Outubro
2001
Ano III - nº 38 |
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USOS E
SUPERSTIÇÕES CEARENSES. |
1. A criança ao nascer é
banhada em água morna com vinho do Porto e põe-se na bacia uma moeda ou outro objeto de
ouro para que o recém-nascido seja rico e feliz.
2. Menino ainda pagão não deve dormir às escuras.
3. Criança no leito a sorrir é que está a conversar em sonhos com outras
crianças, que morreram pagãs.
4. Beijo em menino de peito cria-lhe sapinhos (aftas) na boca.
5. Não se põe menino de peito diante de espelho sob pena de se lhe retardar a fala.
6-7. A criança de peito deve trazer ao pescoço ou ao braço uma figa de ouro, prata ou
principalmente de coral para evitar o mau olhado ou quebranto.
Outro amuleto usado, como o primeiro de origem itifálica, é o marisco ou búzio
encastoado em ouro ou prata.
8-11. Para facilitar a dentição usa-se um cordão de retrós preto tendo enfiados
caroços de azeitona, caroços de melancia, dentes de aranha caranguejeira; ou então uma
bolsa contendo dentes de alho ou botões de ceroula. Dente de pitu (camarão grande)
encastoado logra o mesmo efeito.
12. Quando se extrai um dente podre a uma criança, esta atira o dente ao telhado da casa
proferindo as palavras:
Mourão, mourão,
Toma teu dente podre,
Dá cá o meu são.
13-14. A criança que custa a andar (a) metem-se-lhe os pés dentro de um pilão e
finge-se que se está a bater com a mão de pilão, ou (b) se a faz rodear a casa em três
sextas-feiras seguidas.
15-16. Para fazer a criança falar depressa dá-se-lhe a beber água de chocalho ou água
em que tiver estado de molho bilro de fazer renda.
17. Para menino que urina na rede o remédio é fazê-lo sair à rua com uma pedra na
cabeça e dizer onde pára: Viva São João, esmola para um mijão. Outros
substituem a pedra por uma esteira velha.
18. Na sexta-feira da Semana Santa sai o povo pelas ruas a tirar esmolas e usa então a
frase "Uma esmola por amor de Deus para o jejum de hoje". acompanhando as
palavras de uma leve genuflexão. Para ser válido o jejum, é preciso não tomar banho
neste dia nem pentear o cabelo.
19. Em dia de sexta-feira Santa não se varre casa, nem se penteia o cabelo.
20. Em lojas e vendas encontram-se pregadas à parede ferraduras de cavalo e isso para
trazer felicidade no comércio.
21. Não se deve espanar teias de aranha para não espantar a felicidade.
22. Dor de dente se cura com a aplicação do dente do jacaré depois de ligeiramente
raspado.
23-25. Para se fazer com que se retire uma visita muito demorada põe-se uma vassoura
atrás da porta ou sal dentro do fogo ou viram-se as cadeiras de pernas para o ar. Se a
visita tem hérnia, ao estalar do sal, a hérnia começa a roncar.
26. Doente que espirra é sinal que não morre naquele dia.
27. Não se deve dizer que o céu está preto (sim escuro) porque os anjos dirão: Mais
preta está tua alma no inferno.
28. Contar história durante o dia faz criar rabo.
29. Chinelo emborcado traz infelicidade.
30. Furar no meio a palmatória (instrumento de castigo), botar um piolho dentro e tapar
faz quebrar-se a palmatória ao primeiro bolo.
31. Pisar em rabo de gato é perder esperanças de casamento.
32. Passar a vassoura, ao varrer a casa, pelos pés de um transeunte é condená-lo ao
celibato.
33. O encontro por acaso de duas colheres numa xícara é prenúncio de casamento.
34. Quem aponta para as estrelas cria verruga.
35-36. Para curar de verruga deve-se dizer: Lá vão dois em cima de um, passe a
verruga para o pé de um. Outro remédio é passar o dedo na parede de uma igreja onde
se penetra pela primeira vez.
37-38. Um chifre de boi enfiado numa vara e posto no meio do cercado evita prejuízo ou
mau olhado às plantações. Alguns donos de mercearia ou venda usam também do chifre
para chamar freguesia.
39. Quem mata gato tem sete anos de atraso.
40. Quem sofre de terçol (hordeolo) esfrega três vezes o olho doente, dizendo: terçol,
terçol. vai para olho da viúva mais próxima, e fica curado.
41. Enfermo que tem a camisa às avessas fica a sofrer e só morre quando lhe desavessam a
camisa.
42. Água coada em camisa traz a amizade de quem a bebe.
43. Sonhar com dentes é morte; se com os da frente, é morte de parente próximo.
44. Não se conta estando em jejum um sonho mau sob pena dele se realizar.
45. O uso do pente fino à noite traz a morte para os pais.
46-47. Para curar a papeira arrancam-se três cabelos do alto da cabeça do doente e se o
suspende três vezes pelas orelhas. Outra receita é o doente ir a um curral e mugir como
boi ou vaca e escarvando o chão com os pés atirar a areia para trás.
48. Passar a perna por cima da cabeça de alguém é condená-lo a não crescer mais.
49. Em casa em que a galinha cantou como galo haverá morte de alguém. Para preveni-lo
mata-se logo a galinha.
50. Uivo de cão à noite é sinal de morte.
51. Beijar santo que marca livro e esfregá-lo no lugar da lição faz aprendê-la
depressa.
