No norte e no sul do Brasil, as festas de
trabalho, os jubileus da lavoura tinham sobre a fronte grinaldas frescas e odoríferas,
entramadas ao gosto dos estilos selvagens.
Ao arpejos bárbaros da floresta, ao rumor sacrílego que acordava os ermos, os
fazendeiros, em suas casas de vivenda, faziam o cálculo sobre os proventos de suas
plantações e consideravam no dia da inauguração da moagem, traçando planos alegres e
realizáveis.
No Rio Bonito, em Capivari, em Boa Esperança, em Macacu e em toda a província do Rio de
Janeiro, a começar de abril, alguma coisa de estranho se passava nas fazendas desusada
atividade punha em alvoroço foreiros e escravos.
A gente da redondeza, convidada ou não, dispunha-se a comparecer à festa anual agrícola
do mês de maio, época em que todos os engenhos principiavam a funcionar.
Abandonando por toda a duração da moagem as suas magníficas e confortáveis moradias,
alguns senhores, acompanhados por vezes da família, vinham residir nos engenhos,
fiscalizando diretamente o trabalho.
Desde maio, porém, as enxadas e as foices dos escravos lampejavam ao sol, procedendo-se
à capina geral do terreno e de suas proximidades, que abrangiam o inteiro perímetro, o
quadrilátero extenso ocupado pelas construções principais e rústicas da grande
propriedade.
A casa de vivenda, a do engenho, os paióis e depósitos, as senzalas extensas eram
caiadas e limpas; a escravatura recebia timões de baeta azul e roupa de algodão para o
gasto do ano; e, de oito a quinze dias antes da moagem, procedia-se ao corte das canas,
que chegavam em carros de bois e ficavam sob os alpendres ou em depósitos especiais.
Quem passava então pela estrada desfrutava um espetáculo aprazível, encantava-se diante
de uma paisagem larga e pitoresca, própria do nosso clima e do nosso meio, e de acordo
com o desenvolvimento relativo dos nossos proprietários rurais.
Aninhada debaixo de um céu sem névoas e quente de esplendores, a bela casa de vivenda do
fazendeiro opulento dominava em uma eminência, elegante e avarandada, sobre um terreno
amplo, arborizado e varrido.
À curta distância, a fábrica do açúcar levantava-se vasta, da altura de dois andares
comumente, com suas varandas compridas, com seus alpendres contornantes.
Os paióis e as senzalas, em planos variáveis, acentuavam o tom característicos desses
núcleos agrícolas, outrora tão florescentes e hoje quase infecundos.
Pontes atravessando córregos, rebanhos e bois nas pastagens, casinhas de sapé, ranchos
dispersos, e uma ou outra senzala de cujo teto um esteio rompente se abria em ramos e
flores, - eis mais ou menos um quadro das nossas antigas fazendas, monótonas até o
enfado, à força de serem semelhantes.
Desde escura madrugada, entretanto, a vida nelas se reanimava, especialmente no tempo da
moagem e da safra.
Os escravos, saudados pelos cânticos das aves, pelo murmúrio dos rios, pelo espadanar
das cascatas, surpreendiam as auroras do sol que os encontravam no eito; os carreiros
seguiam à frente dos tardos bois, ao guincho dos carros; e os cantos dos negros em turmas
eram acompanhados em surdina pelo cicio dos canaviais às virações da matina:
'Stava na praia escrevendo
Quando o vapô atirou:
Foi os olhos mais bonitos
Que as ondias do mar levou!...
Minha senhora, me venda,
Aproveite seu dinheiro;
Depois não venha dizendo
Qu'eu fugi do cativeiro.
Eram os pobres escravos no Norte que carpiam as suas saudades! Era um pensamento talvez de
suicídio, uma idéia de morte tarjando de luto a esplêndida aquarela da natureza!...
Mas o dia da festa marcado, e com antecedência ultimavam-se os aprestos.
De véspera, a casa do engenho e mais construções adornavam-se, interna e externamente,
com troféus de pendões vegetais entremeados de flores selvagens, de ramagens e palmas,
de festões e arcadas de folhagem; no terreiro, as bandeiras, colocadas de distância em
distância, flutuavam nas extremidades dos bambus flexíveis e verdes; e aqui e ali os
moleques e negrinhas, saltando e brincando, olhando espantados, chusmavam em algazarra,
aqueles com a camisa aberta ao peito, mostrando ao colo uma figuinha suspensa, um bentinho
ou um rosário da devoção materna.
Matava-se um boi para o banquete dos senhores e ração dos escravos, carneiros, galinhas,
etc.; incumbindo-se a dona da casa, a família do agricultor, da direção das escravas
doceiras, das que arranjavam o necessário para os convidados e hóspedes.
