Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras

SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO

setaquad.gif (95 bytes)Adivinhas

setaquad.gif (95 bytes)As fitas, o Anjo Bom e o Anjo Mau

setaquad.gif (95 bytes)Novos travalinguas

setaquad.gif (95 bytes)Folclore dos gestos

setaquad.gif (95 bytes)Brinquedos de manja

ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

BRINQUEDOS DE MANJA

Mário Ipiranga Monteiro


Ilustração de Marcos JardimAs brincadeiras de esconde-esconde, comumente designadas no Amazonas por manja e manjolé, são demais conhecidas para serem referidas em seus pormenores técnicos. Todavia, a escolha daquele que vai ser a manja obedece a certos processos de seleção. Geralmente o maior do grupo, ou aquele que tem ascendência sobre os companheiros, vai escolher a manja. Começa por formular esta ou outra seleção, indigitando os parceiros:

Serra, serra, serrador
Quantas tábuas já serrou?
Uma, duas, três,
Quatro, cinco, seis
Sete, oito, nove, dez

A contagem faz-se até dez, eliminando-se o que tenha recebido este número, recomeçando outra vez. O último deverá ser a manja.

Outros temas seletivos, usados no brinquedo de manja, devem de existir, que o nosso inquérito porventura deixou de arrolar. Este que segue, por exemplo, se diz na manja a descoberto, pulando os brincantes de um para outro lado, desafiando a manja:

Manja, manja
Manjolé
Pode vir quando quisé

Os mais pitorescos, todavia, entre os versos seletivos, são estes, que eu na minha meninice desconheci e que agora meus filhos dizem, com outros garotos:

Jacaré foi ao mercado
Sem saber o que comprar
Comprou uma cadeira
Pra comadre se sentar
A comadre se sentou
A cadeira se quebrou
Jacaré ficou com pena
Do dinheiro que gastou

Esta e a seguinte anotei recentemente. Entre os brincantes figurava meu filho Maurílio, de sete anos de idade:

Sola e sapato
Rei e rainha
Foi ao mar
Buscar sardinha
Para o filho de Luís
Que está preso na marinha
Os cavalos a correr
As crianças a aprender
Para se esconder

A fórmula mais simples por mim recolhida do brinquedo de manja foi esta:

Vai te esconder, visconde!

Fico imaginando que vínculo existiria entre a brincadeira e a palavra visconde. Como é fértil a imaginação da garotada!

Tu-tu-ru-bim-té-tê
Tic-tac, cambarolas
Ter-me dentro
Ter-me fora

Fui ao botequim
Beber café
Encontrei um cachorrinho
De rabo em pé
Chupando picolé

Também nesse brinquedo de manja, informam os meus filhos, são utilizadas as fórmulas das cotas 7 e 8, execratórias.

Uma particularidade assaz interessante: nesses brincos é aplicado o célebre sabacu, ou seja, a recompensa ou o castigo para os que chegam atrasados ao poste (poste de iluminação pública, preferido pela malta garrula) ou barra de manja. O sabacu consiste em o atrasado voltar o traseiro para cima e receber geralmente três pancadas bem fortes nele. Também se utiliza o metal das grades dos quintais para a defesa. Aquele que tocar no metal fica isolado, livre da manja.

Uma outra fórmula, não muito comum, recolhida por mim, em Manaus, no ano de 1950, não deixa de ser interessante:

Fui no mato
Buscar capim
O capim
Cortou meu pé
Amarrei com fita verde
Cabelinho de José

A criança que está selecionando as demais para a manja, vai tocando as cabeças de todas e eliminando-as progressivamente a todas que correspondem com a palavra final.

Fui no mato
Cortar lenha
Santo Antônio me chamou
Quando o santo chama a gente
É sinal de pecador

Esta quadra está adaptada à brincadeira, mas é muito conhecida na literatura escrita e oral contemporânea.

Fui na lata de biscoito
Tirei um
Tirei dois
Tirei três
Etc., até dez

O número dez fica sendo a manja.

Sino, sino
Quem me tocar
Fica assassino
Colher de pau
Colher de ferro
Quemme tocar
Vai pro inferno (ou vira inferno)
Cão, cão
Quem me tocar
Fica ladrão


(Monteiro, Mário Ipiranga. "Brinquedos de manja". A Gazeta, São Paulo, 23 de julho de 1960)

 

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