
Pra modi porco na
roça, dois poemas recolhidos por Orlando Torres no Triângulo Mineiro.
A
parte da galinha, ou O valor da galinha, fantasia popular,
registrada por Deda Carvalho.
"Jabuti
deu grande baile / Na noite de São João / Foi uma festa elegante / Que deixou
recordação" A festa do jabuti, de Pedro Tupinambá.
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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
A parte da galinha, ou O valor da galinha, é uma fantasia matuta que me parece
se enquadra no ciclo folclórico do Natal. Não apenas pela relação da galinha com o
tradicional arroz-de-natal, tão apetecível para os matutos. nas festas natalinas como
pela sua inclusão nas funções do bumba-meu-boi, como cena muito apreciada.
Perde-se nas dobras do tempo a origem dessa cantiga, alusiva a uma galinha disputada,
apaixonadamente, por um rico fazendeiro.
Ignora-se o motivo que levou o rico matuto a oferecer tão altos lanços por alguns
pedaços de uma simples "penosa", a ponto de, recusadas as ofertas em dinheiro e
objetos de certo valor, oferecer, em último lanço, sua própria filha, uma donzela.
A primeira vez que assisti à representação da "parte da galinha", foi num
"reisado". Data de muitos anos. Após a morte e destrinçamento ou
"partilha" do boi "janeiro", foi apresentada a cena da galinha.
Um dos "atores", representando o rico fazendeiro, canta versos propondo a compra
de alguns pedaços da imaginária galinha. Os demais "atores" ou
"figuras" respondem em coro. recusando o preço oferecido, até que um último
lanço é aceito, com alegria, pelo "dono da galinha".
Ao som do regional, cantam:
O fazendeiro, em solo:
Senhor dono da galinha
Quero lhe comprar o bico;
Pelo valor da galinha
Dou-lhe meu escravo Chico.
Coro:
Isto não me serve,
nem com isto me acontento
Pode o escravo fugir!
Bote a galinha pra dentro.
Fazendeiro:
Senhor dono da galinha,
Quero lhe comprar a crista;
Pelo valor da galinha
Dou minha calça de listra.
Coro:
Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
O rato rói a calça
Bote a galinha pra dentro!...
Fazendeiro: Senhor dono da galinha,
Quero comprar o pescoço:
Pelo valor da galinha
Dou-lhe a fazenda do Poço.
Coro:
Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
Vem a seca, acaba tudo!
Bote a galinha pra dentro!
Fazendeiro:
Senhor dono da galinha,
Quero lhe comprar as pena;
Pelo valor da galinha,
Dou minha vaca "serena"
Coro:
Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
Vem a cobra mata a vaca...
Bote a galinha pra dentro!
Fazendeiro:
Senhor dono da galinha,
Quero comprar a moela;
Pelo valor da galinha,
Dou meu cavalo de sela.
Coro:
Isto não me serve
Nem com isto me acontento
A onça come o cavalo!
Bote a galinha pra dentro!
Fazendeiro:
Senhor dono da galinha,
Quero lhe comprar os pés;
Pelo valor da galinha;
Dou-lhe um conto de réis.
Coro:
Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
Vou pra rua e gasto tudo...
Bote a galinha pra dentro!
Fazendeiro:
Senhor dono da galinha,
Quero comprar toda ela;
Pelo valor da galinha,
Dou minha filha donzela.
Coro:
Isto agora serve.
É valor de se estimá;
Tome conta da galinha...
Bote a donzela pra cá!...
(Carvalho, Deda. Brefaias e burundangas do
folclore sergipano. Aracaju, Livraria Regina, 1967, p.56-58) |
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