Outubro
2001
Ano III - nº 38 |
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PREVISÕES
FOLCLÓRICAS DAS SECAS E
DOS INVERNOS NO NORDESTE BRASILEIRO |
(Excerto de artigo publicado
na Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, 66: 253-268)
Ainda de todo não termina o inverno e já o sertanejo se preocupa de fazer experiências
que possam algo revelar sobre o próximo ano. Assim, as primeiras experiências são
feitas em junho e se relacionam com São João e São Pedro. Diz-se que se no dia 23 ou 24
de junho, véspera ou dia de São João, cair um serenozinho ou pintar chuva durante o
dia, o inverno do ano seguinte será bom. Afirma-se, outrossim, que se, à noite, cair
chuva que apague a fogueira de São João, não faltará inverno, igualmente, no próximo
ano. Veríssimo de Melo ("Chuva na tradição popular", Sociologia,
março de 1951) anota esta experiência colhida por mim da boca de um rurícola do
município de Santa Quitéria. Contou-me Abílio Pinheiro da Silva, morador na propriedade
Riacho Verde, no município de Itatira, que na véspera do dia de São João, no lugar em
que for feita a fogueira, previamente se enterra unia garrafa cheia de água. Neste
sítio, então, se levanta a fogueira. No dia seguinte, extinta a mesma, se a garrafa
conservar-se ainda cheia, haverá bom inverno. Se estiver inteiramente vazia, será uma
"seca". Se nela existir bastante água, Sinal é de inverno regular. Se, porém,
houver muito pouca, conta-se com um inverno escasso. O dia de São Pedro também serve de
experiência. Em fins de 1949 dizia-me Francisco Anastácio Costa, morador na fazenda Feijão,
no município de Canindé, que, quando no dia 29 de junho, dia de São Pedro, pinta chuva,
o inverno vindouro é de boas águas. Acrescentou-me, ainda, que, naquele ano, tal dia foi
muito bonito, prometendo até rio cheio, por isso fez bons roçados e estava confiante que
o ano de 1950 seria um ano de muito bom inverno. E foi.
A inconstância das chuvas, o temor das secas e a ausência de órgão previsor do
tempo geram, pois, no espírito atribulado do sertanejo, grande inquietação, tanto maior
quanto mais se aproxima a época das precipitações pluviais. Nesta conjuntura, a seu
modo, entra o sertanejo a interpretar os fatos da natureza e a fazer previsões empíricas
do tempo.
Há um provérbio que diz: "De chuva e eleição não se faz previsão".
Todavia, como afirma J. de Figueiredo Filho: "Todo mundo é profeta no Ceará e no
Nordeste. Como são muitos os adivinhos, alguém há de acertar, assim como se tira
dinheiro em jogo do bicho ou na roleta do jaburu". Aliás, os sertanejos mais antigos
e aqueles que fazem alguma leitura, emitem suas profecias arrimados em interpretações do
Lunário perpétuo que, segundo Felipe Guerra, em Secas contra a seca, "tem
para muitos sertanejos ainda a força das Escrituras Sagradas".
As previsões populares do tempo não são privativas do Nordeste brasileiro. Os hindus
acreditam que quando as cobras dançam vai chover. Conta Brewton Berry que "Os
caçadores de Bornéu observam as Plêiades e determinam o tempo para preparar a terra
para a plantação". Informa Georg Buschan que "O cuco passa por anunciar e
trazer a chuva, sobretudo quando seu canto é ouvido próximo das habitações".
Franz Eaur, por sua vez, narra que na Alemanha "O desejo de poder prever o tempo é
quase tão antigo como a própria humanidade, porque o tempo é para muitos ramos da
atividade humana, principalmente para os que cuidam da alimentação do homem, de grande
importância. Da observação do vento e das nuvens, ou da orientação dos animais e da
transmissão verbal de resultados de observações, de geração para geração,
formaram-se vagamente determinadas regras de tempo que se conservam, em parte, até
hoje".
Refere Yves DEvreux que, entre os testes a que se submetia um índio a fim de ser
guindado à categoria de pajé, figurava curar os doentes com sopro e prenunciar chuva.
