Ir para a página principalRetornar para Festança

Outubro 2001
Ano III - nº 38

A FESTA DA MOAGEM
(Província do Rio)

No norte e no sul do Brasil, as festas de trabalho, os jubileus da lavoura tinham sobre a fronte grinaldas frescas e odoríferas, entramadas ao gosto dos estilos selvagens.

Ao arpejos bárbaros da floresta, ao rumor sacrílego que acordava os ermos, os fazendeiros, em suas casas de vivenda, faziam o cálculo sobre os proventos de suas plantações e consideravam no dia da inauguração da moagem, traçando planos alegres e realizáveis.

No Rio Bonito, em Capivari, em Boa Esperança, em Macacu e em toda a província do Rio de Janeiro, a começar de abril, alguma coisa de estranho se passava nas fazendas desusada atividade punha em alvoroço foreiros e escravos.

A gente da redondeza, convidada ou não, dispunha-se a comparecer à festa anual agrícola do mês de maio, época em que todos os engenhos principiavam a funcionar.

Abandonando por toda a duração da moagem as suas magníficas e confortáveis moradias, alguns senhores, acompanhados por vezes da família, vinham residir nos engenhos, fiscalizando diretamente o trabalho.

Desde maio, porém, as enxadas e as foices dos escravos lampejavam ao sol, procedendo-se à capina geral do terreno e de suas proximidades, que abrangiam o inteiro perímetro, o quadrilátero extenso ocupado pelas construções principais e rústicas da grande propriedade.

A casa de vivenda, a do engenho, os paióis e depósitos, as senzalas extensas eram caiadas e limpas; a escravatura recebia timões de baeta azul e roupa de algodão para o gasto do ano; e, de oito a quinze dias antes da moagem, procedia-se ao corte das canas, que chegavam em carros de bois e ficavam sob os alpendres ou em depósitos especiais.

Quem passava então pela estrada desfrutava um espetáculo aprazível, encantava-se diante de uma paisagem larga e pitoresca, própria do nosso clima e do nosso meio, e de acordo com o desenvolvimento relativo dos nossos proprietários rurais.

Aninhada debaixo de um céu sem névoas e quente de esplendores, a bela casa de vivenda do fazendeiro opulento dominava em uma eminência, elegante e avarandada, sobre um terreno amplo, arborizado e varrido.

À curta distância, a fábrica do açúcar levantava-se vasta, da altura de dois andares comumente, com suas varandas compridas, com seus alpendres contornantes.

Os paióis e as senzalas, em planos variáveis, acentuavam o tom característicos desses núcleos agrícolas, outrora tão florescentes e hoje quase infecundos.

Pontes atravessando córregos, rebanhos e bois nas pastagens, casinhas de sapé, ranchos dispersos, e uma ou outra senzala de cujo teto um esteio rompente se abria em ramos e flores, - eis mais ou menos um quadro das nossas antigas fazendas, monótonas até o enfado, à força de serem semelhantes.

Desde escura madrugada, entretanto, a vida nelas se reanimava, especialmente no tempo da moagem e da safra.

Os escravos, saudados pelos cânticos das aves, pelo murmúrio dos rios, pelo espadanar das cascatas, surpreendiam as auroras do sol que os encontravam no eito; os carreiros seguiam à frente dos tardos bois, ao guincho dos carros; e os cantos dos negros em turmas eram acompanhados em surdina pelo cicio dos canaviais às virações da matina:

'Stava na praia escrevendo
Quando o vapô atirou:
Foi os olhos mais bonitos
Que as ondias do mar levou!...

Minha senhora, me venda,
Aproveite seu dinheiro;
Depois não venha dizendo
Qu'eu fugi do cativeiro.

Eram os pobres escravos no Norte que carpiam as suas saudades! Era um pensamento talvez de suicídio, uma idéia de morte tarjando de luto a esplêndida aquarela da natureza!...

Mas o dia da festa marcado, e com antecedência ultimavam-se os aprestos.

De véspera, a casa do engenho e mais construções adornavam-se, interna e externamente, com troféus de pendões vegetais entremeados de flores selvagens, de ramagens e palmas, de festões e arcadas de folhagem; no terreiro, as bandeiras, colocadas de distância em distância, flutuavam nas extremidades dos bambus flexíveis e verdes; e aqui e ali os moleques e negrinhas, saltando e brincando, olhando espantados, chusmavam em algazarra, aqueles com a camisa aberta ao peito, mostrando ao colo uma figuinha suspensa, um bentinho ou um rosário da devoção materna.

Matava-se um boi para o banquete dos senhores e ração dos escravos, carneiros, galinhas, etc.; incumbindo-se a dona da casa, a família do agricultor, da direção das escravas doceiras, das que arranjavam o necessário para os convidados e hóspedes.

De véspera também, já se achavam na fazenda os compadres e os amigos do estimado senhor, que tinham vindo de longe com suas famílias.

