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| CATAVENTO
- Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras;
brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de
escolha, mnemônicas... |
No artigo "Trava-línguas" publicado no Diário de Natal,
de 24 de agosto de 1947, divulguei algumas dessas curiosas parlendas recolhidas por mim em
Natal e cotejando-as com variantes nacionais e estrangeiras. Chamo trava-língua a um
verso, palavra ou expressão, na maioria das vezes de pronunciamento difícil, e cuja
repetição rápida provoca sempre a deturpação dos termos e conseqüentemente o seu
sentido de origem.
Não há uma denominação estável para este tipo de parlenda. Amadeu Amaral e Alcides
Bezerra denominavam-na simplesmente, trava-línguas. Outros autores, entretanto, preferem
denominações diversas. Alexina de Magalhães Pinto estudou a parlenda sob o título de
"Exercícios de dicção", Cecília Meireles preferiu chamá-las "Parlendas
com obstáculos". Já Rodrigues de Carvalho chama "Problemas para desenferrujar
a língua".
Há muitos tipos de trava-línguas, como já afirmamos. Podem ser em versos, como aquele
do "bispo da Constantinopla", já registrado por nós no artigo anterior; em
expressões, como vaca-preta, boi-pintado; ou palavras isoladas como "orelha",
etc.
Ultimamente, tenho registrado alguns trava-línguas interessantes, que vão aqui como
achegas ao nosso artigo anterior.
Deram-me este, em verso, por exemplo, que convém dizer com bastante cuidado, para não
dizer besteira.
Pedro tem o peito preto,
O peito de Pedro é preto;
Quem disser que o peito de Pedro não é preto,
Tem o peito mais preto do que o peito de Pedro.
Lendo o belo Cancionero uruguayo, de Ildefonso Pereda Valdes, deparei-me com este
bem esquisito, à página 164, nº 290:
"En el campo hay una cabra ética,
perlética, pelapelambrética, peluda, pelapelambruda.
Tiene los cabritos éticos pecléticos pelapelambréticos, etc."
O meu prezado amigo e ilustre confrade Domingos Vieira Filho, numa carta que me fez de
São Luís do Maranhão, a 2 de setembro de 1947, comentando o artigo referido, escreve:
"Aposto em como o amigo, não é capaz de dizer vezes seguidas a palavra
"Jaime".
Capaz eu sou, como todos nós somos, porém nunca em presença de gente de fora...
Também em Natal, há um nome encrencado Afonso que deve ser dito várias
vezes e depressa, com a boca cheia de farinha...
No artigo mencionado referi-me a este conhecido pelo Brasil inteiro: "Aranha arranha
a jarra, a jarra arranha a aranha". Agora lendo um gozadíssimo folheto de feira,
intitulado Peleja de Manoel Riachão Sobrinho com José Maneiro, encontro uma
variante que o primeiro destes cantadores meteu num desafio, para embrulhar o adversário:
" Galinha que cisca muito
Borra tudo e quebra o caco,
pois agora você diga
certo, sem fazer buraco,
"Aranha arranhando a jarra
e o sapo socando o saco".
José Maneiro, atrapalhado, não entendeu o trava-língua:
"- Pesso (sic) que diga outra vez
Para eu dar pela maranha,
porque não ouvi direito
Esse negócio de arranha
aí o povo da sala
disseram (sic): Maneiro apanha.
Riachão paciente, certo de enrascar o cabra, repete:
" Não vá fazer palhaçada
arrumação de macaco
cuidado! Não erre o tema
é gancho pra quem é fraco
"aranha arranhando a jarra
e o sapo socando o saco".
E José Maneiro perdeu feio o desafio, com a resposta desconexa:
" eu já peguei o seu tema
Botei ela no bizaco
Agora boto para fora
digo sem fazer buraco
" um sapo socando a jarra
aranha comendo o saco"...
(Melo de Veríssimo. "Novos
trava-línguas") |
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