, ali amarrado pela mão da escolhida. Noutras manobras, os combates de esgrima e tiro ao alvo eram para obter cestos com artísticas flores, frutos ou animais do país ou eram lutas contra mascarados. Uma linda diversão, que fazia lembrar a galantaria do tempo da cavalaria, consistia em levarem os cavaleiros limões de cera, cheios de flores, que beijavam como presente de sua dama, e depois os atiravam uns nos outros, enchendo de flores o campo da batalha. Esses divertidos espetáculos encerraram-se com corridas em filas, formando meandros, volteios e círculos, nos quais os atores se mostraram exímios cavaleiros e todos se dispersaram, depois das lutas, trocando entre si manifestações de amizade, como bons cristãos. O remate dessas festas foram bailes e iluminações.

Também os negros esforçaram-se por festejar, a seu modo, essa extraordinária solenidade patriótica; para isso, acharam justamente então mais adequado escolherem um rei dos pretos. É costume dos negros do Brasil nomearem todos os anos um rei e sua corte. Esse rei não tem prestígio algum político nem civil sobre os seus companheiros de cor; goza apenas da dignidade vaga, tal como o rei da fava, no dia de Reis, na Europa, razão por que o governo luso-brasileiro não opõe dificuldade alguma a essa formalidade sem significação. Pela votação geral, foram nomeados rei congo e rainha xinga, diversos príncipes e princesas, com seis mafucas (camareiros e camareiras) e dirigiram-se em procissão à igreja dos pretos. Negros, levando o estandarte, abriam o préstito; seguiam-se outros levando as imagens do Salvador, de 8, Francisco, da Mãe de Deus, todas pintadas de preto; vinham depois a banda de música dos pretos, com capinhas vermelhas e roxas, todas rotas, enfeitadas com grandes penas de avestruz, anunciando o regozijo, ao som de pandeiros e chocalhos, de ruidoso canzá e da chorosa marimba; marchava à frente um negro de máscara preta, como mordomo, de sabre em punho; depois os príncipes e princesas, cujas caudas eram levadas por pajens de ambos os sexos; o rei e a rainha do ano antecedente, ainda com cetro e coroa; e, finalmente, o real par, recém-escolhido, enfeitado com diamantes, pérolas, moedas e preciosidades de toda espécie, que haviam pedido emprestado para essa festa; a rabadilha do séquito era composta da gente preta, levando círios acesos nos bastões forrados de papel prateado. Chegando à igreja da Mãe de Deus, preta e só dos negros, o rei deposto entregou o cetro e a coroa ao seu sucessor, e este fez então uma visita de gala, na sua nova dignidade, ao intendente do Distrito Diamantino, com toda a sua corte. O intendente, já prevenido dessa visita, esperou o seu hóspede real em camisola de dormir e carapuça. O recém-eleito, negro forro e sapateiro de ofício, ao avistar o intendente, ficou tão atrapalhado que, ao ser convidado para sentar-se no sofá, deixou cair o cetro. O delicado Ferreira da Câmara apanhou-o, e rindo, o restituiu ao rei já cansado, com as palavras: "Vossa Majestade deixou cair o cetro!" O coro musical exprimiu com barulhenta toada a respeitosa gratidão pelo gesto do intendente, e finalmente, saiu toda a multidão, depois de haver, segundo o costume dos escravos, dobrado o joelho direito diante das pessoas da casa, e, caminhando alegremente pelas ruas, o rei e a rainha voltaram às suas choças. O mesmo espetáculo repetiu-se no outro dia, mas com umas variantes. O novo rei dos negros recebeu oficialmente a visita de um enviado estrangeiro à corte do congo (a denominada congada). A família real e a corte, em roupas de gala, dirigiram-se com pompa à praça do Mercado; o rei e a rainha sentaram-se em cadeiras, à sua direita e esquerda, acomodaram-se, em bancos baixos, os ministros, camareiros e camareiras e os mais dignitários do reino. Diante deles, estavam colocados, em dupla fila, os músicos da banda, com sapatos amarelos, e vermelhos, meias pretas e brancas, calças vermelhas e amarelas, com capinhas de seda, todas rotas, e faziam uma algazarra infernal com tambores, flautas, pandeiros, chocalhos e com a chorosa marimba; os dançadores anunciaram o enviado com pulos e cabriolas, com as mais singulares caretas e as mais profundas mesuras, e traziam os seus presentes, apresentando tão bizarro espetáculo, que se imaginava estar diante de um bando de macacos, suas majestades pretas a princípio repeliram a visita do estrangeiro, mas acabaram com estas palavras: "Que lhe estavam abertas as portas e o coração do rei." O rei do congo convidou o enviado a tomar assento à sua esquerda, e, ao som da música ruidosa, fez distribuição de comendas e bastões espanhóis.

Concluiu-se, afinal, a festança com o brado do rei dos pretos, que o seu povo repetiu: "Viva el-rei dom João VI!" — Quão interessantes são as reflexões do pensador, que, em retrospectiva visão, recorda as passagens dessa festa!


(Cascudo, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no Brasil. Rio de Janeiro, Livros Científicos Técnicos, 1977, v.1, p.92-95)

Jangada Brasil © 1998-2002