
Pra modi porco na
roça, dois poemas recolhidos por Orlando Torres no Triângulo Mineiro.
A
parte da galinha, ou O valor da galinha, fantasia popular,
registrada por Deda Carvalho.
"Jabuti
deu grande baile / Na noite de São João / Foi uma festa elegante / Que deixou
recordação" A festa do jabuti, de Pedro Tupinambá.
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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
INa beira de Santa Gertrude,
A zueira esteve grossa:
Coo o João Pimenta e o Zé Rosa,
Prá modi porco na roça...
Zé Rosa sempre dizia:
"Meus porco tão-se acabando."
Os cachorro do Pimenta
Com eles tavam engordando...
Zé Rosa não acreditava
No que o povo dizia:
Que os cachorro do Pimenta
Matavam os porco e comia.
Zé Rosa contava os porco,
Todo dia tava faltando:
Os cachorro do Pimenta
Com esta tavam engordando.
O Zé Rosa desconfiou,
Houve quem tal dizia:
Que uns os cachorro matava,
Outros o Pimenta comia...
O Zé Rosa desceu lá,
Quando desceu foi no bão,
Coa garrucha na cintura,
Uma espingarda na mão.
Foi chegando e foi dizendo,
Meio louco do juízo:
"Sai pra fora João Pimenta,
Vem pagá meus prejuízo!
Foi chegando e foi dizendo:
"Juntou a fome coa sede."
Pôs a espingarda na cara
Torceu atrás da parede.
Saiu a muié do Pimenta,
Tava com medo medonho,
Coo seu filhinho no colo,
Parecia um Santo Antonho...
Tem paciência, "seu" Zé Rosa,
Ocê num mata o Joãzinho:
Lhe peço por amor de Deus,
Respeita ô menos este anjinho...
Zé Rosa se comoveu
Com este pedido tão forte:
"Ajoêia ao pé do teu fio
Foi quem te livrou da morte...
Ajoêia, torna a ajoêiá
Beija e torna a beijá:
Eu te peço João Pimenta,
Desterra deste logá...
12/09/1921
II
A mentira e a verdade
Acaba sempre com teima:
Vou contá o que assucedeu
Na fazendo dos Capanema.
Da fazenda do Barreiro,
Tenho. um causo pra contá:
João Migué e Zé Barbosa
Teve perto de se zunhá.
Principiaro por brincadeira,
Tivero questão tão grossa:
Isto foi assucedido,
Pra modi porco na roça
A muié do Zé Barbosa
Parece que tem preguiça:
Topou os porco na roça
Inda foi levá a notiça.
A muié do Zé Barbosa
Parece que não tem estudo:
Ela foi matá um leitão,
Matou o cachorro Veludo.
Zé Barbosa topou coele:
"Tenho um causo pra te contá:
Teus porcos tá lá na roça,
Acho bão vancê fechá."
João Migué coçou a cabeça:
"Eu sou um cabra sem jeito,
Amanhã tô na Tuiutaba
Pra tratá dos meus direito."
Ele saiu de madrugada
E chegou muito cedinho:
Perguntava a um e outro:
"Adonde mora o João Martinho?"
João Martinho é home brabo
De sangue corrê nas unha:
"João Migué, eu pego a causa
Cê me dando as testemunha."
João Migué gachou a cabeça
Parecendo home de bem:
"Testemunhas eu não dou,
João Martinho, porque não tem."
João Martinho arrespondeu
Com uma palavra tão boa:
"João Migué é home bobo
Importa com coisa atoa..."
(Em Torres, Orlando. Folclore do Triângulo Mineiro.
São Paulo, Editora Jornal dos Livros, 1955, p.38-41)
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