Outubro
2001
Ano III - nº 38 |
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Foi uma aguda mania.
Não se falava noutra cousa.
- Você já tem a coleção de Romeu e Julieta?
- Comprei ontem na Livraria Francesa. Linda mesmo!
- E a do Casamento Infantil, hein?
- Titia Nana me deu.
- A Bela Otero eu não arranjei ainda. Tenho pelejado. Fui na Maison Chic, tinham
vendido o último. Só no vapor da semana que entra.
- Agora há uns postais de veludo, já viu? Mas, são caros! Custa uns dez tostões. Vi no
álbum de Mocinha uma porção.
- Também, ela é noiva. Recebe de presente quase todas as noites coleções e mais
coleções.
- Meu álbum está tão atrasado... Comecei em janeiro.
As conversas não variavam muito. O tema era esse na certa. Visita que se fizesse a
alguém seria infalível ter de apreciar os álbuns da dona da casa, das filhas das
crianças, da tia solteirona e até da criadinha de estimação.
Absorvera a mania velhos e moços.
As permutas de postais cresciam dia a dia. Havia verbas nos orçamentos domésticos para
isso. Punham-se anúncios nos jornais e nas revistas filatélicas. O correio só fazia
carregar postais. Vinham esses retalhos ilustrados da China, do Indostão, da Guiné, de
Mato Grosso, do Transvaal, da Groenlândia... E iam para lá outros tantos.
Nos dias de chegada dos vapores da Europa as livrarias do Recife enchiam-se de
colecionadores desejosos de serem os primeiros a examinar e escolher as novidades. E mal
se abriam as caixinhas de papelão, mãos ávidas arrebatavam os sedosos envelopes e olhos
ansiosos perpassavam pelas ilustrações dos novos postais. A separação se fazia
imediatamente e quando só havia um exemplar de certo postal mais arstístico ou mais
interessante, trocavam-se frases ásperas, fechavam-se caras e nasciam inimizades que hoje
talvez ainda perdurem.
Surdiam postais de luxo, em cetim, veludo, pelúcia, penas, cabelos, mica, alumínio,
madeira. Figuras em relevo. Retratos de artistas célebres dos teatros parisienses em
atitudes graciosas ou provocantes. Coleções de assuntos sentimentais, humorísticos,
históricos, brejeiros, religiosos, facetos e sensuais.
E o dinheiro a fugir dos bolsos dos maníacos.
Houve quem saísse à rua para comprar um par de sapatos e levasse a história emotiva do
primeiro dentinho, do primeiro sorriso, da primeira palavra do filhinho; aconteceu uma
moça precisar de umas marrafas para os cabelos e preferir ficar arrepiada contanto que
adquirisse a maldosa coleção do dia do casamento, desde a saída da igreja até o beijo
por baixo do véu junto ao leito nupcial.
E as rezingas, as invejas, os despeitos, de maledicências?
- Você soube? Deolinda conseguiu sempre o postal da Cléo de Merod. O que falta no seu
álbum...
- Pudera, não. Eu não vivo conversando no escuro com os namorados, no fundo do
quintal...
- Olhe essa língua!
- Digo porque é verdade.
Os postais do mesmo modo que serviam de elos para estranhos, através dos mares,
prestavam-se para atiçar rancores e perfídias entre vizinhos de "parede e
meia". Bons para longe, ruins para perto.
E o pior não foi isso. O pior foi a mania dos pensamentos que se seguiu. Pensamentos que
deram que fazer a muita gente para escrevê-los e lê-los.
Ia um rapaz fazer uma visita, contente, disposto, esperançado de um namoro, de um
casamento aproveitável. A família esperava-o de manhãzinha. Nem uma teia de aranha, nem
uma mácula de poeira. Os biscuís arrumadinhos nos bibelôs. O espelho de moldura oval
com uma lira em cima. Os consolos com porta-retratos e jarrões de louça. Pendem das
janelas cortinados de rendas presos por fitas cor-de-rosa em arregaços. No centro da sala
uma jardineira de tampo de mármore com um candeeiro belga.
A visita senta-se numa cadeira de braço. Conversa-se.
E aparece a filha mocinha, de vestido claro, saia pelos pés em sinal de puberdade e
promessa de casamento, faixa na cintura, cabelo armado em coque, um ramo de angélicas ao
peito. Não é feia, tem sua graça. Cheiazinha de corpo.
E com um pai que é dono de um armazém de recolher muito, afreguesado na praça, perto do
cais da Companhia Pernambucana.
Dali a pouco fala-se em postais. E a moça, sorrindo, traz do quarto, muito cheiroso e
azul o seu álbum. Abre-o numa página já escolhida e exige:
- Escreva seu pensamento neste aqui.
Surpreendido, vexado, confuso, o rapaz tenta uma desculpa. Mas o velho apóia a filha:
- Ora... O senhor é quase doutor. Deve ter pensamentos bonitos. Escreva.
E a mamãe toda doçura:
- Ele até faz versos, Cazuza. É poeta!
A moça, bonita, a futura sogra, camarada o velho, rico.
Que jeito? O pensamento mesmo banal, mesmo lugar-comum, tinha de sair.
O diabo era quando o assunto do postal não ajudava.
A um conhecido estudante da época uma senhorinha pediu que escrevesse num postal assim:
uma porca amamentando oito bacorinhos...
(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus) |
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