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Outubro 2001
Ano III - nº 38

AGRONOMIA POPULAR

Entre outros ramos da sabença popular, a geoponia é de grande interesse não só para o estudioso do folclore, porém principalmente para a sociologia rural. É de inenarrável importância mormente num país que deu seus primeiros vagidos ao som das moendas dos engenhos, que cantarolou acalantos nos aboios dos criatórios, balbuciou nos eitos do algodão, aprendeu os primeiros vícios fumando o tabaco que plantou e se tornou adulto estendendo as intermináveis rilhas dos cafezais, sesteando nos galpões chimarreando ou tomando o chá preto que a mão do amarelo ensinou a plantar.

A agronomia popular é de grande interesse principalmente agora que as técnicas tradicionais de amanho, semeadura, colheita vêm sofrendo o impacto da maquinaria e cada dia se acentua o êxodo rural. Desde a escolha do terreno, a encosta ensolarada ou noruega, a "friage" (umidade), o "sombreado", o conhecimento do teor do terreno graças às plantas nativas que o reveste, os períodos de "pousio" que cada tipo de solo requer para maior produtividade, revelam um acervo de observações que vêm passando de geração a geração.

A escolha do terreno tem relação estreita com o que se vai plantar. O tipo de cova, o distanciamento, o número de sementes, a possibilidade de plantar duas plantas diferentes (milho e feijão, por exemplo), no mesmo terreno. Vale a pena observar até o tipo de instrumentos, de ferramentas usadas para os trabalhos agrícolas.

Há uma espera para o plantio. Em geral cada espécie de planta temporária tem, além do período certo, isto é, do ciclo agrícola, uma data que deve coincidir com o dia de guarda de um determinado santo do hagiológio católico romano. O ciclo agrícola se relaciona com o calendário religioso [1] tanto para o plantio como para colheita, principalmente para o primeiro. Obedecem às épocas certas das "limpas" das plantações e depois à colheita. Geralmente não gostam de "atrasar", daí, não raro, o mutirão que engalana de alegria as lidanças agrícolas.

Na agronomia popular está presente o direito consuetudinário que regula desde os tamanhos das tarefas de trabalho até pequenos detalhes de entendimento entre patrão e camarada, meeiros, etc.

Várias magias estão relacionadas com as plantações, rezas e benzeduras para afastar mau olhado e perigos que possam produzir a perda da safra. É vasta a seara folclórica da agronomia popular com as suas características regionais.

Algumas notas colhidas na comunidade paulista de Cunha, amostra pequena da geoponia do homem de enxada que ainda não adotou as máquinas, não conhece o adubo e se utiliza do fogo e da cinza como melhor meio de limpar o terreno, praticando entretanto magias.

"É bom agarrar-se com um santo, pois ele dá-nos boas colheitas." Em questão de mantimentos, deve-se agarrar com o Divino Espírito Santo e São José para a lavoura ir para frente. São Benedito gosta de que dêem criação. A promessa é feita assim: - "Se minha plantação for adiante, minha porca parindo dou um leitão para o santo."

Na noite do dia anterior ao plantio, limpa ou colheita, reúnem-se para uma reza. Isto de fato não é uma magia. A forma, porém, de prometer ou melhor de propor um negócio com a entidade celestial é que assume uma fórmula mágica. "Se isto acontecer, lhe darei aquilo". Contaram-nos que havia uma vaca que todos os anos perdia sua cria. Então ofereceram a cria ao Divino, e desde aí não mais perdeu ela os terneiros que lhe nasceram. Todos os demais filhos da vaca, nasceram e cresceram bonitos. Foi bom ter dado um ao Divino, porque os demais ficaram para o fazendeiro...


Oração de benzimento de horta de couve:

"Eu vô benzê as horta de couve com as palavras da verdade do Senhor Amado Bom Jesus, assim como vóis é verdadeiro e não mente, assim tamém eu peço pra vóis, pra benzê esta horta desta criatura de vos para livrar de imundices na horta com as palavras da verdade que vós lanço da vossa sagrada boca para benzê esta criatura e esta criatura foi feliz com as palavra do benzimento assim tamém eu peço pra vós pra esta criatura desta horta sê feliz e a imundice desta horta não estrague, Bom Jesus Amado". A seguir, benzê fazendo o sinal da cruz: - "home bom, muié ruim, estera rota, canto moiado". Repetir duas vezes, dizendo primeiro: - "meu bom Jesus, home bom, muié etc... Reza-se também: - "favoreça meu Senhô Amado Bom Jesus, pela hóstia consagrada e pela cruis que vóis morreste (bis e bis) e me favoreça Senhô Amado Bom Jesus pela Virgi que vóis nasceu, pela hóstia consagrada e pela cruiz que vos morreu (bis e bis). Depois de se benzer a horta, sempre fazendo o sinal-da-cruz, reza-se uma Salve-Rainha que é oferecida em louvor do Senhor Amado Bom Jesus e da Virgem Mãe Santissima, Virgem Soberana do céu."

"Prometem dar um cargueiro de milho para Nossa Senhora ou São Benedito, para que os santos guardem a roça."


