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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

setaquad.gif (95 bytes)"O nome popular é cachorro, cão é nome letrado, de quem sabe ler." Cachorro e cão, por Luís da Câmara Cascudo

setaquad.gif (95 bytes)"Não há animal que tenha maior número de suspeitas que o gato." A tradição supersticiosa dos gatos, por Luís da Câmara Cascudo

setaquad.gif (95 bytes)A fauna, no sertão carioca em 1933, por Magalhães Corrêa

setaquad.gif (95 bytes)Latrinália

setaquad.gif (95 bytes)Calendário

setaquad.gif (95 bytes)Dito e feito

setaquad.gif (95 bytes)No estradão

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

setaquad.gif (95 bytes)Folkweb

Magalhães Corrêa

Os edentados ou desdentados são representados nessa zona pelo tamanduá, preguiça e tatu.

O tamanduá-bandeira (Myrmecophago jubata) é o grande, de pêlos muito longos e abundantes, pretos e brancos, caracterizando-se pela volumosa cauda que traz levantada, à guisa de bandeira; vive no chão pelos campos. O solitário Bernardino contou-me tê-lo encontrado duas vezes, e que ele desaparece enrustido (escondido) nos capões. O segundo, chamado tamanduá-mirim (Myrmecophago tetradactyla) ou tamanduá colete, é de estatura mediana, cauda lisa, que pode enrolar, servindo-se dela como fazem os gambás; seu colorido é em parte preto, tendo nas costas, partindo do pescoço, uma faixa branca em forma triangular, em parte amarelada; vive nos capões e capoeiras. Com as possantes garras da mão abre os formigueiros e cupins e para não gastar essas defesas, caminha com a mão virada para dentro. Come formiga, e para isso estira dois palmos de língua fina e roliça, que depois recolhe carregada desses insetos. As garras são ainda a única defesa desses verdadeiros desdentados, e um tamanduá irritado, quase de pé, rosnando e procurando abraçar o inimigo para lhe cravar as unhas no dorso, é um animal perigoso, e será difícil livrar-se do seu amplexo quem se deixar prender. Mas seus movimentos são vagarosos e, por isso, é facilmente exterminado o que deve ser proibido, visto ser animal tão inofensivo quanto útil. Tamanduá, do tupi ta-manduá, o caçador de formiga, a componente ta é como a forma contracta de tacy, a formiga.

A preguiça (Bradypus tridactylus), animal com três dedos na mão, passa a vida nas árvores e prefere as imbaúbas (Ceoropia), cujas folhas, e brotos mais apreciam. Seus movimentos vagarosos em extremo, mesmo perseguida, lhe dão o nome. Suas garras tem tal força que é impossível retirar delas qualquer objeto quando o segura.

O tatu, do tupi, ta-tú, o casco encorpado, couraça (Dasypus sexcintus) ou tatu peludo, o tatu — eté ou tatu galinha (Tatu novencinctus), o tatu pindoba e o tatu cacique que é muito pequeno são exclusivamente terrícolas, cavando galerias profundas, a fim de procurar alimentação e esconderijo, donde saem, à noite, para a caça dos formigueiros, larvas e vermes. A carne é muito apreciada principalmente do tatu galinha.

Entre os marsupiais, a gambá (Mephistis suffocans Goeldi), do gênero Didelphis, é um animal que possui uma bolsa na barriga onde carrega os filhos; gua-mba, barriga, oca, ventre aberto. Gosta de embebedar-se com aguardente desde que se apresente oportunidade daí o nome de gambá aos bêbedos. Ataca os galinheiros matando muito a criação. A gambá mãe carrega de cinco a oito filhos na bolsa marsupial; fora daí, são seguros na cauda.

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Nas valas, pântanos, lagoas de Camorim e Marapendi, a abundância de jacarés é notável; os conhecidos como jacarés-tinga ou verdes, de papo amarelo (c. latirotris), e não chegam a ter três metros de comprimento, muito indolentes.