De véspera também, já se achavam na fazenda os compadres e os amigos do estimado
senhor, que tinham vindo de longe com suas famílias.
Os foreiros ajudavam os escravos nos preparativos, a música se achava avisada, e os
foguetes, comprados na cidade, enchiam o recanto de um aposento, para a ocasião oportuna.
As moças românticas, impressionáveis e meigas, sonhavam com os primos bacharéis; os
coronéis da guarda nacional conversariam sobre eleições; e as influências locais não
perderiam a vasa para a cabala, para apresentar o seu candidato no futuro pleito
eleitoral.
No dia da moagem, apenas a luz da manhã estava em casa de Cristo, lá vinham convidados a
cavalo, famílias em carros de bois com toldos de esteiras ou de chitão lavrado,
indivíduos de toda a casta, muitos dos quais descalços, trazendo ao ombro os sapatos
enfiados no ipê.
Na varanda de sua habitação, o fazendeiro e a família desde muito cedo, lobrigavam os
convidados que apontavam ao longe.
Os fazendeiros com seu rodaque [1] e calça de brim pardo, seu chapéu-do-chile ou manilha, pondo ao lado a
xícara do café, estendia a mão sobre a testa, para melhor distinguir os vultos; a
mulher e as meninas, penteadas e prontas, cresciam da ponta dos pés, alongavam os
pescoço, aventurando nome, recordando apelidos.
E os primeiros chegavam, os escravos tomavam os animais, as famílias apeavam. O
fazendeiro e os seus os recebiam, entre gracejos e abraços, riso franco,
proporcionando-lhes hospitalidade proverbial e antiga.
Até alto dia era a mesma lufa-lufa: progressivo concurso de povo, a alegria mais sincera,
os deveres obsequiosos mais distintos...
O bando de moças, as gentis roceiras, tagarelavam, riam de qualquer coisa, fazendo
contraste com as que não se levantavam das cadeiras, conservando-se mudas, apalermadas.
As moças da corte e as mais interessantes e inteligentes da freguesia, falavam em namoro
com os rapazes, recitavam a balada da Moreninha do Dr. Macedo,[2] tinham de cor as poesias
sentimentais dos poetas do tempo.
A fazendeira, com seu vestido de musselina, trepa-moleque, [3] e lencinho ao pescoço,
desfazia-se em delicadezas, em oferecimentos aos convidados, procurando-lhes o conforto, a
sem-cerimônia mais cordial.
Nesse interim a casa da moenda acabava-se de armar, os escravos estavam a postos,
os caldeirões areados e espelhantes, o forno provido de lenha.
A um momento inesperado, a música da vila tocava ao longe, assomando em um carro de bois,
todo enfeitado de flores e ramagens, trazendo o guia o chapéu circulado de flores do
mato, lindas e vistosas.
O prazer que, com as harmonias, mesmo longínquas, se espalhava na fazenda, era
indizível: todos corriam às varandas; as mucamas e as crias desciam à porta; os
foreiros saíam de suas casas de sapé, chegando-se ao terreiro.
Apesar do prodigioso número de convidados, da parentela sem fim dos donos da casa, do
povo que se reunia em festivo convívio, uma nota discordante se apercebia, causando geral
inquietação e sensível impaciência: a ausência do vigário!
Era da tradição que, não se benzendo o engenho em cada safra do ano, tudo corria mal:
os escravos morriam ou decepavam as mãos, nas moendas; um desastre qualquer pertubava a
paz da família; um acontecimento fatal punha em atraso a vida do fazendeiro.
No pleno domínio desta superstição, que acreditamos uma verdade, o não comparecimento
do vigário importava a transferência da festa, ou a procura de outro sacerdote, que nem
sempre era fácil, concorrendo esse expediente, embora autorizado, para ressentimentos da
parte daquele, o que cumpria evitar.
Como é de prever, as moças faziam promessas, acendia a Nossa Senhora, pediam a todos os
santos para que nada lhe tivesse acontecido, sendo logo enviados pajens a cavalo à
freguesia, a fim de indagar o motivo da tardança.
E a música descia... E de um dos carros cobertos de colchas de chita, que se encaminhavam
após, apeava-se o folgazão e nédio vigário, trazendo consigo a esparramada comadre
e a récua de afilhados...
A recepção, debaixo de vivas, tornava-se estrepitosa; e o velho fazendeiro e sua mulher,
as pessoas mais gradas e os primeiros personagens políticos da localidade batiam palmas,
dirigiam-se a ele, aos apertos de mão, aos abraços, em expansivas manifestações.
Pouco depois, o vigário e seu sacristão tiravam de uma caixa de folha-de-flandres os
paramentos, a gente toda seguia para a missa e depois para a casa da moenda, formando
derradeiro grupo o fazendeiro, o vigário, o juiz do termo, o juiz de paz, e suas
competentes famílias.
