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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

setaquad.gif (95 bytes)"O nome popular é cachorro, cão é nome letrado, de quem sabe ler." Cachorro e cão, por Luís da Câmara Cascudo

setaquad.gif (95 bytes)"Não há animal que tenha maior número de suspeitas que o gato." A tradição supersticiosa dos gatos, por Luís da Câmara Cascudo

setaquad.gif (95 bytes)A fauna, no sertão carioca em 1933, por Magalhães Corrêa

setaquad.gif (95 bytes)Latrinália

setaquad.gif (95 bytes)Calendário

setaquad.gif (95 bytes)Dito e feito

setaquad.gif (95 bytes)No estradão

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

setaquad.gif (95 bytes)Folkweb


Luís da Câmara Cascudo

O nome popular é cachorro, cão é nome letrado, de quem sabe ler. Para o povo, cão é sinônimo de diabólico. Cão preto, cão sujo, cão coxo, cadelo é pouco usado. Perro não passou ao Brasil.

O português trouxe o cachorro para o Brasil no século XVI e depressa o indígena, especialmente o tupi, adotou-o como um dos favoritos, um cherimbabo querido, guardado nas malocas, companheiro inseparável. Para o Amazonas sua penetração foi lenta. Nas última décadas do século XIX ainda não alcançara as cabeceiras dos rios formadores do Xingu.

Curioso é que cachorro seja nome mais popular que cão. A denominação dada pelas tribos da península hispânica aos cães trazidos pelos iberos foi perro. Cachorro era de origem basca e seria usual então. Os romanos trouxeram o nome de cão (canis). Assim, cachorro é nome já tradicional da península ibérica uns mil e quinhentos anos antes da Era Cristã. E é o que resiste na preferência brasileira durante os últimos cinqüenta anos do século XX.

Para estudo de sua mitologia, basta Gubernatis [1] e para a evolução do nome, o assombroso Child [2]. Dos mais antigos depósitos do quaternário saem seus vestígios ao lado do homem. Domesticou-se no neolítico. Sem ele, o homem não seria pastor. É o mais antido exemplo de domesticação útil.

Todos nós o chamamos o auau, onomatopéia do latido. Era seu nome entre os egípcios. Numa das estórias populares, a do Príncipe predestinado, Maspero, Pierrot, Loret [3] encontram o hieroglifo auo ou au e sua duplicação, auau, significando o cão. Esse conto descobrira-o Goodwin no dorso do papiro Harria 500, da época de Ramsés II, 1300-1234 A.C. Divulgou-o Jorge Ebers.

Child escreve: "Le terme aou devait trés vraisemblablement désigner le chien en général, quand on ne voulait pas faire mention du type particulier de l’animal: le caractére onomatopaique du mot, qui est celuí qu’emploient naturellemens les enfants, dénonce sa trés haute antiquité".

Esse aou cria no copia o ouhr, cão, o ur sumeriano, o uru assírio, o gur hebraico, o ur basco, com a natural intercorrência onomatopaica do rrrrrrr, sugerindo o rosnado do animal. Ainda o repetimos nós. Rebelais, no prólogo do III do Pantagruel, usa o grr, grrr, grr! contra os teólogos da Sorbone (1546).

Ainda emocional é que o vocábulo valendo o cão, ur, vale guardar e defender, dando a idéia de vila, fortificação, muralha. O cão continua com essa missão vigilante e Homero (Odisséia, VII), coloca dois cães de ouro e prata, forjados por Vulcano, à porta hospitaleira do palácio de Alcino.

Não vamos recordar os cemitérios de cães no Egito, em Siut, Shélk-Fadi, Feshu, Saqqarah e Tebas. Nem Anubis e Uapualtou, deuses de cabeça canina. Nem as múmias de cães, cilíndricas, com a máscara e dizeres de louvor. Os museus europeus estão cheios dessas coleções que o turista olha e passa.

Na Índia e entre os muçulmanos o cão é animal imundo, poluindo pelo contato qualquer objeto consagrado [4]. Na Índia, esse conceito do cão deve ser posterior ao Mahabarata, onde o rei Iudístira recusa subir ao céu no carro luminoso de Indra porque o cão não o podia acompanhar (livro X).