Dos lagartos também existem inúmeros gêneros, sobressaindo o teiú, teju teiju (Tupinambás teguixin), do tupi ti-ú, o que come escondido, encontrado em todo Jacarepaguá. A carne da cauda, tanto do jacaré como do teiju, é muito apreciada pelos caçadores.

As cobras mais comuns são: as limpa campo (Dentrobius bifossatus), mussurana (Oxyropus cloelia), caçadora das cobras venenosas, a caninana (Spilotes) e a cobra d’água (Liophis); estas são inofensivas apesar da aparência agressiva que apresentam. As terríveis pelo poder de seu veneno são a jararacussu (Trigonocephalus atrox) e a jararaca (T. jararaca ou Lachesis lanceolatus), que abundam, principalmente, no morro do Cantagalo, em Ubaeté, onde em um hectare, já foram encontradas dezoito.

As aves dessa vasta região são notáveis, não só por serem próprias para a caça, como pelo canto e pela plumaria: jacus (Penelope Jacucaca Spix); inhambu-assu (Tinamus tao ou Glypturus absoletus); o inhambu-chororó (Grypturus parvirostris) e o inhambu-tirurim (Grypturus pileatus). As pombas são a do sertão, ou de bando ou parary (Zenaida auriculata); a cabocla (Oreopelia montana), que vive no chão, no mato, em lugares secos e mesmo perseguida voa para pousar no chão, novamente; anda aos casais e só empoleira para dormir; a trocal (Lepidoenas speciosa), a mais bela das nossas pombas; no inverno, busca a restinga e manguaes e no verão a serra; vive em bandos e nunca desce ao chão; a juriti (Peristera rufaxilla) e a rolinha (Chamaepelia minuta) preferem as clareiras e os sítios, vivem aos casais ou em bando. Todas estas aves são procuradíssimas pelos caçadores pela excelência de sua carne.

Entre as aquáticas, encontrei o pato do mato (Sarkidiornis carunculata) com noventa e dois a noventa e oito centímetros de envergadura das asas, de cor branca, conhecido por pato de crista; é uma das mais importantes espécies oriundas do nosso país, encontrada comumente ao longo da costa; a marrequinha (Anas puna) ou marreca de bico-vermelho; a irerê (Dendrocygua viduata) muito procuradas são também pelos caçadores. O sacó-boi (Trigri-soma lineatum Bood, ou Tigres brasiliensis); o carão (Aramus scolopaceus Gmelim), grande ave semelhante às pernaltas, de cor bruno-enegrecida, de longo bico e que habita as margens dos rios e regiões alagadas; sua voz melancólica dá-lhe o nome: cará-n... Outras aves aquáticas dessas paragens já mencionei, quando tratei da lagoa de Marapendi.

As que encantam pela voz, suavizando esse sertão, em harmônicos gorjeios, são: o sabiá-una (Merula ou T. flavipes), f. dos turdides; o seu canto corresponde ao do melro europeu; de cor pardacenta no corpo, com asas e caudas negras (çoo, animal, bia, agradável); o sabiá-laranjeira (Tardus rufiventris); o sabiá-poca ou do campo (Tardus crotopezus), que não canta e sim faz barulho e por isso o nome tupi de pocá; e o sabiá da praia ou sabiapiri (Minus ou T. lividus).

Na família dos Fringillideos, temos o coleirinha, coleiro virado, golão, coleiro do brejo (Spermoplula lineata); o avinhado de curió (Oryzoborus torridus); o canário da terra (Sycalis brasiliensis) chamado pelos tupis de Guiranhaeencatu, de cor amarela com penas pretas; o bicudo (Oryzoborus maximiliani) de bico grosso; o gaturamo (Euphone nigricollis), de magnífica plumagem, dorso violeta-escuro, barriga e peito violeta-escuro, barriga e peito alaranjado, ao passo que do cocuruto à nuca pompeia azul celeste, do tupi cotú-rama, boa ventura, bem será, alusão a que a ave recolhida em gaiola se torna excelente no cantar; pertence este pássaro à família dos tanagrideos; o pintassilgo (Chrysomitiris icterica) e o pichão-chão (Sparaphila superciliaris Pelz).

