Outubro
2001
Ano III - nº 38 |
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TRATAMENTOS DE
SAÚDE NO TEMPO DO REI
Excertos das cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos |
24 de outubro de 1811
Eu tenho passado com uma tosse infernal, que me incomoda muito, e alguma impressão me faz
ao peito, por cuja causa estou em uso de alguns remédios para atalhar o pior, mas sempre
trabalhando. Obrigam-me os médicos a tomar vinho quinado em jejum e a não beber a água
desta terra sem a mistura da Genebra e bem cedo principio com mezinhices.
2 de fevereiro de 1817
Nos princípios de dezembro, fui atacado de uma febre biliosa, complicada com uma
paralisia parcial, por outro nome, hemiplegia. Havia mais de um mês que já curtia de pé
uma febre, que era contínua, com fastio de morte, mas agravando-se esta, pouco a pouco,
cheguei à margem da sepultura. Fiquei leso e insensível do lado esquerdo do corpo e
surdo do ouvido esquerdo totalmente, e com mui pouca visão do olho do mesmo lado.
No princípio de janeiro, levantei-me da cama, mesmo por causa do intenso calor da
estação e comecei a tomar tônicos e cáusticos, por causa do ouvido e olho; na nuca,
levei cinco cáusticos, na fonte e à roda do ouvido, levei muitos, os quais eram só de
dez minutos, por não causar inflamação, mas só formar estímulo nas partes afetadas.
Sofri muitas fricções de espírito de vinho aromático e outras, além do martírio de
conservar uma bola de cânfora dentro do ouvido e, presentemente, de algodão umedecido em
óleo canforado, mas tudo tem sido frustrado porque dele fiquei e estou surdo e me parece
que dele não ouvirei mais. Quase no meado de janeiro, principiei a tomar banhos de mar,
no que tenho achado grande incômodo pela dificuldade de andar, mas tenho achado grande
proveito, por me terem dado mais vigor no joelho, no ombro e cotovelo. Este [vigor] se tem
aumentado gradualmente com os passeios de manhã cedo e de tarde, quase à noite, levando
todavia muitas quedas pelas ruas, apesar de sair acompanhado de meu cunhado e de um preto,
que quase me carregavam em braços a princípio, mas hoje não, que já me posso firmar na
bengala e segurar melhor a perna no chão. Têm diminuído as perturbações e vágados da
cabeça, conseqüência do abatimento, mas não tenho deixado de ser mortificado de dores
de cabeça que agora correm o período de seis dias com pouca diferença e têm tomado o
caráter de sezões. Os remédios que atualmente estou tomando vêm a ser: ora cozimento
de raiz de valeriana e flor de arnica, ora cozimento de folhas de laranja e folhas de
malva, misturados, um e outro, com quina, da qual me mandaram por especialidade um bom
presente da mais preciosa, havendo já antes tomado a quina dHuxon, como tônico
ativíssimo. Ainda estou assistido de médico, que me obriga a tomar 40 a 50 banhos e me
afirma não poderei achar melhoras do ouvido e olho, se não de 20 para cima.
28 de setembro de 1817
Devo primeiro que tudo dizer a Vossa Mercê que nos fins do ano passado estive no risco de
passar à eternidade, com um tremendo ataque de paralisia parcial, chamada propriamente
hemiplegia, complicada com uma febre biliosa e, depois de um curativo trabalhoso e
delicado, me deixou surdo do ouvido esquerdo, além de um abatimento incrível.
(...) além dos banhos de mar, aplicaram-se-me sanguessugas no lugar das hemorróidas por
duas vezes, e agora torno aos banhos e choques elétricos ao ouvido.
22 de abril de 1819
(...) fui incomodado cruelmente por uma inflamação na região hemorroidal que veio
acompanhada de um tumor no mesmo lugar, que me impedia de sentar-me e ter o corpo direito;
seguindo-se depois uma debilidade do estômago a qual ainda até hoje se não extinguiu de
todo, sendo essa a origem de indigestões sucessivas e diárias, por pouco que seja o meu
alimento; todas estas moléstias são endêmicas neste país e, por essa causa, fui
obrigado a ficar de cama por espaço de sete dias e a cuidar do meu restabelecimento com
mais seriedade, conservando-me ainda hoje no uso de chá de quássia com pequena porção
de vinho chalibeado. (...)
15 de outubro de 1819
O Senhor Infante Dom Miguel tem padecido muito de lombrigas; por vezes repetidas tem
deitado varas e varas de lombriga chamada tênia, vulgarmente, solitária, e se acha com
indícios de conservar inda grande porção dela que se trata de a fazer expelir. A
Senhora Princesa da Beira, Dona Maria da Glória, foi vacinada, mas sem fruto, porque a
matéria vacina não produziu.
(Marrocos, Luís Joaquim dos Santos. Memórias e cotidiano do Rio de Janeiro no tempo
do rei; trechos escolhidos das cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos entre 1811 e
1821. Publicação digital disponível no website da Fundação Biblioteca Nacional (http://www.bn.br)) |
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