Em Roma era insulto o nome de cão, como chamou ao filósofo Demetrius o imperador Vespasiano, "canem appelare" (Suetonio, Vespasiano, XIII), e assim mimoseou o esposo Trimalchion sua doce Fortunata, "Ultimo etiam adjecit: Canis!" (Petronio, Satyricon, LXXIV).

Heli Chatelain, habituado com a tradição heróica do cão na Europa, surpreendeu-se com o cão africano, símbolo da sordidez, covardia e servilismo. "...But the dog, on the contrary, personifies all that is mean, servile, and despicable" (Folktales of Angola, 22).

Não encontro na sinonímia peninsular portuguesa do satanás o cão. Em Angola e na maioria dos idiomas bantu onde o português se projetou, a palavra fascinante para o negro insultar o companheiro foi sempre diabo, mais no sentido de feitiço do que de perversidade espontânea. Teria vindo pelos africanos arabizados?Há nos Açores o cão negro e cão tinhoso valendo demônio. Os açorianos vieram para o Brasil em maior quantidade na primeira metade do século XVIII, com os casais para o sul. Emigrou o cão-demônio com eles também.

De onde nasceria sua aristocratização no conceito popular, o cão valente, dedicado, fiel? Nas fábulas de Esopo e de Fedro, o cão não tem papel simpático nem nobre. Reaparecem vários episódios de sua avidez, correntes do Calila e Dinna e no Katha Sarit Sagara. Esopo acha-os "descontentes e irascíveis". No Roman de Renart, o cão aparece sem maior brilho na corte de Noble, o leão, mas se distancia das artimanhas e velhacarias da raposa invencível. Creio que a Idade Média, com as caçadas fidalgas, com a indispensabilidade do cão, elevou-o a companheiro nas proezas cinegéticas e nas guerras ao infiel.

Quando ele uiva, está chamando a desgraça e o contraveneno verbal é dizer-se: "Todo agouro para cima do teu couro". Ou emborca-se um sapato, virando-se a palmilha para cima. O cão calar-se-á. Cavando na porta da casa, abre a sepultura para o dono. Abrindo buraco com o focinho, está com a mesma profecia. Mas se cava com o focinho voltado para fora, anuncia dinheiro. Dormindo de barriga para cima, agouro. Deitado com as pernas dianteiras cruzadas, bom agouro. Rodando sem parar pela casa, está afugentando o diabo. Dormindo e ganindo, está sonhando. Urinando na porta, prognóstico feliz. Uiva sem razão porque vê as almas do outro mundo ou a aproximação da morte. Eram os cães sacrificados a Hécate e avisavam sua presença invisível no uivo terrível e uivavam vendo os deuses, os lemures, as sombras dos mortos (Ovídio, Fastos, I, 389; Horácio, Epodos, V). O cachorro pesunho (com um dedo suplementar) vê perfeitamente o lobisomem e o persegue furiosamente.

Para não crescer, pesa-se com sal. Para não fugir, enterra-se a ponta da cauda debaixo da casa, ou, nas fazendas de gado, no mourão da porteira. Erguendo-o pelas orelhas, fica mofino (covarde). Para livrá-lo da hidrofobia, deve ter nome de peixe. Puxando-o pela cauda, tornam o cachorro ladrão ou fujão. Para não ter tosse, sabugo de milho ao pescoço. Com a orelha cortada na sexta-feira da Paixão jamais terá hidrofobia. Quem sofre de pesadelo deve fazer um cão ficar debaixo da cama. Perde o faro se passarem uma bolinha de sebo na ponta da cauda e dá-la a comer. Readquire o faro, esfregando-lhe no focinho sangue de veado ou de tatu. Quem maltrata ou mata um cão deve uma alma a São Lázaro ou a São Roque.