Os gritadores são: o bem-te-vi (Pitangus sulfuratus) família dos Tyrannideos, o maior inimigo do apicultor, pois são os maiores destruidores das abelhas; o pica-pau (Coroco morphus flavus); o cardeal (Paroaria cucullata); o papa-capim ou galo da serra (Coryphorringus pilcatus); o tico-tico real (G. cristatus) o tico-tico (Zonotrichia pileata); a tesoura (Milvulus tyrannus L.), a viuvinha (Arundinicola leucocenphala L.); o cagasebo (Serpophago subscristada); o joão-de-barro, pedreiro e oleiro (Furnarius rufus, F. badius) construtor de ninho de barro, verdadeira casa com alcova e ante sala; o curioso é que se a companheira se torna ;infiel ele a aprisiona, fechando a entrada do ninho com o mesmo barro; a araponga (Chasmarhynchus nudiocolis) família dos Cotingindeos, conhecida como ferreiro por imitar o som da marreta sobre o ferro na bigorna; o macho é cantador, de cor branca, com tons verdes na garganta e cara; entre os Psitacidae, periquitos tiria (Pyrrhura vittata Shaw), o tuim (Comurus tium) e o cu tapado (Psittacula passarina) o menor dentre eles; o sabiá-cica (Triclaria cyanogastra); no gênero Graydoescalus, a maitaca (Pionus maximiliani); o tucano de bico preto (Rhamphastus ariel V.); o araçari pocá (Selenidera maculiros).

As aves de bela plumagem são, na família dos Tanagrideos, as seguintes: os saís, amarelo, verde e azul (Colletis tricolor) cabeça verde, dorso preto e para trás cor de laranja, e o sobrecu verde como a barriga e o peito azul; a saíra (Colliste thoracica) linda ave de plumagem dorsal cinzenta, pescoço anterior amarelo de manchas negras, lado abdominal verde malachite, com o seu fino canto: pst, pst; o sanhaço (Tanagra cyanoptera) verde cinzento ou azulado; o tiê-piranga, sangue, ou fogo (Ramphococlus brasilis) vermelho cochonilha; o azulão (Guiraca cyanea), da família dos Trochilideos, há diversas espécies de beija-flor, de múltiplos tons metálicos de surpreendente efeito.

Entre as aves noturnas temos os curiangos, bacuraus (Caprimulgideos) e urutaus (Nyctibius aethereus Wied), de vozes melancólicas, que se ouvem no silêncio da noite, em seus vôos são rasteiros, nas estradas, pelo verão; as corujas (Strigideos-Speolito cunicularia) aves noturnas e supersticiosas para os sertanejos.

Entre a família dos Falconides, facilmente reconhecidos pelas suas características de ave de rapina, aparece o gavião caracará (Polyborus tharus, p. brasiliensis, p. vulgaris) que se alimenta de carrapatos, insetos e cocos, perseguidor dos pintos e devorador das cobras.

* * * *

Nas minhas excursões ao sertão carioca, foi o que pude anotar de sua fauna, já um tanto sacrificada, por falta de leis em vigor que protejam e regulamentem a caça e a pesca.

O prefeito Henrique Valadares muito se preocupou com o assunto, sendo de sua administração os decretos números 54, de 20 de novembro de 1893 e 56, de 24 de novembro desse mesmo ano; o primeiro proibia a caça, nas zonas marítimas e fluviais, com penalidade para os seus infratores; o segundo, proibia em todos os domínios do Distrito Federal o corte ou destruição, por qualquer modo realizada, das árvores denominadas mangue, dando outras providências, entre elas a respectiva penalidade para os devastadores.

