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Outubro 2001
Ano III - nº 38

SÓ DEUS PODE MUDAR O DESTINO DOS HOMENS

Havia um rei muito orgulhoso, que não tinha crença religiosa, porém muito supersticioso; pois gostava de consultar magos, adivinhas ou feiticeiros.

Quando nasceu o primeiro filho, mandou chamar um mago para dizer-lhe o destino do príncipe.

O mago concentrou-se e disse secamente: - morrer de um raio!

- Pois eu evitarei - disse o rei; com os recursos da ciência construirei uma torre protegida em todos os lados com pára-raios, paredes grossas e revestidas de chapas de ferro, e ali conservarei o meu filho; e quando meus astrônomos me avisarem que o tempo vai mudar, ele ficará ali, até o tempo afirmar; e assim o destino há de ser mudado.

Não adianta: disse o mago; só Deus pode mudar. Despediu-se.

Mandou imediatamente construir a torre e mandou instalar ali os aposentos do príncipe, e este só saía com o tempo muito firme e depois dos seus astrônomos afirmarem, tempo bom, tantas horas.

O príncipe cresceu com todas aquelas precauções; e aprendeu, além de outras cousas, nadar, montar a cavalo e caçar.

Um dia qualquer desejou ir caçar, e o rei chamou seus astrônomos, e depois de muito percorrerem o espaço com os seus instrumentos de observação, declararam: tempo firme o imutável por vinte e quatro horas.

O rei mandou preparar a comitiva, e o príncipe partiu com todos os seus servidores.

Estavam todos muito alegres e satisfeitos, entregues aos seus divertimentos favoritos, quando ouviram o ribombar de um trovão ao longe; o céu começou a toldar-se, e os relâmpagos cruzavam-se no espaço.

Montaram depressa em seus fogosos cavalos, o tocaram a toda brida para alcançarem a torre; quando já se achavam a pouca distância da torre, caiu uma tremenda descarga elétrica que fendeu a torre de alto a baixo, até os alicerces.

O príncipe e os seus, nada sofreram.

O rei ouviu então uma voz que lhe disse: vês, rei orgulhoso e tolo, o que é o poder de Deus? teu poder e tuas precauções de nada valeriam se o príncipe estivesse encerrado na torre; pois teria morrido fatalmente, por quanto era seu destino, mas Deus fez isso, para te mostrar o seu infinito poder, cortando por essa maneira o destino do teu filho; só ele pode dar ou mudar o destino de suas criaturas, e não a sabedoria dos homens.

O rei tornou-se desse dia em diante muito crente e dizia: nada pode se comparar com o poder de Deus!


(Escrita por Eugênio Pilar França)


(Em Almeida, Aluísio de [Almeida, Luís Castanho de, cônego] . "Contos populares recolhidos por Aluísio de Almeida". Comunicação à Comissão Nacional de Folclore do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura. Doc. 183, 16 de maio de 1950)

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