NOTAS

1. Angelo de Gubernatis. Zoological Mythology, II, "The dog", VI. Nova Iorque, Mac-millan & Co. / Londres, Trubner & Co., 1872

2. A. Child. "Etude Philologique sur les noms du Chien de L’Atiquité Jusqu’a nos Jours". Arquivos do Museu Nacional, v.39. Rio de Janeiro, 1940
___ "Cantos y cuentos del Antiguo Egipto". Revista del Occidente. Madri, 1889

3. G. Maspero. Les contes populaires de l’Egypte Ancienne. Paris, 1889

4. O bramane e os três ladrões. Fanchatantra, III, S. Calila e Dimna, VI; Hitopadésa, IV


(Cascudo, Luís da Câmara. "Cachorro e cão". O Estado de São Paulo, São Paulo, 4 de maio de 1958)

 

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Luís da Câmara Cascudo

Quem mata um gato tem sete anos de azar. Solteiro que pisar o rabo de um gato, não casa. Gato preto é agouro ou é felicidade. Gato transmite asma. Gato engasgado anuncia fome. Gato tem sete fôlegos. Não há animal que tenha maior número de suspeitas que o gato, companheiro amável ou hóspede intruso e detestado, o mais elogiado dos animais, tendo uma Histoire des chats (1727), de Paradis de Moncrif, da Academia Francesa, pintado pelos mestres, esculpido pelos grandes, imóvel em porcelana, marfim, ouro e prata. Um poeta brasileiro, Félix Pacheco, compendiou muita notícia literária no seu delicioso Baudelaire e os gatos (Rio, 1934).

O povo não é muito amigo dos gatos e sim de sua utilidade venatória aos ratos. O gato é senhorial, egoísta, esquivo, traiçoeiro, desdenhoso. Mas é elegante, nervoso, magnético, incomparável nos gestos lentos, no espreguiçamento de odalisca nervosa, nas graças sucessivas das atitudes originais e aristocráticas. Parece sempre superior ao dono da casa.

O brasileiro recebeu o gato do colonizador português e com ele as superstições. O português também ama e teme ao gato e se diverte pondo-o num pote para partir às cacetadas ou pendura-o num alto de poste, numa vasilha, sobre a crepitante fogueira em tardes festivas. Nós temos ambos os divertimentos. Do Oriente recebeu o português o respeito vagamente tenebroso ao gato. Veio com os orientais que se fixaram na península tantos séculos.

(Cascudo, Luís da Câmara. "A tradição supersticiosa do gato", 1948)
Na maioria dessas religiões semitas, o gato é venerado ou expulso. Não há meio termo. No Egito era uma espécie divina cujo fundador era o deus Elerus. No Baixo Egito havia a deusa Bast, em Bubastis, com a cabeça de gato. Em Tebas era a "dama do céu". Na luta sideral contra a monstruosa serpente Apopi, o gato vencera à força de unhadas. Foram descobertos nas escavações e encontramos nos museus, centenas de múmias de gatos e suas figuras em bronze, madeira dourada, com os olhos de esmalte. São milhões de exemplares. Na orla da África setentrional, o gato é respeitado. No Egito, era dominador. Quem matasse um gato era imediatamente condenado à morte e executado sem remissão. O poder onipotente do faraó não podia excluir do sacrifício quem cometesse esse sacrilégio. Valia por muitas vidas de cidadãos. Na hora de um ataque inimigo ou de um incêndio, o primeiro objeto salvado era o gato e assim mesmo quando permitia que alguém o salvasse. Animal divino, tinha direito ao embalsamamento ritual. Em Beni-Hassan há inúmeros hipogeus dedicados aos gatos. Aí dormem eles há muitos séculos, nas caixas de cartão dourado, como príncipes.

As tradições supersticiosas dos gatos vêm desse Oriente. Vale muitas vidas e dizem que sete, número cabalístico. Castiga sete anos quem lhe tira a vida. Não permite o casamento, desejo lógico de rapazes e moças, a quem o fez sofrer pisando a cauda. Alimentado fartamente nos templos, o gato entende que devemos sustentá-lo como seus avós longínquos em Bubastis, Assíria e Babilônia. Não dá muita aproximação pela reminiscência do divino protocolo que o afastava dos fiéis e de suas intimidades dispensáveis a um filho do divino Elerus, vivo na imagem de Bast...

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