Outubro
2001
Ano III - nº 38 |
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A careta é a primeira arma defensiva
infantil. Naturalmente, o homem usou-a com a finalidade de afastar o inimigo fingindo-se
mais feio, mais terrível e com a mutação fisionômica que podia ser tomada como
ameaçante agressividade de irresistível efeito.
Como as caretas são sempre intencionais, exceto as reflexas de dor, surpresa, alegria,
trazem a impressão consciente da vontade criadora, impondo-lhes uma mensagem, uma
determinada e séria missão, comunicante e pessoal.
Nós a chamamos cara-pequena, cara-êta,, carinha, cara transformada em suas
proporções e linhas normais. Não é o momo, que poderá ser feito com o auxílio dos
dedos e mãos. Nem a visagem, que já se presta a outras definições alarmantes para os
etnógrafos ortodoxos e ciumentos das fronteiras clássicas. Essencial é, aqui, dar
depoimento sobre a careta e seu valor etnográfico, tal e qual deduzo e penso.
A careta criou a máscara. Não creio que a máscara tivesse inicialmente senão a
função de amedrontar, de espalhar o pavor, elemento sagrado. Como ela independe dos
recursos materiais de folhas e limos, como ocorria fartamente nas primeiras festas
dionisíacas, a careta inicia, sozinha, a determinação do assombro pela mudança do
rosto normal. Seria possível explicar-se a rapidez da mutação pela presença mágica de
força poderosa, invisível e desconhecida. Assim, muito tempo depois, a pitonisa de
Deifos fazia caretas, estrebuchando sobre a trípode sagrada, anunciando a visita de
Apolo. Todos os mestres no Catimbó, quando acostam, obrigam seus
intérpretes a mudar a fisionomia, numa careta que é a representação do possuidor do
Além. Semelhantemente, os orixás mudam as caras de seus cavalos, de suas filhas
e sacerdotisas, quando descem possuindo-lhes o espírito para a fabulação e o
bailado. A careta, com essas custódias, com esses documentos antigos e contemporâneos,
verificáveis os últimos nos Catimbós e nos Candomblés, é realmente uma presença.
No cotidiano, é simulação, fingimento, disfarce, talqualmente a máscara, ambas com a
intenção aterradora, mesmo inconsciente.
O romano fez questão de fixar esta aproximação da máscara com a fisionomia,
denominando-a persona, em grego prósopon, guardando-se para as máscaras
que amedrontavam as crianças o nome de mormolikeion. Esta última é uma
reminiscência da função mítica da careta, espalhar o pavor.
A máscara, nascida nas festas rústicas de Dioniso, foi a careta tornada permanente,
durável, estática.
Mandar uma criança imitar uma determinada pessoa é fazê-la improvisar uma máscara,
personalizando o homenageado. O traço físico predominante se reflete imediatamente na
retentiva infantil e a careta projeta, informe, a impressão transfigurada do modelo
adulto.
Mas onde a careta mantém sua potencialidade mágica primitiva é como defesa individual
de posse, legítima ou não, da criança. Nada podendo usar de decisivo para repelir o
adversário cobiçoso, o menino reage fazendo uma careta, instintiva, espontânea,
naturalmente, como empregando a única e verdadeira arma que sua inteligência lhe oferece
prontamente. O recurso de cobrir o objeto ameaçado com as mãos e chorar alto já é,
para mim, um apelo ao socorro doméstico, ligado ao alarma sonoro do choro. É outro
escalão perspectivo nas conquistas do auxílio estranhos às suas possibilidades
defensivas.
Pela vida fora a criança recorre à careta como estímulo para sua coragem, excitação
à luta, intimidação do adversário. E, durante anos, terá a careta como um ato de
provocação, um desafio pronto e mudo, desdenhoso e superior.
A careta é, popularmente, o grande recurso cômico, provocador da hilaridade. É a
técnica dos Birico, Mateus e Catirina dos Bumba-meu-Boi, assim como o Velho ou o
Bedegueba em certos Pastoris.
Nos antigos Bumba-meu-Boi havia um companheiro do vaqueiro Birico, o Lalaia, famoso pelas
caretas inesgotáveis, destinadas ao público miúdo do folguedo.
Essa careta para rir, feita por um quase profissional na espécie, recorda os careteiros
de Roma, os saniões, sanniones, cuja especialidade era fazer caretas diante de um
público compreensivo e aplaudidor. O sanião proviria do etrusco sanna, careta,
evidenciando a antiguidade do uso intencional para fins hilariantes, correspondente ao
italiano contemporâneo, zanni, nome dado a essa classe de bufões. Os gregos
tinham no burlesco mokós o irmão gêmeo do sannio romano. Dêste mokós
veio o latino mococus e o francês moquer, moqueur, moquerie (H. Roux
Ainé).
(Cascudo, Luís da Câmara. Superstições e costumes) |
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