Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

"Tudo era diferente, diferente a alimentação, que não se comprava nos armazéns e quitandas, mas se recebia direto do campo..." Comidas e doces, por Renato Almeida.

O alimentos dos bororós, por A. Colbacchini e C. Albisetti.

O virado paulista, por Carlos Borges Schmidt

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


ALIMENTOS DOS BORORÓS

A. Colbacchini,  C. Albisetti


A alimentação dos orarimogo consta de carne de animais, peixes, frutas, sementes palmitos, tubérculos de várias plantas, mel, etc. Não fazem criação de animais domésticos para terem alimento, nem se dedicam à agricultura. Prevalece neste povo a vida nômade, facilitada pela riqueza da flora e pela fauna igualmente rica, tanto a terrestre, como a fluvial. É nômade, porque o sistemático e irrazoável desfrutamento dos dons naturais, esgota as fontes de alimentação na zona onde por algum tempo se estabeleceu uma aldeia. Esta é a principal causa que determina a mudança das povoações para outras regiões, além de serem impelidos a isso pelas estações. É provável que a lei do infanticídio tenha uma oculta razão no temor de que a densidade da população pudesse tornar insuficiente a natural reserva de alimento. É fato que a região ocupada por estes aborígenes era vastíssima. Tinha porém seus limites determinados pelo valor das tribos inimigas. Acresce ainda que o indígena não só se aproveita da caça e dos frutos, mas por onde passa elimina os animais e ao apanhar os frutos destrói as árvores que lhes dão tais alimentos. Não é difícil admitir-se que um povo que não é agricultor, nem pastor, que vive unicamente com os alimentos que lhe oferece a natureza, deve procurar evitar o excessivo aumento de população.

A comida é sempre preparada pela mulher. A carne de feras e pássaros é geralmente cozida n'água, dentro de panelas que eles chamam aría. Para mexer o alimento usam o kuiara, tabuinha em forma de espátula. Para tirar da panela a comida pronta, usam o iwar’apa, escumadeira que se assemelha a uma raquete de tênis com a rede feita de cordõezinhos. Raramente tostam a carne com espetos colocados perto do fogo.

Os peixes grandes são cortados em pedaços e aferventados; se pequenos, são cozidos sobre o kamo, ou envolvidos em folhas vegetais para serem depois colocados na cinza quente.

Utilizam o milho de vários modos: comem-no cru ou assado; outras vezes, depois de o assarem, moem-no com um pilão de pedra para fazer farinha; com esta preparam uma espécie de pão, cozido entre folhas, na cinza. Chamam a isto kuiadda amireu, se menores e redondos os pães; se grandes e compridos, são chamados kuidda toru. A mesma farinha, cozida com maior ou menor quantidade de água, dá um mingau que eles denominam genericamente "boe kugu", coisa líquida.

O milho tostado, as sementes do papori "cumbarú", do noíddo "uaguassú" (Attalea spectabilis) e de outras, são mastigados pelas mulheres que depois cospem num recipiente com água. Depois de fermentado e mexido o líquido está pronto para ser bebido: a este preparado chamam boe kugu.

Cozinham na cinza o broto central do oxe "ananás selvagem". Ferventam os tubérculos da batata (tadare), do cará Dioscorea spec.) e da mandioca (ju). Do motore "bocaiuva" (Acrocomia spec.) cozinham a parte carnuda que envolve o caroço e comem cru o conteúdo deste; da palmeira akó tiram a semente, de cuja farinha fazem um pão chamado akó toru. Algumas frutas são cozidas para servirem de alimento, e outras são boas mesmos cruas, como a mangaba (bato) "Hancornia speciosa".

Para que se não perca nenhuma das sementes, as mulheres enrolam o coco em palha de milho, quebrando-o depois com pedras.

Para tomarem caldo e outros alimentos não sólidos, usavam antigamente o attu, o atturebo kigareu, e hoje em dia imitam com barro cozido as nossas colheres.

Conservam a água fresca nos pori, moringas de barro cozido, não envernizadas. Gostam muito de um vinho de palmeira que obtêm pela fermentação de um líquido açucarado retirado mediante um processo especial do buriti (mariddo), acuri (appido) e do akó. Bebem os vários boe kugu que falamos acima. Tomam ainda água misturada com terra branca, chamada de noa kuru.

Quando têm alimento, comem continuamente. Um dia Ukeiwaguúo nos dizia:

- Vós, brancos, comeis quando o sol está lá, (com a mão indicava o levante), quando lá, (mostrava o zênite), quando lá (apontava o poente); nós ao contrário, comemos quando está, ali, ali, ali, ... – e com a mão determinava dez ou doze posições diferentes no céu.

Mas nem sempre é assim. Não raras vezes a caça e a pesca do homem são infrutuosas, como a colheita de frutas, da mulher. Suportam entre bocejos e suspiros, filosoficamente, a fome, ficando cabisbaixos e melancólicos. Ao contrário quando têm muito alimento, estão alegres, cantam e dançam. Enquanto comem, os homens não se deixam ver das mulheres e vice-versa. Marido e mulher usam do mesmo recipiente, porém virando de lado no ato de comer.

É assim a refeição familiar; há porém, as sociais. Nestas tomam parte somente os homens, no baimannagueggeu ou no meio da praça; dão-lhe um significado religioso. As mulheres são encarregadas de preparar a comida e a bebida e cada panela que chega é recebida com entusiástico urro, au!, sem que alguém se volte a olhar. Contam os bororós que antigamente conheciam o arroz (iro), as bananas (baco), a cana (tacu), plantas que se perderam, mas conservaram o nome. O mesmo aconteceu com a mandioca que encontrada novamente, talvez com os civilizados, chamaram com o antigo nome de .


Colbacchini, A.; Albisetti, C. Os bororós orientais, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942

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