Uma vez na casa do engenho, a gente toda ficava em baixo, na grande área ocupada pela
almanjarra, as caldeiras, os alambiques, os cochos, o forno, etc.. indispensáveis ao
fabrico do açúcar e da aguardente.
O vigário de batina, sobrepeliz e estola, tendo ao lado o sacristão, abria o livro
sagrado, ao passo que muitos recebiam tochas enfeitadas e acesas.
As moças e as matronas, em fileiras sucessivas, com seu séquito de belas mucamas,
assistiam igualmente ao ato, vestidas à moda, sobresssaindo em suas vestimentas e nos
cabelos lacinhos de fitas verdes e amarelas, flores nativas.
E o vigário começava a benção do engenho, finda a qual fechava o livro e afastava-se,
cedendo espaço à cerimônia de inauguração. [4]
A música, em desafinação constante, atroadora a fazer despertar um cataléptico,
passava da celebração religiosa para festa profana, ao estouro dos foguetes que atacavam
lá fora, das girândolas que sibilavam intermitentes até a conclusão da cerimônia.
Nessa ocasião, muitos dos circunstantes, homens, senhoras e crianças, subiam para as
varandas interiores, aparatosamente ornadas, e dali gozavam da festa da moagem,
propriamente dita, da inauguração anual dos trabalhos da fábrica, segundo o ritual
observado por nossos lavradores.
E as moças aos cochichos, às risadinhas, nos requebros desconfiados, adiantavam-se para
a almanjarra, passando a cada uma delas sua vistosa mucama um feixinho de canas raspadas,
presas por laços de fitas, que eram delicada e cuidadosamente colocadas por suas senhoras
dentro dos cilindros da moenda.
A música atordoava ainda mais, as palmas choviam, e um molequinho, de roupa bonita e
chapéu entremeado de folhas e flores, trepava na boléia fixa a uma das hastes do
triângulo da almanjarra, tocava a parelha de burros, fazendo girar todo o maquinismo.
Os escravos empregados neste trabalho debandavam, cada qual para seu mister especial, com
grandes escumadeiras e outros utensílios da indústria.
Então o vigário, o fazendeiro, o madamismo e mais circunstantes, que presidiram à
inauguração, reuniam-se aos convidados que se achavam nas varandas, seguindo todos em
ruidosa folia para a casa da vivenda, onde lauta refeição, opípara merenda era servida,
trocando-se brindes calorosos, entusiáticos.
E o engenho moía ativíssimo, esgotado o primeiro caldo, lavados os condutores.
Em seguida, em riquíssimos bules de prata, levavam as escravas saboroso caldo de cana,
geralmente apreciado, sobretudo por ser o primeiro da moagem.
Toda a escravatura, os foreiros em tropa e os conhecidos destes, apreciavam, no terreiro e
na fábrica, o caldo que se distribuía a granel, em cuias de cabaço amargoso, ao usa da
roça.
Nesse dia, à exceção da gente de engenho, ninguém mais trabalhava: os escravos
batucavam depois do jantar; os foreiros dançavam e cantavam; os senhores-moços
presenteavam as crioulas e mulatas de estimação com belos cortes de vestidos de chita ou
de cassa, fios de corais, brincos de ouros, etc.
Desde o anoitecer a música preludiava o baile, que começava às nove horas e findava de
manhã.
Aos que haviam assistido à inauguração era de costume mandar-se potes de melado e
rapadura, como lembrança da festa.
E enquanto o baile estuava nos salões dos senhores, enquanto a sorte coroava de bens a
opulência, à luz fumarenta dos candeeiros do muro externo das senzalas, ao fogo de
pequenas fogueiras que ardiam tímidas, os escravos dançavam as suas danças, cantavam as
suas toadas, aos tinidos das violas, dos urucungos [5] e das marimbas, tangidas na
solidão:
A vida do preto escravo
É um pendão de penar:
Trabalhando todo dia
Sem noite pra descansar.
E um morador, sapateando na chula animada e fervente:
A cachaça é a moça branca
Filha de pardo trigueiro...
Quem bebe muita cachaça
Não pode ajuntar dinheiro.
Cana verde, cana verde,
Cana do canavial;
Eu já fui mestre d'açúcar,
Hoje sou oficial.
******
Uma semana mais tarde tudo estava mudado. A fazenda adormecia à meia-noite, tomava um
aspecto sinistro e aterrador.
Os vagalumes faiscavam no campo e nos tetos das senzalas; a fornalha do engenho, como o
olho esbrazeado de um demônio, golfejava chamas nas trevas que fugiam espavoridas; e o
silêncio, pesado como uma mortalha, caía sobre a planície e a colina.