O nordestino, mercê do insulamento do meio físico em que vive e por força da natureza
de sua personalidade anímica, tão mestiça quanto na sua constituição física",
como preceitua Alcântara Machado em Vida e morte do bandeirante, não podia menos
de tomar o mesmo rumo. Daí a sua postura perscrutadora em face do tempo e das coisas.
Observa a posição das constelações, o movimento dos astros, o círculo da lua, a forma
das nuvens e não deixa de reparar nas condições do acaso nem nas circunstâncias
personalíssimas em que nasce o sol em determinados dias. O canto dos pássaros, a atitude
dos insetos, a conduta dos animais e o comportamento das árvores, outros tantos elementos
são de que se socorrem os sertanejos para tirar conclusões sobre se, no próximo ano,
haverá seca ou inverno. E tudo isto além de enriquecer o nosso variado folclore,
constitui um corpo de doutrina, um código de sabedoria popular com que se procura deitar
luz sobre o futuro.
Ademar Vidal, percuciente conhecedor da alma sertaneja, animado; talvez, do conceito de
Brewton Berry de que "A natureza tem por esporte anunciar, generosamente, as suas
intenções", empresta excepcional valor às previsões populares do tempo, ao
afirmar que "o sertanejo é mestre no assunto, não erra, não se equivoca - fala de
certeza".
E, na verdade, para os sertanejos tais experiências valem mais que toda a ciência
experimental dos doutores, porque são tradições orais que vêm de outras eras, legadas
por seus maiores, homens bem experimentados neste mister. Daí a fé inviscerada que nelas
depositam e que lhes mantém o tônus da esperança cheio de vitalidade. Quando alguém,
em base científica, se aventura a predizer se o ano futuro é seco ou molhado, o caboclo
sertanejo costuma ironizá-lo dizendo que "Profecia de doutor não vale pra nada:
quando diz que vem chuva é seca e quando pensa em seca o que aparece é
inverno grande." No entender dos sertanejos, ninguém melhor do que eles conhece os
problemas de sua região porque nela vivem e observam.
Alguns desses profetas, adivinhadores da seca e inverno, são discretos e
reservados nas suas afirmações. Outros, porém, apresentam-se jactanciosos e não perdem
oportunidade de fazer praça de suas previsões. Destes, o povo não perdoa os erros. A
propósito, conta Luís Vieira que certo indivíduo assegurara que em tal ano as terras do
Nordeste seriam assoladas de terrível seca. Como se não verificara tal previsão,
o impostor quase fora linchado pelo povo. Conheço outro caso de certo profeta que,
havendo vaticinado seca para 1950 e se não tendo vingado a sua predição, pois
1950 foi ano de bom inverno, algumas pessoas pretenderam dar-lhe um banho na corrente
tumultuosa de um rio transbordante, "Pra não sê besta, pois, só Deus sabe quando
vem chuva", diziam.
Releva notar, entretanto, que, incontestavelmente, muitas pessoas possuem aguçada
sensibilidade de observação e se algumas destas observações ou experiências são
destituídas de fundamento e bom senso, outras, todavia, não deixam de basear-se em
razões que farte plausíveis. "Indivíduos incultos, comenta Felix Renault,
testemunham, às vezes, espírito de observação que muitas vezes os sábios não
possuem".
Muitas pessoas do município de Canindé informam que quando o ano é bom gosta de pintar
chuva, antecipadamente, do dia 3 para o dia 4 de outubro, dia de São Francisco. Mas esta
observação não é exclusiva de Canindé. É, igualmente, feita em Mombaça. Assim é
que Serafim Pedrosa de Lima afirma que quando há manifestação de chuva no dia 3 de
outubro é bom sinal de inverno. Relâmpagos nos dias 7 e 8 de dezembro, véspera e dia da
Conceição, significam ótimo prenúncio de bom e próximo inverno. Os sertanejos
observam muito este sinal, que Felipe Guerra colheu no Rio Grande do Norte e consignou em Secas
contra a seca. O dia 13 de dezembro não se passa sem se fazer a experiência de Santa
Luzia. Sobre uma superfície lisa qualquer, exposta ao sereno da noite, depõem-se seis
pequenas pedras de sal que representam, designadamente, os seis primeiros meses do ano. Na
manhã seguinte o maior ou menor grau de umidade de cada pedra responde à maior ou menor
intensidade de chuva no mês que ela representa. A este respeito regista Felipe Guerra um
fato cômico. "Contam que um gaiato, vendo uma velha colocar as pedrinhas em certo
lugar, foi, às ocultas, e deitou uma gota dágua em cada pedra. Pela madrugada a velha
ficou aterrorizada e alarmada ante a Perspectiva de seis meses de inundações". Às
seis horas da manhã do dia dois de fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias,
costuma-se fazer uma pequena fogueira com fragmentos de madeira, a qual se não deixa
enchamejar. Se a fumaça subir verticalmente é inverno ruim. Se, ao contrário, a fumaça
espalhar-se rasteira, multo baixa, preconício é de bom inverno. A barra de nuvens com
que se apresenta o amanhecer dos dias de Natal e Ano Bom traz, muita vez, indícios de
inverno promissor.
