Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
"Não há animal tão vivo, na Bahia, quanto o boi, que se faz presente em todas as canções e folguedos populares." Este boi dá..., de Edison Carneiro.

Segundo domingo de outubro, Círio de Nazaré. A basílica de Nossa Senhora de Nazaré, por Leandro Tocantins.

Festas Populares no Tejuco, distrito diamantino, Minas Gerais, 1818, por Karl von Martius.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


A BASÍLICA DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ

Leandro Tocantins


A localização da igreja de Nossa Senhora de Nazaré esta ligada a um fato, digo melhor, a uma lenda, que empolgou o espírito e o coração dos belemenses na sexta década dos mil e setecentos. Nesse tempo, todo o atual bairro de Nazaré estava coberto pela densa floresta tropical. Havia os caminhos de mato, conduzindo gente para os casebres que se erguiam nas raras clareiras.

Um dos caminhos de mato chamava-se estrada do Utinga, e aí o caçador Plácido construiu a sua palhoça. Certo dia ele saiu a caçar e teve a surpresa de ver pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré acomodada numa espécie de nicho natural, envolvido por um retábulo de folhas e trepadeiras silvestres. Não foi menor o espanto de Plácido quando percebeu o manto de seda da santa, todo bordado a ouro, como se a imagem estivesse no altar de um templo!

Piedoso e crente da religião, o homem recolhe a santa para a sua cabana, onde lhe improvisa um oratório.

Bastava, porém, Plácido afastar-se da barraca para que a Virgem de Nazaré voltasse ao seu altar em plena selva. O capricho de Nossa Senhora de Nazaré repetia-se toda vez que o caçador se obstimava em tê-la no oratório doméstico.

A estória se espalhou no bairro da Campina e na "Cidade Velha". O povo acorreu às matas do Utinga, desejando ver o milagre. Todas as pessoas que iam rezar e pedir graças à Virgem, na choupana, atestavam que ela, durante a noite, sem que ninguém percebesse, desaparecia do oratório. Era só procurá-la depois, no dossel agreste: a santinha, tranqüilamente, repousava em seu altar preferido.

Até o governador interessou-se pelo caso. "Tragam a imagem até aqui que eu mesmo A entronizarei na capela do palácio", teria dito sua excelência. Assim foi feito. Mas, no outro dia, a despeito da guarda palaciana estar vigilante, Nossa Senhora de Nazaré sumira! Pequena multidão se internou na mata do Utinga, certa de encontrá-la entre as arborizações selvagens. E, de novo, ocorreu o milagre!

Aqui termina a lenda e entra a história.

A devoção à Nossa Senhora de Nazaré enraizara-se na alma do povo. Antônio Agostinho, por morte de Plácido, investiu-se nas funções de guardião da santa, e, com a ajuda dos devotos, ergue pequenina ermida, justamente no lugar onde ela, na floresta, aparecia e reaparecia. "Um santuário decente" que conseguiu da "religião e da piedade de algumas pessoas", acrescenta o cronista da época.

Abriram na mata "um largo quadrilátero de setenta e quatro braças de longo". Desde então a estrada do Utinga passou a ser estrada de Nazaré, e o quadrilátero, largo de Nazaré.

No ano de 1799, o governador e capitão-general do Grão Pará e Rio Negro, dom Francisco de Souza Coutinho, se interessou pela ereção de um templo próprio para acolher o grande número de fiéis. Deu o apoio do Govêrno, recebendo, também, auxílio de um rico senhor de engenho, o coronel Ambrósio Henriques da Silva Pombo, que havia, recentemente, construído a sua própria capela de Nosso Senhor dos Passos, na travessa do Passinho.

A igreja de Nazaré, erguida no mesmo local das aparições da santa, era feita de pedra e cal, de bom tamanho, estilo despretencioso de casa rural brasileira, com uma larga varanda à frente, sustentada por colunas, onde se realizavam os leilões.

No livro de Alfred Russel Wallace, Viagens pelo Amazonas e rio Negro, há gravura do aspecto do largo de Nazaré e da igreja, no ano de 1848. Henry Walter Bates, na mesma época, depôs sobre a paisagem de Nazaré, que ensaiava os primeiros passos de urbanização:

"O edifício mais importante era a capela de Nossa Senhora de Nazaré, que se erguia defronte de nossa casa. A Virgem aí introduzida é de grande devoção de todos os católicos paraenses, quelhe atribuem muitos milagres. Via-se, no altar, uma linda imagem de uns quatro pés de altura, com uma coroa de prata e manto de seda, recamado de estrelas de ouro".

Com o desenvolvimento da cidade e o aumento da devoção foi preciso remodelar a Igreja. 1852 assinala o lançamento da pedra inicial do terceiro edifício desenhado por José Joaquim da Cunha e concluído em 1881.

Todavia, os belemenses não se mostravam satisfeitos. Queriam um templo grandioso, algo que ficasse in aeternum na cidade, perpetuando a sua crença fervorosa na Virgem de Nazaré. Pareciam estar possuídos da mesma força interior dos católicos que ergueram as catedrais na Idade Média.

E a 24 de outubro de 1909 lançava-se a pedra fundamental da Basílica de Nazaré, cujas obras prosseguiram pelo tempo afora. O padre Luís Zóia, visitador dos Barnabitas, ordem a que está entregue a paróquia de Nazaré, teve as honras de iniciá-las. Sucedeu-o o padre Afonso Di Giorgio, com tanta abnegação que os belemenses, por iniciativa de Chermont de Brito — intelectual que o Pará sempre conta no Rio de Janeiro para fazer tudo de bom à sua terra —, mandaram levantar o busto do sacerdote em frente da igreja, que ele, velhinho, ainda recordava fase por fase da construção. A igreja está concluída, depois de mais de meio século de trabalho em ritmo lento, hoje, apressado, amanhã, e, às vezes, trabalho interrompido.