52. Amiga de padre percorre as ruas à noite metamorfoseada em mula ou burra sem cabeça.
53. Para evitar que o morcego persiga os animais amarra-se-lhes ao pescoço um pedaço de
couro de raposa.
54. O chá dos cravos do buquê de uma noiva é santo remédio para se conseguir
casamento.
55. Em noite de São João passa-se um ramo de manjericão na fogueira e atira-se ao
telhado; se na manhã seguinte o manjericão ainda está verde, o casamento é com moço,
si murcho, é com velho.
56. Em noite de São João faz-se pirão com um pouco de farinha e põe-se-lhe dentro um
caroço de milho; com os olhos fechados divide-se o pirão em três porções e se coloca
uma na porta da rua, outra sob o leito e a terceira na porta do quintal; se for encontrado
o caroço de milho na porta da rua, é sinal de próximo casamento, se sob o leito, o
casamento é demorado, se na porta do quintal, não há possibilidade de casamento.
57. Em noite de São João introduz-se numa bananeira uma faca que ainda não tenha
servido, no dia seguinte aparecerá na faca a inicial da noiva ou noivo.
58. Em noite de São João põe-se uma bacia ou tigela com água e olha-se para dentro; se
não se vê a figura é que se morrerá nesse mesmo ano. Outros fazem a experfência
olhando para o fundo de uma cacimba.
59. Em noite de São João duas agulhas metidas numa bacia dágua indicam casamento
se as agulhas se ajuntarem.
60. Em noite de São João escrevem-se em papelitos os nomes de várias pessoas,
enrolam-se os papelitos e se os põem numa vasilha com água; o papel que amanhecer
desenrolado indicará o nome da noiva ou noivo.
61. Em noite de São João enche-se a boca de água e fica-se detrás da porta da rua; o
primeiro nome que se ouvir é o do noivo ou noiva.
62. Em noite de São João tomam-se três pratos, um sem água, outro com água limpa e o
terceiro com água suja; quem faz a experiência aproxima-se com os olhos vendados, e põe
a mão sobre um deles: o prato sem água não dá casamento, o de água suja indica que o
casamento será com viúvo, e o de água limpa, casamento com solteiro.
63. Em noite de São Pedro o experimentador, tendo jejuado no dia, escolhe bocados de cada
prato das refeições e guarda-os; à noite prepara uma mesa no quarto de dormir e
guarnece-a dos bocados guardados como se esperasse algum conviva, dorme, e em sonhos vê o
noivo ou noiva assentar-se à mesa.
64. Em noite de Santo Antônio ou em noite de São João põe-se uma moeda de vintém na
fogueira e tira-se para dá-la no dia seguinte ao primeiro pobre que aparecer; o nome do
pobre é o nome do noivo.
65. Em noite de São João dão-se nós nas quatro pontas do lençol tendo-se previamente
escrito nelas os nomes de quatro pessoas queridas, mas os nós sendo bem frouxos; ao
amanhecer o nó que estiver desmanchado indicará o nome do futuro esposo ou esposa.
66. Em noite de São João põe-se um pouco da clara do ovo num copo contendo água; no
dia seguinte aparece uma igreja (casamento) ou navio (viagem próxima) etc, etc.
67. Em noite de São João passa-se sobre a fogueira um copo contendo água, mete-se no
copo sem que atinja a água um anel de aliança preso por um fio, e fica-se a segurar no
fio; tantas são as pancadas dadas pelo anel nas paredes do copo quantos os anos que o
experimentador terá de esperar por casamento.
68. Para uma pessoa conhecer se está próximo a casar, planta três dias antes de São
João três cabeças de alho; quantas cabeças de alho aparecerem nascendo no dia de São
João, tantos serão os anos de espera do casamento; se nenhuma aparecer, é que a pessoa
não casará.
69. Quem no escuro em noite de São João tirar duma pimenteira uma pimenta verde casará
com moço, se encarnada, casará com velho.
70. Achar um trevo de quatro folhas é sinal de próximo casamento.
71. Comida feita numa casa e mandada para outra é causa de intrigas.
72. Quem tira botija de dinheiro e fecha o buraco, morre.
73-74. As moças que querem casar roubam a Santo Antônio o menino Jesus que traz no
braço, e devolvem-no sob segredo quando noivas. Outras amarram o Santo ou o põem de
cabeça para baixo.
75. Mulher que pegar no badalo do sino de uma igreja consagrada a São Sebastião não
terá filhos.
76. Cobrir os espelhos com vestido de seda evita a queda dos raios.
77. Para que não lhe cresçam muito os seios a mulher aquece ao fogo uma colher de pau e
aplica-a sobre eles.
78. Para acabar com os piolhos de galinha o remédio é pôr um bocado de areia nos cantos
da casa e dizer três vezes: Mais areia que imundície. O povo chama imundície ao
piolho de galinha.
79. Queda de retrato ou de espelho numa sala de visitas é prenúncio da morte do dono ou
dona de casa.
80-81. Entrada de beija-flor preto ou borboleta preta numa casa é mau agouro; a de uma
esperança é felicidade.
82. Passar por baixo de uma escada de mão atrai infortúnio.
83. Moça solteira que perde a liga é que o noivo é fingido.
84. A moça que arrebenta os cós da saia estão lhe tomando o noivo.
85. Quebrar uma agulha ao coser um vestido é sinal que não viverá para usá-lo.
(Studart, Guilherme. "Usos e superstições cearenses". Em Cacudo, Luís da
Câmara. Antologia do folclore brasileiro) |
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