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Outubro 2001
Ano III - nº 38

"BOLINA" DE BONDE

Bolina é termo náutico que, segundo os dicionários, quer dizer "cabo que ala para vante do barlavento de uma vela, a fim de que o vento nela incida melhor". A embarcação que mareia à bolina aderna, inclina.

No bonde - dizia Luís Edmundo - o bolina também "ala para vante do barlavento". E, à espera da aragem favorável, põe-se logo à feição da mesma: adernado. Refinadíssimo velhaco!

No começo do século, a bolinagem nos bondes é costume generalizado no Rio de Janeiro. Veja-se, a propósito, a seguinte crônica publicada no Diário de Notícias, de 2 de abril de 1909:

Estamos num bonde do Leme. São três horas da tarde. A avenida Central (hoje Rio Branco) deve estar cheia, nessa hora em que a gente elegante de todos os bairros corre a mostrar ali a última toilette e comparecer à revista para a glorificação das crônicas chics.

Ao nosso lado vem mademoiselle Queiroga. Como o dia está quente, ela veste de linho branco, traz à cabeça um chapéu de baby, à mão a sombrinha azul e uma grande rosa vermelha no seio.

Toda a gente olha mademoiselle Queiroga, que, acostumada a essa manifestação, apenas fita o cabo dourado da sombrinha com o ar sério de mãe de família endividada. O vizinho da esquerda, que repara nos olhares de em redor, não vê mademoiselle Queiroga, mas arrisca o ombro no seu braço, devagarinho. Encosta mais...

A moça encolhe-se; o vizinho, disfarçado, dilata-se e chega-se mais; acompanha-lhe o movimento.

E tu, leitor amigo, que vens para o teu honesto trabalho, pensando na vida, sentes, de surpresa, aquele calorzinho, que não veio para ti, mas chegou, num contato deliciosamente morno, e, porque ninguém resiste a semelhantes tentações, empurraste para ela.

Mademoiselle Queiroga está entre a cruz e a caldeirinha.

Apertam-na de um lado; vai a defender-se e dá contigo, descuidado, que, sem pensar na investida do outro, julgando que aquilo é uma provocação vais te encostando, encostando, até que ela se afasta. E o primeiro, ignorando o que se passa por cá, julga-se vitorioso, arrasta o pé, toca-lhe a botina delicada, torce um pouco a perna e considera-se em pleno paraíso...

Qualquer contração aí já dará na vista e, porque o pudor manda calar, mademoiselle Queiroga fica entre os dois, apertada, irritada, pedindo a Deus que o bonde chegue. Mas inda roda ele pelo Catete. A moça olha para a frente. Diante de si, um guapo smart, todo cloche da cabeça aos pés, o chapelinho de palha a duas pancadas e meia, o torçal do monóculo girando-lhe no indicador, como acontece ao pince-nez do ministro da fazenda (o cronista refere-se aqui ao doutor David Moretzsohn Campista), volta-se sobre as espáduas, grela-a, repete o gesto e vendo-lhe os olhos em súplica na direção dos seus, pensa-se um homem irresistível... e continua, babosamente, a grelar. Pela natural inspiração de ver se é bem ou mal conformada a gentil rapariga, o futuro grande homem move a cabeça, vê-lhe a cinta, baixa os olhos e eis que eles encontram a postura incivil, tua ou do outro, e indignado brada:

- O senhor está faltando com o respeito a essa moça.

Mademoiselle cora:

- Este senhor está me incomodando...

E os protestos espoucam. Todos gritam:

- Desce! Desce! Bolina!

O bonde pára. O conquistador derrotado desce mesmo. Alguns passageiros põem-se de pé, esticam o pescoço e ainda apupam:

- Sai, caradura!

E o pobre do cristo vai pensando consigo, como o velho da anedota:

- Que classe mais desunida!


(Dunlop. Charles. Crônica
s)

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