Se, ao serem partidas as hóstias, nas missas do Galo e Ano-Bom, dão elas um estalido
crepitante, conclui-se em desfavor do ano; se, ao contrário, emitem som surdo, significa
sinal de bom inverno. Disse-me um velho sertanejo, residente no município de Patos, que
nunca deixa de assistir às missas do Galo e Ano-Bom e ajoelha-se sempre perto do padre, a
fim de escutar o estalo da hóstia consagrada. Acrescenta que é uma experiência dos seus
avós que não falha. Um jovem português, residente em Fortaleza, informou-me que, nas
zonas rurais de Portugal, os camponeses têm muito em conta esta experiência em certas
previsões do tempo e se baseiam no estado higrométrico do ar. Se o estalo da hóstia é
surdo é porque o tempo está úmido e prenuncia chuva. Se, ao revés, é crepitante,
significa secura do ar, por conseguinte, falta de chuva. Abelardo Parreiras, a respeito
desta experiência, faz, em Sertanejos e cangaceiros, o seguinte comentário:
"A experiência mater é sem dúvida esta. Consiste no seguinte: geralmente, nas
capelas distanciadas do sertão, costumam os camponeses muito se esforçarem pela
celebração desta solenidade. Da vizinhança de muitas capelas, existentes no interior
dos lugarejos, acorre uma verdadeira multidão que se espraia ao longo das pequenas
praças fronteiriças às capelinhas do sertão. Precisamente à meia-noite o sacerdote
inicia a missa. Sucede que, às vezes, ou a temperatura ambiente é de calor sufocante, ou
se torna amenizada pela aproximação dos ventos alísios, portadores de chuvas. Se, na
primeira hipótese (calor), a fração da partícula no altar dá um pequeno estalido e
logo os circunstantes, apreensivos, retiram-se na convicção de "seca"; se,
porém, na segunda hipótese (ventos alísios), a fração litúrgica não produz estalido
e, imediatamente, inundam-se os ânimos de alvissareiras esperanças de abundantes
chuvas".
Contava o velho José de Barros, morador no sítio Petrópolis, próximo a Mulungu,
na serra de Baturité, que, se durante a festa de São Sebastião, celebrada naquela vila,
de 10 a 20 de janeiro, os balões soltados à noite, depois da novena, se dirigiam para o
lado do poente ou sertão, o inverno seria escasso. Se, porém, rumavam para o lado do
nascente, podia-se contar com bom inverno.
Para o dia de São José, 19 de março, que é sempre precedido de novenário e promessas,
já meio desconfiados, convergem os sertanejos as suas últimas esperanças sobre o
inverno do ano corrente. Se não chover até este dia, está decretada a seca. O
dia 19 de março, naturalmente, pode apresentar modificações atmosféricas com indícios
de chuva, mercê da influência equinocial. Mas o sertanejo, que isto ignora, crê
tão-somente no poder de São José. Em Ao som da viola diz Gustavo Barroso que
"Tal crença é dos povos do Oriente europeu e, através da Península Ibérica,
modificada pelos ambientes e pelas devoções especiais, veio localizar-se no centro-norte
do Brasil", Luís da Câmara Cascudo, em Anubis e Outros Ensaios, reafirma
ter vindo de Portugal esta tradição. Todavia, cita um trabalho do professor J. A. Pires
de Lima que julga ter esta crença popular origem muçulmana.
(Magalhães, Jósa. Em Seraine, Florival. Antologia
do folclore cearense) |
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