Ir para a página principalRetornar para Oficina

Outubro 2001
Ano III - nº 38

A BIBLIOTECA NACIONAL - COMÉRCIO DE LIVROS
JORNAIS - LOTERIAS - ANÚNCIOS

Quando se visita o Rio de Janeiro não se deve deixar de ir à Biblioteca Nacional. Foi ela organizada com os livros procedentes da Biblioteca Real de Portugal, trazidos por dom João VI. Franqueada ao público por aquele monarca, continua até hoje, sob regulamentação adequada, acolhendo a todos que queiram compulsar as suas obras. O salão está aberto diariamente de 9 da manhã até duas horas da tarde e a entrada dá para a Rua detrás do Carmo.

Passando-se por um portão antigo, vê-se, à direita, o Cemitério da Ordem Terceira dos Carmelitas. O solo está completamente coberto de lajes de mármore, cada uma com breve inscrição latina a respeito do morto que ali jaz. As paredes são construídas com largura suficiente para deixar, pelo lado de dentro, grandes ordens de aberturas que se denominam catacumbas; na direção vertical estão colocadas umas sobre as outras em disposição idêntica à dos leitos de um beliche. Em cada uma dessas cavidades depositam um cadáver e fecham-na com alvenaria, de maneira a apresentar uma superfície lisa. Assim é que a frente de cada catacumba se presta para inscrições em memória do defunto que a ocupa.

À esquerda dessa passagem fica a entrada dos salões da Biblioteca Nacional e Pública. Pinturas de eras remotas e gravuras em molduras antigas antigas adornam as paredes. Subindo-se por um lance de escada larga, vai-se ter à Sala de Leitura. De um extremo a outro vêem-se mesas forradas com pano sobre as quais se acham-se dispostos materiais para escrever e estantes para suster os volumes pesados. As prateleiras que se elevam desde o soalho até o teto, estão atulhadas de livros de todas as épocas e em todas as línguas. Pode-se pedir qualquer volume da biblioteca, sentar-se à mesa e ler ou tomar apontamentos à vontade. Encontram-se também aí jornais e várias revistas européias. Apesar de todos esses atrativos nunca vimos o salão cheio; ao contrário, freqüentemente vimo-lo vazio. Não só a sala principal, mas também algumas alcovas que a circundam de ambos os lados estão atopetadas de livros. As recentes aquisições de obras para a Biblioteca não têm sido muito grandes conquanto de quando em vez se façam dotações de verbas para esse fim. Todavia o número de livros tem aumentado devido a valiosas contribuições, entre as quais merecem especial destaque as coleções do finado José Bonifácio de Andrada.

As revoluções e agitações políticas de Portugal tiveram o efeito de afugentar os literatos, à procura de ambientes mais calmos. Muitos deles fixaram residência em Paris onde passaram a produzir para Portugal e para o Brasil. Além disso Portugal atravessa atualmente um período de decadência literária em que a pureza da língua lusitana sofre a influência deletéria dos galicismos e as empresas editoras se vêem sobrecarregadas de traduções, com exclusão quasi absoluta de trabalhos originais. Qualquer novela barata dos folhetins parisienses precisa ser traduzida para surgir em forma de livro em Lisboa e no Rio de Janeiro. E, tão grande é o número dos que se entregam a essa leitura inútil e não raro prejudicial, que ninguém procura pelos trabalhos originais e substanciosos. Além do mais, o francês usurpou o lugar do latim, entre os brasileiros. Para a matrícula nos institutos superiores de ensino é indispensável o seu conhecimento, aliás bastante generalizado. Daí a procura dos livros franceses em detrimento dos portugueses. Para que o leitor se convença do que afirmamos basta que se dê ao trabalho de examinar os mostruários das livrarias e reparar como é grande o estoque de livros franceses. Quasi todos os navios procedentes do Havre trazem grandes quantidades de livros para serem vendidos em leilão, sendo bastante freqüentes tais vendas. Os europeus que regressam às suas pátrias ou os brasileiros que vão para o estrangeiro, em geral dispõem de suas bibliotecas ao correr do martelo. Faz pena, às vezes verificar-se, em tais ocasiões, como é grande a quantidade de livros profanos em circulação. As obras de Voltaire, Volney e Rousseau são quasi diariamente oferecidas aos que fazem maiores lances, e, para elas, há sempre compradores.

A imprensa, no Rio, é bastante prolífica. Edita quatro diários, dois jornais tri-semanais e de seis a dez semanários e jornais de publicação irregular. Durante os trabalhos da Assembléia Nacional, seus debates saem publicados na manhã seguinte. Os grandes jornais não são como nos Estados Unidos, órgãos dos partidos políticos. Conquanto se entreguem às vezes a calorosas discussões políticas, mantêm como norma se conservarem sempre ao lado do Governo e do partido dominante. Daí freqüentemente suceder que um determinado ato do governo, antes de ser sancionado encontre a oposição da imprensa e depois seja por ela mesma elogiado.

Se a oposição deseja mover campanha contra o partido de cima, tem de fundar um jornal ou fazer suas publicações em forma de boletins que são distribuídos juntamente com o jornal do qual se não pôde servir.

Conquiste, porém, a minoria o poder, e, essas mesmas colunas estarão imediatamente à sua disposição; mais ainda, darão todo apoio ao governo.

Alguns jornais se esforçam em dar informações comerciais exatas, mas nenhum deles publica anúncios estereotipados.

A matéria da seção de publicidade é alterada quase diariamente e procurada, com avidez por grande número de leitores pelo pitoresco de seu conteúdo e pela variedade que apresenta.