Raras são as basílicas no Brasil, isto é, do estilo da antiga Igreja cristã, tempo em que a religião de Cristo foi reconhecida e se tornou poderosa, pela conversão de Constantino, no ano 313, saindo os cristãos das catacumbas de Roma para criarem as basílicas, onde os fiéis podiam assistir, livremente, os atos litúrgicos do Catolicismo.

Era imperativo ter uma casa adequada ao culto divino, sem repetir as formas daqueles templos pagãos greco-romanos, morada de deuses, que não se coadunavam com os princípios da doutrina de Jesus Cristo. Ademais, o grande número de fiéis não caberia no recinto dos templos da era pagã, se por acaso quisessem utilizá-los.

Havia, em Roma, a basílica, edifício onde se ministrava justiça e os mercadores se reuniam para tratar de negócios. Sala grande e retangular, com uma abside. Os cristãos adaptaram-na às necessidades rituais do novo culto. Anexaram-lhe uma nave transversal, a fim de emprestar forma de cruz à nave principal. E assim nasceu a basílica, a casa de Deus "um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e rei de todos e por todos em todos", na palavra do apóstolo São Paulo.

A basílica de Nazaré guarda fielmente o plano e o estilo das basílicas romanas. É quase uma cópia interna da basílica de São Paulo Extra-Muros, em Roma.

O interior da basílica paraense não foge à regra geral: retângulo de sessenta e dois metros por vinte e quatro. A nave central, o transepto e a abside formam a cruz latina. A primeira, é remarcada por uma série de arcos que repousam diretamente sobre trinta e seis colunas de granito róseo de Crusallo, com bases de dirite. Existem quatro naves laterais. O altar de Nossa Senhora de Nazaré se eleva na abside, precedido por um arco triunfal.

O luxo da decoração segue o critério das basílicas romanas, onde esse requinte servia para infundir nos primeiros cristãos a impressão do sobrenatural.

Vêm-se, por toda a parte, riquíssimos vitrais coloridos, destacando-se os das cinqüenta e três janelas do templo. As paredes são adornadas com mosaicos, entre os quais sobressaem peças de ouro do Gurupi, rio aurífero ao sul do estado do Pará. Reúnem-se as pequeninas placas para a fixação de cenas evangélicas, figuras de santos, episódios bíblicos. Notáveis estes painéis, largamente utilizados nas basílicas italianas, que revelam o espírito da primitiva arte cristã, manifestando em símbolos, em linguagem figurativa, a verdade dos dogmas.

A um historiador da arte acudiu a frase de Dante: parlar visibile, quando interpretava os painéis de mosaico dos primeiros artífices cristãos. E que a estética do Cristianismo, em reação à estética pagã dos gregos, abolira, naquele tempo, a escultura, submetendo as formas ao plano das superfícies lisas.

Emanam dessa estética os numerosos mosaicos da basílica de Nossa Senhora de Nazaré. Mas, existem imagens de mármore em altares suntuosos. A mistura de estilos dificulta uma conceituação artística sobre as formas dos altares, como em tudo, aliás, na basílica de Nazaré. Estilo bizantino, é o mais aproximável da verdade, no que possui de frívolo, de oriental, de amor à ostentação, fundindo-se com elementos clássicos greco-romanos. E luxo, muito luxo. Em prejuízo, tudo isso, das harmonias artísticas e do espírito místico de um templo católico.

O forro da basílica é trabalhado em madeiras paraenses, e seus desenhos são muito parecidos com os do forro da Basílica de São Paulo Extra-Muros. Púlpitos de mármore, altares de mármore (quanto mármore mais, em toda a igreja!), e piso de mármore. Três portas de bronze (feitas em Caxias do Sul), na entrada principal, expõem, com vitalidade clássica, cenas e invocações de Nossa Senhora de Nazaré.

A fachada adota solução das basílicas romanas, com adro sustentado por quatro colunas de granito róseo polido. Em cima, figuram vitrais e uma rosácea florentina.

Não deixe o turista de observar detidamente o tímpano, onde artistas venezianos criaram, em mosaico, a apoteose de Nossa Senhora de Nazaré no cenário amazônico: aparece o rio Amazonas, dominado pelo vulto da santa, no meio de florestas, índios, negros, mestiços, franciscanos e jesuítas. No lado direito, as figuras de Castelo Branco, fundador de Belém, de fidalgos portugueses, do primeiro bispo do Pará, dom Bartolomeu do Pilar, de um padre barnabita e — coisa original e um tanto extravagante — as figuras do governador do Pará e do prefeito de Belém, na época em que a basílica foi inaugurada, vestidos com roupas atuais.

De cada extremidade do tímpano surge um anjo de bronze, e, no meio, está a cruz mosaicada em ouro. Logo embaixo, destacam-se os brasões de Portugal, Brasil, Pará e Belém, motivo que também é repetido nas paredes da abside. As duas torres possuem cúpula sobre seis colunas, encimada por uma segunda cúpula. Nove sinos, — trabalho de artífices milaneses — identificam aos ouvidos belemenses o familiar chamado de Nossa Senhora de Nazaré.

O decreto do Vaticano, de 19 de julho de 1923, elevou o santuário da Virgem de Nazaré à categoria de basílica, isto é, de igreja principal, de acordo com as regras canônicas. Mas, basílica ela sempre foi de corpo e alma.


(Tocantins, Leandro. Santa Maria do Belém do Grão Pará. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1963, p.224-231)

Jangada Brasil © 1998-2002