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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
| A. Colbacchini, C. Albisetti |
A alimentação dos orarimogo consta de carne de animais, peixes, frutas, sementes
palmitos, tubérculos de várias plantas, mel, etc. Não fazem criação de animais
domésticos para terem alimento, nem se dedicam à agricultura. Prevalece neste povo a
vida nômade, facilitada pela riqueza da flora e pela fauna igualmente rica, tanto a
terrestre, como a fluvial. É nômade, porque o sistemático e irrazoável desfrutamento
dos dons naturais, esgota as fontes de alimentação na zona onde por algum tempo se
estabeleceu uma aldeia. Esta é a principal causa que determina a mudança das povoações
para outras regiões, além de serem impelidos a isso pelas estações. É provável que a
lei do infanticídio tenha uma oculta razão no temor de que a densidade da população
pudesse tornar insuficiente a natural reserva de alimento. É fato que a região ocupada
por estes aborígenes era vastíssima. Tinha porém seus limites determinados pelo valor
das tribos inimigas. Acresce ainda que o indígena não só se aproveita da caça e dos
frutos, mas por onde passa elimina os animais e ao apanhar os frutos destrói as árvores
que lhes dão tais alimentos. Não é difícil admitir-se que um povo que não é
agricultor, nem pastor, que vive unicamente com os alimentos que lhe oferece a natureza,
deve procurar evitar o excessivo aumento de população.
A comida é sempre preparada pela mulher. A carne de feras e pássaros é geralmente
cozida n'água, dentro de panelas que eles chamam aría. Para mexer o alimento usam
o kuiara, tabuinha em forma de espátula. Para tirar da panela a comida pronta,
usam o iwarapa, escumadeira que se assemelha a uma raquete de tênis com a
rede feita de cordõezinhos. Raramente tostam a carne com espetos colocados perto do fogo.
Os peixes grandes são cortados em pedaços e aferventados; se pequenos, são cozidos
sobre o kamo, ou envolvidos em folhas vegetais para serem depois colocados na cinza
quente.
Utilizam o milho de vários modos: comem-no cru ou assado; outras vezes, depois de o
assarem, moem-no com um pilão de pedra para fazer farinha; com esta preparam uma espécie
de pão, cozido entre folhas, na cinza. Chamam a isto kuiadda amireu, se menores e
redondos os pães; se grandes e compridos, são chamados kuidda toru. A mesma
farinha, cozida com maior ou menor quantidade de água, dá um mingau que eles denominam
genericamente "boe kugu", coisa líquida.
O milho tostado, as sementes do papori "cumbarú", do noíddo
"uaguassú" (Attalea spectabilis) e de outras, são mastigados pelas mulheres
que depois cospem num recipiente com água. Depois de fermentado e mexido o líquido está
pronto para ser bebido: a este preparado chamam boe kugu.
Cozinham na cinza o broto central do oxe "ananás selvagem".
Ferventam os tubérculos da batata (tadare), do cará Dioscorea spec.) e da
mandioca (ju). Do motore "bocaiuva" (Acrocomia spec.) cozinham a
parte carnuda que envolve o caroço e comem cru o conteúdo deste; da palmeira akó
tiram a semente, de cuja farinha fazem um pão chamado akó toru. Algumas frutas
são cozidas para servirem de alimento, e outras são boas mesmos cruas, como a mangaba (bato)
"Hancornia speciosa".
Para que se não perca nenhuma das sementes, as mulheres enrolam o coco em palha de milho,
quebrando-o depois com pedras.
Para tomarem caldo e outros alimentos não sólidos, usavam antigamente o attu, o atturebo
kigareu, e hoje em dia imitam com barro cozido as nossas colheres.
Conservam a água fresca nos pori, moringas de barro cozido, não envernizadas.
Gostam muito de um vinho de palmeira que obtêm pela fermentação de um líquido
açucarado retirado mediante um processo especial do buriti (mariddo), acuri (appido)
e do akó. Bebem os vários boe kugu que falamos acima. Tomam ainda água
misturada com terra branca, chamada de noa kuru.
Quando têm alimento, comem continuamente. Um dia Ukeiwaguúo nos dizia:
- Vós, brancos, comeis quando o sol está lá, (com a mão indicava o levante), quando
lá, (mostrava o zênite), quando lá (apontava o poente); nós ao contrário, comemos
quando está, ali, ali, ali, ... e com a mão determinava dez ou doze posições
diferentes no céu.
Mas nem sempre é assim. Não raras vezes a caça e a pesca do homem são infrutuosas,
como a colheita de frutas, da mulher. Suportam entre bocejos e suspiros, filosoficamente,
a fome, ficando cabisbaixos e melancólicos. Ao contrário quando têm muito alimento,
estão alegres, cantam e dançam. Enquanto comem, os homens não se deixam ver das
mulheres e vice-versa. Marido e mulher usam do mesmo recipiente, porém virando de lado no
ato de comer.
É assim a refeição familiar; há porém, as sociais. Nestas tomam parte somente os
homens, no baimannagueggeu ou no meio da praça; dão-lhe um significado religioso.
As mulheres são encarregadas de preparar a comida e a bebida e cada panela que chega é
recebida com entusiástico urro, au!, sem que alguém se volte a olhar. Contam os
bororós que antigamente conheciam o arroz (iro), as bananas (baco), a cana
(tacu), plantas que se perderam, mas conservaram o nome. O mesmo aconteceu com a
mandioca que encontrada novamente, talvez com os civilizados, chamaram com o antigo nome
de jú.
Colbacchini, A.; Albisetti, C. Os bororós orientais, São
Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942
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