Ano 5 - outubro  2002 - nº 50

Sua revista com a cara e a alma brasileiras

SUMÁRIO - EDIÇÃO 50
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO

setaquad.gif (95 bytes)Adivinhas

setaquad.gif (95 bytes)As fitas, o Anjo Bom e o Anjo Mau

setaquad.gif (95 bytes)Novos travalinguas

setaquad.gif (95 bytes)Folclore dos gestos

setaquad.gif (95 bytes)Brinquedos de manja

ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

NOVOS TRAVA-LÍNGUAS

Veríssimo de Melo


Ilustração de Marcos JardimNo artigo "Trava-línguas" publicado no Diário de Natal, de 24 de agosto de 1947, divulguei algumas dessas curiosas parlendas recolhidas por mim em Natal e cotejando-as com variantes nacionais e estrangeiras. Chamo trava-língua a um verso, palavra ou expressão, na maioria das vezes de pronunciamento difícil, e cuja repetição rápida provoca sempre a deturpação dos termos e conseqüentemente o seu sentido de origem.

Não há uma denominação estável para este tipo de parlenda. Amadeu Amaral e Alcides Bezerra denominavam-na simplesmente, trava-línguas. Outros autores, entretanto, preferem denominações diversas. Alexina de Magalhães Pinto estudou a parlenda sob o título de "Exercícios de dicção", Cecília Meireles preferiu chamá-las "Parlendas com obstáculos". Já Rodrigues de Carvalho chama "Problemas para desenferrujar a língua".

Há muitos tipos de trava-línguas, como já afirmamos. Podem ser em versos, como aquele do "bispo da Constantinopla", já registrado por nós no artigo anterior; em expressões, como vaca-preta, boi-pintado; ou palavras isoladas como "orelha", etc.

Ultimamente, tenho registrado alguns trava-línguas interessantes, que vão aqui como achegas ao nosso artigo anterior.

Deram-me este, em verso, por exemplo, que convém dizer com bastante cuidado, para não dizer besteira.

Pedro tem o peito preto,
O peito de Pedro é preto;
Quem disser que o peito de Pedro não é preto,
Tem o peito mais preto do que o peito de Pedro.

Lendo o belo Cancionero uruguayo, de Ildefonso Pereda Valdes, deparei-me com este bem esquisito, à página 164, nº 290:

"En el campo hay una cabra ética,
perlética, pelapelambrética, peluda, pelapelambruda.
Tiene los cabritos éticos pecléticos pelapelambréticos, etc.
"

O meu prezado amigo e ilustre confrade Domingos Vieira Filho, numa carta que me fez de São Luís do Maranhão, a 2 de setembro de 1947, comentando o artigo referido, escreve: "Aposto em como o amigo, não é capaz de dizer vezes seguidas a palavra "Jaime".

Capaz eu sou, como todos nós somos, porém nunca em presença de gente de fora...

Também em Natal, há um nome encrencado — Afonso — que deve ser dito várias vezes e depressa, com a boca cheia de farinha...

No artigo mencionado referi-me a este conhecido pelo Brasil inteiro: "Aranha arranha a jarra, a jarra arranha a aranha". Agora lendo um gozadíssimo folheto de feira, intitulado Peleja de Manoel Riachão Sobrinho com José Maneiro, encontro uma variante que o primeiro destes cantadores meteu num desafio, para embrulhar o adversário:

" – Galinha que cisca muito
Borra tudo e quebra o caco,
pois agora você diga
certo, sem fazer buraco,
"Aranha arranhando a jarra
e o sapo socando o saco".

José Maneiro, atrapalhado, não entendeu o trava-língua:

"- Pesso (sic) que diga outra vez
Para eu dar pela maranha,
porque não ouvi direito
Esse negócio de arranha
aí o povo da sala
disseram (sic): Maneiro apanha.

Riachão paciente, certo de enrascar o cabra, repete:

" – Não vá fazer palhaçada
arrumação de macaco
cuidado! Não erre o tema
é gancho pra quem é fraco
"aranha arranhando a jarra
e o sapo socando o saco".

E José Maneiro perdeu feio o desafio, com a resposta desconexa:

" – eu já peguei o seu tema
Botei ela no bizaco
Agora boto para fora
digo sem fazer buraco
" um sapo socando a jarra
aranha comendo o saco"...


(Melo de Veríssimo. "Novos trava-línguas")

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