Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras

SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO

setaquad.gif (95 bytes)Adivinhas

setaquad.gif (95 bytes)As fitas, o Anjo Bom e o Anjo Mau

setaquad.gif (95 bytes)Novos travalinguas

setaquad.gif (95 bytes)Folclore dos gestos

setaquad.gif (95 bytes)Brinquedos de manja

ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

FOLCLORE DOS GESTOS

Guilherme Santos Neves


Ilustração de Marcos JardimA par do folclore musical, lado a lado com o folclore oral que compreende a poesia popular, os provérbios, as adivinhas, o conto, a "estória, etc. — existe também o folclore dos gestos, não tão copioso como os outros, mas por igual, interessante e pitoresco.

Aqui, de ligeiro, vamos apontar duas ou três amostras que integram esse folclore gesticulado ou mímico. E a primeira delas, a que logo ocorre é a figa — velho gesto que consiste em colocar, com a mão fechada, o polegar sob e entre o indicador e o médio. O gesto tem significação sexual que só os psicanalistas entendem e proclamam. Hoje em dia, porém, a figa é tão inocente que não se ver qualquer maldade em colocar uma delas, como jóia, na camisinha do recém-nascido, e às vezes, no mesmo pregador onde figuram os santinhos de Nossa Senhora. O dedo em figa serve para "isolar", para conjurar mau-olhado, para evitar perigos, feitiços e pragas; para "cortar" as forças do mal que impedem, por exemplo, a boa sorte, o casamento, etc. Ao ver um padre, a solteirona muitas vezes faz figa. Ao ver uma pessoa "azarenta", faz figa para se proteger contra supostos malefícios.

E por falar em gente azarada, há outro gesto espontâneo, com que se julga cortar o caiporismo que tais pessoas transmitem: é o bater com os nós dos dedos numa porta, num pau ou madeira. Tal gesto "isolante" é feito, ou quando se vê o pobre diabo, ou quando, numa roda, se ouve pronunciar-lhe o nome.

Também serve para evitar certos males, inclusive o deslocamento dos queixais, a cruz digital que se costuma fazer diante da boca, no momento em que largo bocejo a entreabre ou distende.

Gustavo Barroso em breve nota acerca de "Adivinhas por gesto", focalizou em A Manhã, do Rio de Janeiro, um velho brinco infantil também corrente no Espírito Santo. Trata-se da adivinha dos dois caminhos (aqui não é uma adivinha): "Os meninos cruzam os dedos das duas mãos de modo que, voltando-as, mostram o lado das palmas inteiramente liso, enquanto o outro se eriça de dedos entrelaçados. Então (tal como aqui) perguntam aos outros qual dos dois caminhos preferem. É natural que os desavisados escolham o caminho mais fácil. — É o caminho do inferno, respondem-lhes. O outro, o espinhento, é o do céu.

Outro brinquedo infantil gesticulado, hoje em dia quase esquecido, é o pinhé. Reunem-se várias crianças, geralmente meninas. Uma delas estende a mão com a palma para baixo, e a outra, beliscando-lhe com o polegar e o indicador, as costas dessa mão, diz: "Pinhé!" A primeira criança, com a mão que lhe está livre, belisca a da outra, dizendo, igualmente, "pinhé!" A segunda criança faz o mesmo, com a mão que a belisca; a terceira procede do mesmo modo com a segunda; a quarta criança, da mesma forma e assim por diante, uma a uma, sem soltarem ou desfazerem o "beliscão". Depois que as meninas estiverem assim ligadas numa "pilha" de mãos, todas, rapidamente, balançando as mãos pra cima e pra baixo e beliscando-as com mais força, gritam numa só voz sonora e alta: pinhéééé! E soltam-se todas repentinamente.

Não sei o significado desse pinhé. Haverá qualquer ligação com o "pinhé", nome onomatopaico de certo gavião da avifauna paulista? Ou será derivado de "pinha" no velho sentido de aglomeração de coisas ou de pessoas muito juntas e unidas? Não sei. Também ignoro os propósitos do brinquedo. Sei apenas que era divertido e alegre...


(Neves, Guilherme Santos. "Folclore dos gestos". Vida Capixaba, Vitória, 2 de setembro de 1951)

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