Simpatias para proteger as plantas

"Por ocasião da festa de São João, a procissão com o mastro passa sobre a roça para abençoá-la."

"Quatro tocos de carvão da fogueira de São João fincados nos quatro cantos da roça protegem-na de mau-olhado e de pragas."

"A espiga de milho que foi dependurada no mastro de São João, é ótima para debulhar e ter misturados os seus grãos com as demais sementes a serem plantadas."

- Ao plantar o milho, colocar as sementes numa casca de tatu.

"No dia em que se planta o milho não se pode falar em tatu porque, nesse caso, o milho será comido por ele"

"Não se deve queimar o sabugo do milho porque requeima a folha do pé de milho."

"Dizem que a primeira e a última espiga de uma roça tem número ímpar de carreiras de grãos. Todas as demais têm número par. Quem encontrar essa espiga com número ímpar, terá sorte a vida inteira."

"É pecado pisar na planta quando está crescendo. Mas depois de colhida, não faz mal, pois o feijão precisa ser pisado no terreiro."

"Não presta apontar a abóbora com o dedo, pois ela morre."

"Nas encruzilhadas dos caminhos são jogadas as cascas de amendoim para que os tatus e outras caças não prejudiquem o plantio e a colheita."

"O gavião é um dos apreciadores de amendoim. Quando a planta está boa para ser colhida, arranca-se uma touceira e coloca-se na cabeceira da lavoura. O gavião carrega-a e não volta mais... nem ele, nem seus companheiros."

"A má colheita pode ser atribuída ao mau-olhado. Por isso deve-se colocar na roça uma caveira de gado (bovino), espetada numa vara para afastá-lo."

"Para que a roça não apanhe mau-olhado, deve-se colocar uma caveira de boi, porque a de burro traz muito azar. É por isso que ao se referirem a qualquer negócio atrapalhado, dizem: aí tem caveira de burro. Outra expressão acerca de negócio mal parado: "aí tem dente de coelho."

- Rezar a "Estrela do Céu" e oferecê-la para São Roque, São Sebastião e a Virgem Santíssíma, para retirar os maus-olhados das plantas.

- Para espantar gafanhotos e coruquerê que come capim, três sextas-feiras seguidas, rezar a "Estrela do Céu" nos três cantos de invernada, deixando sempre um livre, por onde eles possam sair.

- Para as plantas irem para frente colocar um tostão num canto da roça, para as almas.

- Para afastar inveja da roça, rezar o "Crendospadre" e um Padre-Nosso nos três cantos da roça. Contra o lado da casa é o canto que não é rezado. Oferece-se o que se rezou ao santo da devoção para que ele livre e afaste a inveja.

"Madeira cortada na força da lua, plenilúnio, não carruncha. Outros trabalhos podem ser feitos noutras luas."

"Se o pinheiro plantado perto da casa ultrapassar a altura dela, traz azar. Deve-se plantá-lo longe."

"Parasita (orquídea) em casa traz azar."

"Plantando-se um pé de Santa Bárbara, diflcilmente um ladrão ou bandido entrará nela para roubar ou fazer mal."

"Plantando-se um pé de guiné na casa, fica livre do azar e mau-olhado."

"Galhinho de arruda atrás da orelha, livra de qualquer quebranto."

"Na noite de São João deve-se apanhar um ramo de árvore e esfregar nas verrugas para elas desaparecerem."

"Para que a aroeira não dê grosseiros e coceiras, deve-se dizer passando-se perto dela, três vezes: bom dia, comadre."

Há plantas que têm grande função na medicina popular, doméstica. O alho por exemplo. "Chá de alho para curar bichas assustadas." "Chá de alho para desenfastiar criança." "Alho na pinga para curar resfriado." "Comer três dentes de alho como defesa de mau-olhado e inveja. Deve-se comer às sextas-feiras." "Queimar palha de alho e fazer defumação para quebrar quebranto de pessoas e de animais." "Quando uma pessoa estiver com muito azar, é fazer um colar de dentes de alho e colocá-lo no pescoço por algum tempo que terá sorte."

"Descascar uma laranja com o canivete ou faca. Girar a casca dizendo as letras do abecedário. Na letra em que se partir a casca, é a inicial do nome do futuro cônjuge."

Tomam cuidado especial quando rebentam o milho de pipoca, batendo com o colherão de pau na tampa da panela dizendo: "rebenta pipoca, Maria sapiroca". - "Assim falam porque os grãos que ficam piruá são os que o saci estragou."

Se há magias ligadas à plantação, há também certos tabus:

"Laranja de manhã é ouro, de tarde é prata, de noite é chumba."

"Laranja de manhã é ouro, de tarde é prata, de noite mata."

"Banana com manga é veneno, não se deve misturar."

"Não se deve comer banana (ou outra fruta) inconho. Quem assim fizer arrisca-se, casando-se, a ter filhos gêmeos."


Nota:

[1]. Araújo, Alceu Maynard. Ciclo agrícola, calendário religioso e magias ligadas às plantações. (1º Prêmio Mário de Andrade, 1950) Gráfica da Prefeitura Municipal de São Paulo, 1957.



(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional)

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