Nota-se, na capital do Brasil, um hábito curioso que se vai formando sob o patrocínio das numerosas loterias autorizadas pelo governo. Diversas pessoas costumam formar companhias para comprar bilhetes e as que residem fora, dão ordem aos seus correspondentes para que os comprem por sua conta. Afim de evitar possíveis transferências ou discussões futuras, o comprador anuncia pelos jornais o número do bilhete comprado e o nome da pessoa para quem adquiriu. Assim, por exemplo: "M. F. S. comprou, por ordem de J. T. Pinto, dois meios bilhetes números 1513 e 4817 da loteria em benefício do Teatro de Itaboraí." Ou "o Tesoureiro da Companhia intitulada "Amigos da Fortuna" comprou por conta da mesma os meios bilhetes números 3885 e 5430 da loteria em benefício da catedral de Goiás".

Consoante o hábito, as pessoas que desejam fazer alguma publicação desaforada, em geral o fazem em nome de uma dessas companhias, conquanto esse nome apareça às vezes em uma dúzia de rimas.

Muitos de semelhantes anúncios pareceriam bastante singulares entre nós. Certa vez anunciaram que seria cantado um Te-Deum solene na Igreja de São Francisco de Paulo, pela feliz restauração da Bahia, depois de sufocada uma rebelião naquela província, e que sua Imperial Majestade estaria a ele presente. Alguns dias mais tarde, lia-se nos jornais o seguinte aviso: "A Comissão encarregada de promover o Te-Deum na Igreja de São Francisco de Paulo, achando que melhor atenderia os sentimentos filantrópicos dos que concorreram para aquela cerimônia religiosa remetendo para a Bahia o dinheiro arrecadado, afim de ser distribuído entre as viúvas e os órfãos, e, principalmente porque em outra igreja já se renderam graças a Deus pela restauração, resolveu-se que não mais seja cantado o Te-Deum, pelo que dá o presente aviso aos interessados."

Outra publicação curiosa: "Pede-se ao Senhor José Domingues da Costa que pague à Rua São José nº 35, o seu débito de seiscentos mil réis. Caso não o faça dentro de três dias, sua conduta será revelada por estas mesmas colunas bem como a forma por que foi contraída essa dívida."

O exemplo que se segue mostra que nem o clero era poupado: "Senhor Redator. - Tendo o vigário de certa paróquia, a 8 do corrente, depois de ter celebrado missa com a sua afetação costumeira, se voltado para o público e dito com ar zombeteiro "como não temos festa hoje, vamos recitar as litânias etc.", devo dizer que o reverendo vigário a que me refiro, sabe perfeitamente o motivo por que não houve a festa. Esteja, porém. certo de que quando se houver dissipado a intriga, a festa será feita. Contudo, se ele tiver pressa que faça as despesas, pois quem reza o Padre-nosso come o pão". Assinado: "Um Inimigo dos Hipócritas."

Os diários do Rio de Janeiro se parecem muito com os de Paris, tanto no formato como na apresentação e na disposição da matéria. O rodapé de cada folha contém leituras leves e chamam-no Folhetim. Examinando o conteúdo do Folhetim do Jornal do Comércio durante um ano, só encontramos um conto original; os outros foram traduzidos do francês.

A imprensa periódica do Rio, foi, em poucos anos, enriquecida com o aparecimento da Revista Médica e de um jornal trimensal sobre assuntos do Brasil e do estrangeiro. Este último, conduzido com grande elevação e espírito literário, promete ser de utilidade ao país; ainda assim, porém, recorre freqüentemente a traduções. Se os brasileiros se dessem ao trabalho de escrever e pensar por si próprios, estamos certos de que os estrangeiros logo se interessariam pela sua produção literária e lhe dariam o devido valor.

O Instituto Histórico e Geográfico, fundado no Rio de Janeiro, em 1838, contribuiu consideravelmente para despertar o gosto literário dos brasileiros. A instituição tem por finalidade precípua colecionar, organizar e publicar ou conservar documentos que sirvam de subsídio à história e à geografia do Brasil. Desde os seus primórdios o Instituto despertou o interesse de diversas personalidades de renome. Teve também o apoio do Governo. A Assembléia Geral concedeu-lhe uma subvenção de dois contos de réis anuais e o Ministério dos Estrangeiros deu instruções aos adidos das embaixadas brasileiras na Europa, no sentido de pesquisar e copiar documentos de interesse histórico que pudessem ser encontrados nos arquivos das várias casas reinantes, com relação aos primeiros tempos do Brasil. Essa iniciativa estimulou o esforço individual e o espírito de pesquisa tanto no Império como fora dele, tendo já produzido resultados interessantes. Durante o seu primeiro ano de existência o Instituto conseguiu quatrocentos membros correspondentes, tendo colecionado para cima de trezentos manuscritos de vários tamanhos e valores. Os mais importantes deles já foram divulgados juntamente com importantes discursos e ensaios de autoria de seus membros. O órgão oficial dessa instituição é a Revista trimensal ou jornal do Instituto Histórico Brasileiro que publica na íntegra as suas sessões bem como os documentos mais importantes que lhe são apresentados. Tivemos o nosso interesse especialmente voltado para os artigos que publicou com relação aos aborígenes sul-americanos bem como esboços biográficos de brasileiros ilustres.

Num sentido geral, pode-se perguntar se haverá, em língua portuguesa miscelânea de maior valor que a que se encontra nas páginas da Revista Trimensal ou Jornal do Instituto Histórico Brasileiro.


(Kidder, Daniel Parish. Reminiscências de viagens e permanências nas províncias do sul do Brasil; Rio de Janeiro e província de São Paulo)

Topo

Jangada Brasil © 2001