Na administração do grande Pereira Passos, o decreto nº 1.045, de 14 de agosto de 1905, altera o decreto nº 60, de 25 de setembro de 1897, que regulamenta o exercício da caça no Distrito Federal. Permite o exercício da caça, fora da zona urbana, quinhentos metros dos povoados e estradas, nos meses de março a agosto, do nascer ao pôr-do-sol, com a respectiva licença da prefeitura, e para os infratores multa e prisão; essa lei tem nove artigos.

Sem código rural, florestal e leis que regulamentam a caça e a pesca no Distrito Federal, teremos, para breve, a terra carioca transformada em um deserto.

Nas matas da Tijuca, pertencentes à Inspetoria de Águas e Esgotos, caça-se noite e dia, sem nenhuma providência das autoridades competentes: da barra da Tijuca à Sernambetiba, nas matas do maciço da Pedra Branca e, principalmente, nos mananciais, onde se refugiam os remanescentes da nossa fauna, a perseguição é atroz.

Costuma-se comparar o Brasil com a África, em sentido pejorativo, mas lá no Camerum a defesa da natureza é um fato, há leis que são verdadeiros ensinamentos e nós nada possuímos a respeito.

Precisamos, pois, com urgência a regulamentação de tudo que diz respeito à nossa natureza inigualável:

a) a caça deverá ser regulamentada, tendo por fim defender a nossa fauna;

b) as licenças deverão ser dadas aos naturalistas oficiais e aos amadores somente válidas por um ano;

c) não deve ser permitida a caça nas matas dos nossos mananciais nem em nossas reservas biológicas e florestais, para refúgio e nidificação da nossa fauna;

d) deverá ser proibida a caça de animais ou aves tidas como úteis, destruidoras dos insetos e répteis nocivos, como, por exemplo, o tamanduá e o tatu, os saneadores de nossas terras, o primeiro como perseguidor da formiga e o segundo, do cupim;

e) deverá ser expressamente proibido matar as fêmeas acompanhadas de seus filhos, assim como os animais que ainda não tenham chegado ao pleno desenvolvimento;

f) a caça só deverá ser permitida nos meses de março a agosto, com severa penalidade. aos infratores;

g) deverão ser criadas reservas naturais integrais, constituídas em domínios nacionais intangíveis, de acordo com o Office International pour la protection de la nature, em suas legislações, pois o Brasil é um de seus signatários.

Toda a caça ou pesca, todas as explorações florestais, agrícolas ou mineiras, as escavações ou pesquisas, sondagens, desmontes ou construções, os trabalhos tendentes a modificar o aspecto do terreno ou da vegetação, todo ato de natureza a trazer perturbações à fauna, toda introdução de espécies zoológicas ou botânicas, quer sejam indígenas ou importadas, selvagens ou não, serão estritamente interditas sobre toda a extensão dos parques nacionais assim constituídos. E será proibido, sem autorização do administrador, penetrar, circular ou acampar nessas reservas, como introduzir armas de fogo, armadilhas e cães.

Esses parques nacionais criados no Camerum têm o fim de assegurar a conservação das espécies e vegetais, as particularidades geológicas, mineralógicas ou geográficas, conjunto que constitui o aspecto local do país, criados talvez para o interesse da ciência e para evitar o desaparecimento das riquezas naturais em detrimento dos interesses econômicos futuros.

Assim, senhores do poder, criai as nossas reservas ou parques nacionais, aproveitai as matas dos nossas mananciais, transformai a lagoa de Marapendi em reserva biológica da nossa fauna lacustre, como um viveiro permanente para a conservação das espécies, e assim teremos começado a verdadeira defesa da natureza.


(Corrêa, Magalhães. O sertão carioca. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v.167. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1936)

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