Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO

Pra modi porco na roça, dois poemas recolhidos por Orlando Torres no Triângulo Mineiro.

A parte da galinha, ou O valor da galinha, fantasia popular, registrada por Deda Carvalho.

"Jabuti deu grande baile / Na noite de São João / Foi uma festa elegante / Que deixou recordação" A festa do jabuti, de Pedro Tupinambá.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


"O VALOR DA GALINHA"

Deda Carvalho


A parte da galinha
, ou O valor da galinha, é uma fantasia matuta que me parece se enquadra no ciclo folclórico do Natal. Não apenas pela relação da galinha com o tradicional arroz-de-natal, tão apetecível para os matutos. nas festas natalinas como pela sua inclusão nas funções do bumba-meu-boi, como cena muito apreciada.

Perde-se nas dobras do tempo a origem dessa cantiga, alusiva a uma galinha disputada, apaixonadamente, por um rico fazendeiro.

Ignora-se o motivo que levou o rico matuto a oferecer tão altos lanços por alguns pedaços de uma simples "penosa", a ponto de, recusadas as ofertas em dinheiro e objetos de certo valor, oferecer, em último lanço, sua própria filha, uma donzela.

A primeira vez que assisti à representação da "parte da galinha", foi num "reisado". Data de muitos anos. Após a morte e destrinçamento ou "partilha" do boi "janeiro", foi apresentada a cena da galinha.

Um dos "atores", representando o rico fazendeiro, canta versos propondo a compra de alguns pedaços da imaginária galinha. Os demais "atores" ou "figuras" respondem em coro. recusando o preço oferecido, até que um último lanço é aceito, com alegria, pelo "dono da galinha".

Ao som do regional, cantam:

O fazendeiro, em solo:

— Senhor dono da galinha
Quero lhe comprar o bico;
Pelo valor da galinha
Dou-lhe meu escravo Chico.

Coro:
Isto não me serve,
nem com isto me acontento
Pode o escravo fugir!
Bote a galinha pra dentro.

Fazendeiro:
— Senhor dono da galinha,
Quero lhe comprar a crista;
Pelo valor da galinha
Dou minha calça de listra.

Coro:
— Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
O rato rói a calça
Bote a galinha pra dentro!...

Fazendeiro:

— Senhor dono da galinha,
Quero comprar o pescoço:
Pelo valor da galinha
Dou-lhe a fazenda do Poço.

Coro:
— Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
Vem a seca, acaba tudo!
Bote a galinha pra dentro!

Fazendeiro:
— Senhor dono da galinha,
Quero lhe comprar as pena;
Pelo valor da galinha,
Dou minha vaca "serena"

Coro:
— Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
Vem a cobra mata a vaca...
Bote a galinha pra dentro!

Fazendeiro:
— Senhor dono da galinha,
Quero comprar a moela;
Pelo valor da galinha,
Dou meu cavalo de sela.

Coro:
— Isto não me serve
Nem com isto me acontento
A onça come o cavalo!
Bote a galinha pra dentro!

Fazendeiro:
— Senhor dono da galinha,
Quero lhe comprar os pés;
Pelo valor da galinha;
Dou-lhe um conto de réis.

Coro:
— Isto não me serve,
Nem com isto me acontento
Vou pra rua e gasto tudo...
Bote a galinha pra dentro!

Fazendeiro:
— Senhor dono da galinha,
Quero comprar toda ela;
Pelo valor da galinha,
Dou minha filha donzela.

Coro:
— Isto agora serve.
É valor de se estimá;
Tome conta da galinha...
Bote a donzela pra cá!...


(Carvalho, Deda. Brefaias e burundangas do folclore sergipano. Aracaju, Livraria Regina, 1967, p.56-58)

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