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Outubro 2001
Ano III - nº 38

A SOPA DE PEDRAS

Parece-nos comum a todo o Brasil a estória da sopa de pedras. A revista infantil O Tico-Tico relatou-a, certa vez, numa das "aventuras de Faustina e Zé-Macaco".

Dela, variantes diversas existem, das quais a mais antiga que conhecemos, isto é, a primeira que nos foi contada é assim:

- Era uma vez um pobre homem que vivia só no mundo. Nada possuía de seu além de uma roupa feita de peles de animais, uma panela de ferro e um cajado.

Com isso andava de lugar em lugar passando, às vezes, fome além de frio, no inverno, quando não encontrava galpão ou "fogão gaúcho" aceso no qual se pudesse chegar e aquecer.

Mas o velhote era bastante esperto e contador de histórias e anedotas e, por isso, sempre se arranjava e não trabalhava.

Um dia, porém, chegou a um lugarejo em que não conhecia pessoa alguma, pois era a primeira vez que aí aparecia.

A primavera risonha enchia as roças com verduras e os jardins com flores as mais variadas e belas. Tudo era encanto, principalmente naquele humilde lugarejo, limpo e arejado.

Numa esquina, - já meio-dia se aproximava, o homem parou.

Como não conhecesse ninguém, nada quis pedir para comer. Mas, a um passante pediu um fósforo e um pedacinho do "místico" da caixa.

Depois, juntou algumas pedras, bom punhado de gravetos e galhos secos. Fez fogo. Na casa de fronte pediu um caneco com água. Bebeu uns goles, em seguida lavou bem duas pedras e, pondo-as na panela com o resto de água, acocorou-se ao lado do fogo. De quando em quando mexia a água com uma varinha.

Os curiosos apareceram.

- Que está fazendo? - perguntou um deles.

- A comida: minha sopa de pedras.

O espanto foi geral.

- E isto presta?

- É maravilhosa esta sopa - disse o velhote.

- Mas só pedra, sem carne, sem um osso ao menos, sem nada?

- Claro. Mas se tivesse um osso ou um pedacinho do carne, ficaria muito melhor.

Alguem trouxe-lhe um osso e outro um pedacinho de carne. E lá se foram, osso e carne, para a panela.

A água já estava fervendo quando um dos curiosos lembrou-se de perguntar se umas verduras não melhorariam a sopa.

Naturalmente, - respondeu mexendo a sopa. - Tudo quanto se puser neste caldo das pedras melhorará a sopa, inclusive uma pitada de sal.

A pouco e pouco a panela de nosso espertalhão estava cheia de verduras, batatas e muitos outros ingredientes.

Então, rindo, comeu a bom comer deixando na panela apenas as duas pedras que jogou fora, por fim, exclamando:

- As pedras deste lugar são maravilhosas! Que excelente sopa me deram...

E pôs-se a caminho, alegre e satisfeito...

* * *

Esta estória que origem terá?

Na obra de Blaise Cendars, Anthologie Negre (Nouvelle edition - Au Sans Pareil, Paris, 1927), encontramos o seguinte provérbio houssa:

- L’homme patient ferait cuire une pierre jusq’ã ce qu’il eu boire le bouillon.

Não terá essa "sopa de pedras" origem nesse provérbio africano?

Não teria sido essa estória introduzida pelo negro?

Eis interessante questão a ser elucidada.


(Spalding. Valter. "A sopa de pedras". Comunicação à Comissão Nacional de Folclore do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura. Doc. 179, de 6 de abril de 1950)

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