De espaço a espaço, porém, uma melodia em voz rouca, monótona e cadenciada como o
coaxar dos remos na travessia das canoas, feria o ar, despertando os ecos dos ermos...
Era um velho africano, sonolento e alquebrado, que, sentado na almanjarra, tocava os
animais que a rodeavam lerdos e fatigados:
Êh-bango!
Bango-êh!
Caxinguelê...
Come coco no cocá...
Tango, arirá...
Tango, arirá...
E o chicote estalava, completando a onomatopéia desta toada, que terminava silábica,
pausada, admirativa e estacando de súbito:
Êh-ah!...
Uma vez inaugurada a moagem, os escravos trabalhavam dia e noite, em turmas alternadas,
mas sem parar.
O tempo da safra durava por meses.
Notas:
[1] Rodaque
era um paletó comprido, quase atingindo aos joelhos, de forma arrendondada, feito com
lila, lã macia e lustrosa, ou fazenda espessa e fina.
[2] Joaquim
Manuel de Macedo nasceu em Itaboraí, província do Rio de Janeiro, a 24 de junho de 1820,
falecendo na mesma cidade, a 11 de abril de 1882. Médico, foi professor do Colégio Dom
Pedro II, deputado-geral, jornalista, historiador e um dos mais populares romancistas de
sua época. Impossível seria encontrar quem soubesse ler, ignorando A moreninha,
1844, ou O moço louro, 1845.
[3]
Trepa-moleque ou Tapa-Cristo era um pente de tartaruga, alguns finamente incrustados de
ouro, espécie de peineta espanhola, indo até trinta centimetros de altura. Quem
assistia uma Missa por detrás de um desses monumentos não via Jesus Cristo nem mesmo na
hora da "elevação".
[4] Henry
Koster, que foi senhor-de-engenho no Jaguaribe, Pernambuco, descreve essa cerimônia que o
encantou, em 1812. Eram indispensáveis, no início das safras. Dizia-se botada do
engenho. Em Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro foram verdadeiras festas, com
assistência ilustre. Em 1847, o Imperador D. Pedro II tomou parte da botada de um
engenho, do fazendeiro Neto da Cruz, depois Barão de Muriaé, - Wanderley Pinto, Salões
e damas do segundo império, 112. Nos grandes engenhos pernambucanos e baianos a botada
era um motivo de alegria coletiva. Ver Júlio Belo, Memórias de um senhor de engenho,
Rio de Janeiro, 1938, 181. Raríssimo é o encontro da oração ritual para a benção do
engenho de açúcar, no começo da moagem. Devo ao padre Jorge O'Grady de Paiva uma cópia
encontrada em velhissímo missal. É, ou era assim: - Adjutorum nostrum in nomine
Domine. Qui fecit coelum et terram. Domine exaudi, etc. Dominus vobiscum. Oremos. Benedic
Domine, hunc locum, machinam vapore actam, vasa et omnia ad extrahendum, condesandumque
sacharum praeparata; benedic etiam hos arundineos, fructus; rege, guberna et serva omnes
hic ministrantes. Adesto, Domine, labori et industriae nostrae, ut largitatis tuae in hac
vita utentes donis tuo in altera humine et gaudeo frui perennites mereamur. Per Christum
Domini Nostrum. Amem. É, como se vê, uma benção contempôranea aos banguês
a motor, machinam vapore.
[5]
Urucungo, humbo, gobo, bucumbumba, ricungo, uricungo, ricumbo, berimbau-de-barriga,
rucumbo dos negros de Lunda, om-bulo-m 'bumba dos Va-Nianekas, arco musical, com um, dois
ou três fios, percutidos por uma vareta que tem, às vezes, um pequenino cabaço com
sementes secas.
Na extremidade inferior do urucungo há um meio cabaço (cuia) que serve de caixa de
ressonância, apoiando-se no peito ou no abdomen do executor. Produz um som monótono,
igual, profundamente acabrunhador e misterioso. Os padres A. Lange e Constantino tastevin,
La tribu des Va-Nyanekas, Corbeil, 1937, deram uma descrição completa de nosso
urucungo, como um dos instrumentos mais populares entre os negros de Angola. O urucungo ou
berimbau é o instrumento dos jogos de capoeiragem na Bahia. Mário de Andrade, Música
doce música, São Paulo, 1934, estudou o berimbau, mostrando a variedade dos
instrumentos sob esse mesmo nome, 117. Ver Artur Ramos, O Folk-Lore Negro no Brasil,
Rio de Janeiro, 1935, capítulo V, sobre os instrumentos afro-brasileiros, Renato Almeida,
História da música brasileira, berimbau, Luciano Gallet, Estudos de folclore,
Rio de Janeiro, 1934, p.59-61.
(MORAES FILHO, Melo. Festas
e tradições populares do Brasil)
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