Outubro
2001
Ano III - nº 38 |
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Fiquei em Mendanha cinco dias, que gastei a
examinar as diferentes partes da exploração, da qual vou tentar dar descrição geral.
Este rico rio, formado pela reunião de vários ribeiros de que tratarei mais abaixo, tem
em geral a largura do Tâmisa em Windsor e a profundidade de três a nove pés. A parte
atualmente explorada é um trecho em curva ou cotovelo, do qual foram removidas as águas,
conduzindo-se as mesmas a um canal cavado através de uma língua de terra, em torno da
qual giram; são detidas, abaixo do ponto em que começa o canal, por barragem composta de
vários milhares de sacos de areia. Esta obra é imensa; é necessário o trabalho
conjunto de todos os negros para terminá-la, porque o rio, sendo largo e pouco profundo,
e por conseguinte sujeito a transbordar, só barragem bastante sólida poderia resistir à
pressão da água, no caso em que se elevasse a quatro ou cinco pés.
Põe-se a seco a parte mais profunda do rio, por meio de grandes caixões ou bombas,
acionadas por uma roda dágua. Tira-se a lama e leva-se o cascalho a lugar cômodo
para a lavagem. Até há pouco tempo, os negros levavam o cascalho em gamelas sobre a
cabeça, mas o senhor Câmara estabelecera dois planos inclinados, de trezentos pés de
comprimento cada um, sobre os quais grande roda dágua, dividida em duas partes,
fazia avançar caixões com rodas. Essa roda é construída de modo que o movimento de
rotação pode ser mudado à vontade, fazendo passar a corrente dágua de um lado
para outro. E por meio de corda, feita de couro cru, aciona dois caixões, dos quais um
desce vazio em plano inclinado, enquanto o outro, carregado de cascalho, é levado ao
ápice do outro plano, e aí cai num poço, onde se descarrega e desce por sua vez. Em
Canjica, exploração outrora muito importante, situada uma milha acima do outro lado do
rio, há, para tirar o cascalho, três máquinas de cilindros, iguais às usadas nas minas
de Derbyshire, e também caminhos de trilhos, em terrenos desiguais. Esta máquina foi a
primeira e única, aliás, considerável que tive ocasião de ver no Distrito Diamantino.
Parece que muitos obstáculos se opõem ao seu uso. Quando se tem necessidade de madeira
de grandes dimensões, va-se buscá-la a cem milhas de distância, com despesas enormes;
poucas pessoas têm conhecimentos precisos para trabalhar com essas máquinas, e os
operários não gostam de construí-las, temendo que isso obedeça ao plano de fazer com
que as mesmas substituam o trabalho manual.
A camada de cascalho é composta das mesmas substâncias que a do distrito do ouro. Em
muitos lugares, nas margens dos rios, há grandes massas de seixos rolados, aglutinados
pelo óxido de ferro, que envolve algumas vezes o ouro e os diamantes. Trabalha-se para
obter na estação da seca tanto cascalho quanto for necessário para ocupar todos os
braços na estação das chuvas. O cascalho tirado do leito do rio é colocado em montes
de quinze a dezesseis toneladas cada um.
Fazem vir a água de certa distância e distribuem-na pelas diferentes partes da
exploração, por meio de aquedutos engenhosos, construídos com muita simplicidade e
engenho. Eis como proceder à lavagem dos diamantes: levantam um barracão em forma de
paralelogramo de vinte e cinco a trinta jardas de comprimento, por quinze de largura, por
meio de estacas verticais que suportam um teto coberto de palha. Fazem passar pelo meio
desse barracão uma corrente de água em um rego coberto de fortes tábuas da espessura de
dois a três pés e nos quais colocam cascalho. Ao lado e abaixo do rego, um assoalho, de
quatro a cinco jardas de comprimento, fixado no barro, se extende em toda a extensão do
pavilhão e tem, depois do rego, inclinação de três pés de largura cada um. A parte
superior desses compartimentos, aos quais aqui dão o nome de caixas, comunica-se com o
rego e está disposta de maneira que a água ali é introduzida entre duas tábuas
paralelas e distantes uma da outra perto de uma polegada. A água cai, por uma abertura de
cerca de seus polegadas de altura, no compartimento; pode-se orientá-la para a parte que
se quiser ou fazê-la parar à vontade por meio de um ponco de barro. Tem-se, por exemplo,
necessidade de água, apenas de tal lado da abertura; tapa-se o resto. Se é preciso que a
água venha do centro, tapam-se as extremidades. Enfim, aplica-se o barro conforme as
circunstâncias. Pequeno conduto cavado na extremidade interior do compartimento, serve
para o escoamento da água.
