Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

"Tudo era diferente, diferente a alimentação, que não se comprava nos armazéns e quitandas, mas se recebia direto do campo..." Comidas e doces, por Renato Almeida.

O alimentos dos bororós, por A. Colbacchini e C. Albisetti.

O virado paulista, por Carlos Borges Schmidt

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


COMIDAS E DOCES

Renato Almeida,
em Brasil Açucareiro, nº 2, agosto de 1968


Viver num engenho ou numa usina é muito diferente de viver na cidade do interior. Senti claramente, era garoto não podia explicar, mas hoje sei demarcar. Tudo era diferente, diferente a alimentação, que não se comprava nos armazéns e quitandas, mas se recebia direto do campo, diferente a criadagem, não era a que tínhamos na cidade, mas agregadas, antigas escravas ou suas filhas, que serviam; os pratos não eram como em nossas casas, mas feitos para muita gente, para quem chegasse à hora do almoço ou do jantar, onde a mesa estava sempre aberta. A vida se fazia no campo. De noite a meninada ouvia estórias da carochinha e havia uma ceia (jantar tinha sido às quatro horas) onde se comia aipim, milho cozido, bolos, cuscuz, pamonhas, bolachas e bolachões, em suma o que fosse da época, com mingaus ou amplas xícaras de café com leite. O melado — como gostava de fazer desenhos no prato com seus fios — e minha sobremesa constante, comido quase sempre com farinha, outras vezes com cará, inhame ou batata doce.

* * *

Outro doce que fascinou minha infância foi a cocada, e na Bahia são muitas e fabulosas. Desde a cocada-puxa, feita com açúcar mascavinho, com pedacinhos de coco soltos, até cocada branca, a cocada d’ovos, além dos doces de coco de compoteira, cada qual mais gostoso. E as variantes, como pé-de-moleque e outros com rapadura.

Uma das coisas que mais adorava em garoto eram os mingaus, que se comia antes do café. Não eram feitos em casa, mas vendidos pelas pretas, o de milho com um azedinho especial, o munguzá, que é de milho branco, se faz também em forma sólida e, em certas regiões, ouvi chamar de pindunca.

Muitos outros açúcares, inclusive os de beterraba, me adoçaram a boca, nas minhas andanças pelo mundo a fora. Afinal, tanto açúcar assim haveria de acabar me engordando. Então aí, tristeza! vieram os regimes alimentares. Era preciso excluir o açúcar da alimentação. Recusei todos os dietis, todas as suítas, todas essas drogas. E na velhice, não como mais doce e só bebo café amargo... mas que saudade do açúcar...


(Em Condé, José. A cana-de-açúcar na vida brasileira; textos coligidos. Rio de Janeiro, Instituto do Açúcar e do Álcool, 1971/1972. Coleção canavieira, 7, p.230-231)

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