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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
Renato Almeida,
em Brasil Açucareiro, nº 2, agosto de 1968 |
Viver num engenho ou numa usina é muito diferente de viver na cidade do interior. Senti
claramente, era garoto não podia explicar, mas hoje sei demarcar. Tudo era diferente,
diferente a alimentação, que não se comprava nos armazéns e quitandas, mas se recebia
direto do campo, diferente a criadagem, não era a que tínhamos na cidade, mas agregadas,
antigas escravas ou suas filhas, que serviam; os pratos não eram como em nossas casas,
mas feitos para muita gente, para quem chegasse à hora do almoço ou do jantar, onde a
mesa estava sempre aberta. A vida se fazia no campo. De noite a meninada ouvia estórias
da carochinha e havia uma ceia (jantar tinha sido às quatro horas) onde se comia aipim,
milho cozido, bolos, cuscuz, pamonhas, bolachas e bolachões, em suma o que fosse da
época, com mingaus ou amplas xícaras de café com leite. O melado como gostava de
fazer desenhos no prato com seus fios e minha sobremesa constante, comido quase
sempre com farinha, outras vezes com cará, inhame ou batata doce.
* * *Outro doce que fascinou minha infância foi a cocada, e na Bahia são muitas e
fabulosas. Desde a cocada-puxa, feita com açúcar mascavinho, com pedacinhos de coco
soltos, até cocada branca, a cocada dovos, além dos doces de coco de compoteira,
cada qual mais gostoso. E as variantes, como pé-de-moleque e outros com rapadura.
Uma das coisas que mais adorava em garoto eram os mingaus, que se comia antes do café.
Não eram feitos em casa, mas vendidos pelas pretas, o de milho com um azedinho especial,
o munguzá, que é de milho branco, se faz também em forma sólida e, em certas regiões,
ouvi chamar de pindunca.
Muitos outros açúcares, inclusive os de beterraba, me adoçaram a boca, nas minhas
andanças pelo mundo a fora. Afinal, tanto açúcar assim haveria de acabar me engordando.
Então aí, tristeza! vieram os regimes alimentares. Era preciso excluir o açúcar da
alimentação. Recusei todos os dietis, todas as suítas, todas essas drogas. E na
velhice, não como mais doce e só bebo café amargo... mas que saudade do açúcar...
(Em Condé, José. A cana-de-açúcar na vida
brasileira; textos coligidos. Rio de Janeiro, Instituto do Açúcar e do Álcool,
1971/1972. Coleção canavieira, 7, p.230-231) |
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