
"Não há animal tão vivo, na Bahia, quanto o boi, que se faz presente
em todas as canções e folguedos populares." Este boi dá...,
de Edison Carneiro.
Segundo domingo de outubro, Círio
de Nazaré. A basílica de Nossa Senhora de Nazaré, por
Leandro Tocantins.
Festas
Populares no Tejuco, distrito diamantino, Minas Gerais, 1818, por Karl von Martius. |
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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
Não há animal tão vivo, na Bahia, quanto o boi, que se faz presente em todas as
canções e folguedos populares. A área geográfica do boi, no folclore baiano, inclui a
capital, o Recôncavo e parte do litoral ao sul da Cidade do Salvador. Essas zonas são
urbanas, agrícolas ou fabris, e não de criação de gado, e dependem do interior quanto
ao abastecimento de carne. Há, em conseqüência, uma valorização do boi, que explica a
sua freqüência nas diversões do povo.
O auto da morte e da ressurreição do boi se representa de modo menos complexo do que o
bumba-meu-boi do Nordeste ou o boi-bumbá do Norte. O boi Estrela, do Mar Grande
(Itaparica), o boi Maravia, de Santo Amaro, e o boi Treme-Terra, de Ilhéus, por exemplo,
trazem apenas o boi, o Vaqueiro, as pastoras e o Mestre, que dirige o coro, mas o rancho
de Ilhéus pôs em circulação uma nova figura, Turubibita, semelhante ao Babau do Recife
e a Bernunça de Santa Catarina. Parece, mesmo, que o auto se encontra, em toda a sua
simplicidade primitiva, na Bahia, já que o enredo não passa da morte e do testamento do
boi e da sua ressurreição, sem os incidentes que mascaram a representação, por
exemplo, em Pernambuco e no Pará. Em Ilhéus, centro produtor e exportador de cacau, o
boi Treme-Terra já não se distingue de um rancho qualquer a não ser pela presença do
animal.
Os candomblés de caboclo, que são uma etapa no processo de nacionalização das
religiões trazidas pelo negro, incorporaram à mitologia popular o encantado Boiadeiro,
criação relativamente recente, que diviniza a profissão de vaqueiro,
provavelmente uma conseqüência remota, mas certamente imprevista, da voga da literatura
regional. Este personagem, dos mais familiares à aldeia dos caboclos, traz um
chapelão de couro, um alforje e uma corda de laçar e pita cachimbo:
Eu sou Boiadeiro,
que vem da boiada
Eu sou Boiadeiro,
sou rei da chapada
Não somente o vaqueiro vem da chapada, como o terreno de pastagem, por ser um
planalto, é pedregoso e árido, lajedo ou iajeiro. E, invariavelmente, o
vaqueiro se mostra inquieto com o que possa acontecer ao gado, especialmente extravio e
roubo. Assim neste cântico com que se saúda o Boiadeiro à sua chegada à aldeia:
Quandeu vim de lá de cima
eu vim foi de pé no chão,
minhalpercata de couro,
chapéu de couro na mão
Estribilho
Caboco, que zoada é esta?
As água já vêm correndo
Meu boi tá esparramado
Você que anda fazendo?
Lá em cima passa boi,
também passa boiada
Assim passa meus caboco
ao rompê da madrugada
Pensa que cavalo é boi?
Cavalo não é boi não
Boi entra no açougue,
cavalo não entra não
Outras vezes, denunciando a influência de costumes sertanejos, o encantado se
desespera a procura da boiada
Cadê minha corda
de laçá meu boi?
Meu bom fugiu,
eu não sei pra onde foi
Abri-te, cancela,
que eu quero passá
Quero vê meu gado,
aonde ele está
Também nas sessões de caboclo, uma derivação dos candomblés com predominância das
normas espíritas, o boi torna apreensivo o Boiadeiro:
Aqui na boiada me fartum boi
Eu matei um, inda me farta dois
Vira lá, vira lá, vamo vê o que é...
Somente na capoeira de Angola não se encontra o boi. O caráter essencialmente urbano
desse jogo, diversão predileta dos "moleques de sinhá" nos tempos da
escravidão, talvez explique esta ausência. Já não se pode dizer o mesmo do batuque,
a forma local da pernada, que na Bahia não passa de um complemento da
capoeira. Das canções que consegui recolher na capital, nenhuma fala do boi, mas, na
zona canavieira do Recôncavo, o jogo se chama batuque-boi e um dos golpes tem o
nome de ferrão-no-boi. O batuqueiro, nessa região, está em constante contato com
o boi, utilizado como força motriz e animal de tração, e daí empregar, durante
a competição, expressões típicas da lida com o gado, como a exclamação êcô e
a zombaria coletiva levanta, boi, quando o batuqueiro dá com os fundilhos no
chão.
O boi comparece nos sambas de roda da capital e do Recôncavo, uma diversão rural em
processo de urbanização. Ao som de ganzá, pandeiro e prato, canta-se, no Mar Grande,
Vadeia meu boio, boião!
Vadeia meu boio do sertão!
enquanto, na Cidade do Salvador, o boi surge apenas no coro,
Oi, pisa na linha...
Levanta o boi!
denunciando reminiscências do auto, que esporadicamente volta a se representar, com o
Rancho do Boi, durante as janeiras.
Também nas emboladas do Recôncavo não é difícil encontrar o boi, seja sozinho, seja
através de peripécias naturais no trato com o gado, como neste exemplo do Mar Grande:
A onça pega no sarto,
a cobra pega no bote,
e o vaquero, pra sê bom,
tira a novia do lote
As cantigas populares não esqueceram o boi. Por volta de 1922 ou 1923, foi muito popular
uma dessas cantigas, que tinha como refrão um diálogo,
Este boi dá, muié!
Meu marido, tanjeste boi!
enquanto, em outra, previa-se o caso de extravio da rês, que, como vimos, é uma
preocupação permanente do vaqueiro, tal como o concebe a imaginação popular:
Se meu boi fugi,
eu conheço e vô pegá
Levo meus apareio
e minha corda de laçá
A conversação diária, na Bahia, reserva grande espaço ao boi. Ora representa o boi o
papel de escudo, com que as pessoas se defendem de insultos ou de insinuações
desagradáveis, como neste exemplo,
Atrevido!
Atrevido é o boi!
ora, quando a conversação se desenvolve em tom pilhérico, tem o boi o poder de fecundar
mulheres:
Você tá prenha?
Tou. Do boi da Penha.
Nada de extraordinário nesta constância do boi nas diversões locais, pois até as
crianças de peito são embaladas com a cantiga de ninar que diz:
Boi, boi, boi,
boi da cara preta,
pega este menino
que tem medo de careta
O pacífico ruminante venceu com facilidade o macaco, a onça e o cágado na preferência
das camadas populares da Bahia.
(CARNEIRO, Edison. A sabedoria popular.
Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1957.
Biblioteca de Divulgação Cultural, série A, XI, p.48-54) |
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