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| CATAVENTO
- Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras;
brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de
escolha, mnemônicas... |
A par do folclore musical, lado a lado com o folclore oral que compreende a
poesia popular, os provérbios, as adivinhas, o conto, a "estória, etc.
existe também o folclore dos gestos, não tão copioso como os outros, mas por igual,
interessante e pitoresco.
Aqui, de ligeiro, vamos apontar duas ou três amostras que integram esse folclore
gesticulado ou mímico. E a primeira delas, a que logo ocorre é a figa velho gesto
que consiste em colocar, com a mão fechada, o polegar sob e entre o indicador e o médio.
O gesto tem significação sexual que só os psicanalistas entendem e proclamam. Hoje em
dia, porém, a figa é tão inocente que não se ver qualquer maldade em colocar uma
delas, como jóia, na camisinha do recém-nascido, e às vezes, no mesmo pregador onde
figuram os santinhos de Nossa Senhora. O dedo em figa serve para "isolar", para
conjurar mau-olhado, para evitar perigos, feitiços e pragas; para "cortar" as
forças do mal que impedem, por exemplo, a boa sorte, o casamento, etc. Ao ver um padre, a
solteirona muitas vezes faz figa. Ao ver uma pessoa "azarenta", faz figa para se
proteger contra supostos malefícios.
E por falar em gente azarada, há outro gesto espontâneo, com que se julga cortar o
caiporismo que tais pessoas transmitem: é o bater com os nós dos dedos numa porta, num
pau ou madeira. Tal gesto "isolante" é feito, ou quando se vê o pobre diabo,
ou quando, numa roda, se ouve pronunciar-lhe o nome.
Também serve para evitar certos males, inclusive o deslocamento dos queixais, a cruz
digital que se costuma fazer diante da boca, no momento em que largo bocejo a entreabre ou
distende.
Gustavo Barroso em breve nota acerca de "Adivinhas por gesto", focalizou em A
Manhã, do Rio de Janeiro, um velho brinco infantil também corrente no Espírito
Santo. Trata-se da adivinha dos dois caminhos (aqui não é uma adivinha): "Os
meninos cruzam os dedos das duas mãos de modo que, voltando-as, mostram o lado das palmas
inteiramente liso, enquanto o outro se eriça de dedos entrelaçados. Então (tal como
aqui) perguntam aos outros qual dos dois caminhos preferem. É natural que os desavisados
escolham o caminho mais fácil. É o caminho do inferno, respondem-lhes. O outro, o
espinhento, é o do céu.
Outro brinquedo infantil gesticulado, hoje em dia quase esquecido, é o pinhé. Reunem-se
várias crianças, geralmente meninas. Uma delas estende a mão com a palma para baixo, e
a outra, beliscando-lhe com o polegar e o indicador, as costas dessa mão, diz:
"Pinhé!" A primeira criança, com a mão que lhe está livre, belisca a da
outra, dizendo, igualmente, "pinhé!" A segunda criança faz o mesmo, com a mão
que a belisca; a terceira procede do mesmo modo com a segunda; a quarta criança, da mesma
forma e assim por diante, uma a uma, sem soltarem ou desfazerem o "beliscão".
Depois que as meninas estiverem assim ligadas numa "pilha" de mãos, todas,
rapidamente, balançando as mãos pra cima e pra baixo e beliscando-as com mais força,
gritam numa só voz sonora e alta: pinhéééé! E soltam-se todas repentinamente.
Não sei o significado desse pinhé. Haverá qualquer ligação com o "pinhé",
nome onomatopaico de certo gavião da avifauna paulista? Ou será derivado de
"pinha" no velho sentido de aglomeração de coisas ou de pessoas muito juntas e
unidas? Não sei. Também ignoro os propósitos do brinquedo. Sei apenas que era divertido
e alegre...
(Neves, Guilherme Santos. "Folclore dos
gestos". Vida Capixaba, Vitória, 2 de
setembro de 1951) |
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