Acima do montão de cascalho, são colocadas, a distâncias iguais, assentos elevados para
os oficiais inspetores. Quando estes estão sentados sentados, os negros entram nos
compartimentos; cada um traz uma enxada de forma especial e cabo curto, com a qual faz
cair no compartimento cinqüenta a oitenta libras de cascalho, introduzindo nele, depois,
a água. Agita, então, e remexe constantemente o cascalho, lançando-o sem cessar para o
alto do compartimento. Esta operação dura perto de um quarto de hora, depois do que, a
água, caída no conduto inferior, começa a clarear. Tiradas todas as partículas de
terra, o saibro é levado para a extremidade superior do compartimento; e quando a água
está inteiramente clara, põem fora a príncipio, os maiores pedaços de pedra, depois os
menores, e examinam o resto com muita atenção para descobrir os diamantes. O negro que
encontra um, endireita-se, bate com as mãos, abre-as, conservando a pedra entre o índex
e o polegar e o inspetor a recebe e a deposita em uma gamela ou tigela semi-cheia
dágua e suspensa no meio do barracão. Colocam-se naquele vaso todos os diamantes
encontrados no correr do dia. À noite levam a gamela e entregam-na ao oficial principal,
que, depois de pesar as pedras, as inscreve, em detalhe, num registro destinado a esse
fim.
Quando um negro tem a felicidade de encontrar um diamante que pese uma oitava (17 quilates
e meio), congem-lhe a cabeça com uma grinalda de flores e levam-no em procissão ao
administrador que lhe dá a liberdade e uma indenização ao seu senhor. Ganha também
roupas novas e obtém permissão para trabalhar por conta própria; o que encontra uma
pedra de oito a dez quilates, recebe duas camisas novas, um terno novo completo, um
chapéu e uma bela faca. Concedem prêmios proporcionais aos descobridores de pequenos
diamantes de pouco valor. Durante minha estadia no Tejuco, encontrou-se uma pedra de
dezesseis quilates e meio. Experimentara uma real satisfação ao ver o grande desejo
manisfestado pelos oficiais de que a pedra tivesse bastante peso para ocasionar a
liberdade do negro. Pareceu que todos partilharam do pesar dele, quando a pesagem acusou a
falta de um quilate.
Tomam-se muitas precauções para impedir a subtração dos diamantes pelos negros. Embora
trabalhem em posição curvada e não possam saber se o inspetor os observa, não lhes é
difícil apanhar o que avistaram e colocá-lo a um canto do compartimento, a fim de
buscá-lo nas horas de repouso. Para prevenir-se essa manobra, muitas vezes os deslocam no
correr da operação. À ordem dada pelos inspetores mudam de compartimento, de sorte que
não pode existir conluio. Se há suspeita de ter um negro engolindo um diamante,
encerram-no em lugar seguro, até que o fato possa ser constatado. Outrora, quando um
negro desviava um diamante, sua pessoa era confiscada em proveito do estado, mas como
fosse muito rigoroso sofrer o proprietário pela falta cometida pelo escravo, comutaram a
pena na de prisão e castigo corporal, pena muito mais leve em relação àquela em que
incorreria o proprietário ou qualquer outro branco por um crime de tal espécie.
Não há regulamento especial para o vestuário dos negros; vestem para o trabalho o que
mais convém ao seu gênero de ocupação; usam, em geral, jaleco e calção, e não andam
nus, como asseveram alguns escritores. Trabalham desde antes do levantar do sol até o
ocaso. Dão-lhes meia hora de descanso para o almoço e duas horas à tarde. Durante a
lavagem, mudam de posição, tantas vezes quantas querem; o que é muito necessário,
porque o seu trabalho exige que coloquem os pés nas bordas do compartimento e que se
abaixem muito. Esta posição é sobretudo prejudicial aos negros moços, que não
atingiram o crescimento completo. Ficam cambaios. Quatro ou cinco vezes ao dia, todos
repousam, e dã-lhes fumo, que muitos apreciam.
Os negros são divididos em grupos ou turmas de trabalho, compostas cada uma de duzentos
indivíduos e colocados sob a direção de um administrador e de oficiais inferiores. Cada
esquadra possui seu capelão e seu médico. Se bem que o intendente atual tenha melhorado
um pouco a alimentação dos negros, mandando dar-lhes diariamente carne fresca, o que
não acontecia sob o governo de seus predecessores, pesa-me dizer que são mal e
mesquinhamente alimentados, e em geral tratados com muito maior severidade que os dos
outros lugares que tive ocasião de visitar. Os proprietários se orgulham, no entanto, de
empregar seus negros nesse serviço, sem dúvida pelo motivos que explicamos adiante.
Os oficiais são bem pagos e vivem com grau de conforto que o estrangeiro está longe de
pensar encontrar em lugar tão afastado. Nossas mesas eram diariamente providas de uma
variedade de excelentes comidas, servidas em bela louça inglesa Wedgewood, e tudo mais
que se continha nas suas casas correspondia a essa parte essencial. Mostraram-se muito
solícitos em ajudar-me no exame da exploração, e deram-me com boa vontade, todas as
informações por mim solicitadas.
(Mawe, John. Viagens
ao interior do Brasil) |
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