Os foreiros ajudavam os escravos nos preparativos, a música se achava avisada, e os foguetes, comprados na cidade, enchiam o recanto de um aposento, para a ocasião oportuna.

As moças românticas, impressionáveis e meigas, sonhavam com os primos bacharéis; os coronéis da guarda nacional conversariam sobre eleições; e as influências locais não perderiam a vasa para a cabala, para apresentar o seu candidato no futuro pleito eleitoral.

No dia da moagem, apenas a luz da manhã estava em casa de Cristo, lá vinham convidados a cavalo, famílias em carros de bois com toldos de esteiras ou de chitão lavrado, indivíduos de toda a casta, muitos dos quais descalços, trazendo ao ombro os sapatos enfiados no ipê.

Na varanda de sua habitação, o fazendeiro e a família desde muito cedo, lobrigavam os convidados que apontavam ao longe.

Os fazendeiros com seu rodaque [1] e calça de brim pardo, seu chapéu-do-chile ou manilha, pondo ao lado a xícara do café, estendia a mão sobre a testa, para melhor distinguir os vultos; a mulher e as meninas, penteadas e prontas, cresciam da ponta dos pés, alongavam os pescoço, aventurando nome, recordando apelidos.

E os primeiros chegavam, os escravos tomavam os animais, as famílias apeavam. O fazendeiro e os seus os recebiam, entre gracejos e abraços, riso franco, proporcionando-lhes hospitalidade proverbial e antiga.

Até alto dia era a mesma lufa-lufa: progressivo concurso de povo, a alegria mais sincera, os deveres obsequiosos mais distintos...

O bando de moças, as gentis roceiras, tagarelavam, riam de qualquer coisa, fazendo contraste com as que não se levantavam das cadeiras, conservando-se mudas, apalermadas.

As moças da corte e as mais interessantes e inteligentes da freguesia, falavam em namoro com os rapazes, recitavam a balada da Moreninha do Dr. Macedo,[2] tinham de cor as poesias sentimentais dos poetas do tempo.

A fazendeira, com seu vestido de musselina, trepa-moleque, [3] e lencinho ao pescoço, desfazia-se em delicadezas, em oferecimentos aos convidados, procurando-lhes o conforto, a sem-cerimônia mais cordial.

Nesse interim a casa da moenda acabava-se de armar, os escravos estavam a postos, os caldeirões areados e espelhantes, o forno provido de lenha.

A um momento inesperado, a música da vila tocava ao longe, assomando em um carro de bois, todo enfeitado de flores e ramagens, trazendo o guia o chapéu circulado de flores do mato, lindas e vistosas.

O prazer que, com as harmonias, mesmo longínquas, se espalhava na fazenda, era indizível: todos corriam às varandas; as mucamas e as crias desciam à porta; os foreiros saíam de suas casas de sapé, chegando-se ao terreiro.

Apesar do prodigioso número de convidados, da parentela sem fim dos donos da casa, do povo que se reunia em festivo convívio, uma nota discordante se apercebia, causando geral inquietação e sensível impaciência: a ausência do vigário!

Era da tradição que, não se benzendo o engenho em cada safra do ano, tudo corria mal: os escravos morriam ou decepavam as mãos, nas moendas; um desastre qualquer pertubava a paz da família; um acontecimento fatal punha em atraso a vida do fazendeiro.

No pleno domínio desta superstição, que acreditamos uma verdade, o não comparecimento do vigário importava a transferência da festa, ou a procura de outro sacerdote, que nem sempre era fácil, concorrendo esse expediente, embora autorizado, para ressentimentos da parte daquele, o que cumpria evitar.

Como é de prever, as moças faziam promessas, acendia a Nossa Senhora, pediam a todos os santos para que nada lhe tivesse acontecido, sendo logo enviados pajens a cavalo à freguesia, a fim de indagar o motivo da tardança.

E a música descia... E de um dos carros cobertos de colchas de chita, que se encaminhavam após, apeava-se o folgazão e nédio vigário, trazendo consigo a esparramada comadre e a récua de afilhados...

A recepção, debaixo de vivas, tornava-se estrepitosa; e o velho fazendeiro e sua mulher, as pessoas mais gradas e os primeiros personagens políticos da localidade batiam palmas, dirigiam-se a ele, aos apertos de mão, aos abraços, em expansivas manifestações.

Pouco depois, o vigário e seu sacristão tiravam de uma caixa de folha-de-flandres os paramentos, a gente toda seguia para a missa e depois para a casa da moenda, formando derradeiro grupo o fazendeiro, o vigário, o juiz do termo, o juiz de paz, e suas competentes famílias.

Uma vez na casa do engenho, a gente toda ficava em baixo, na grande área ocupada pela almanjarra, as caldeiras, os alambiques, os cochos, o forno, etc.. indispensáveis ao fabrico do açúcar e da aguardente.

O vigário de batina, sobrepeliz e estola, tendo ao lado o sacristão, abria o livro sagrado, ao passo que muitos recebiam tochas enfeitadas e acesas.

As moças e as matronas, em fileiras sucessivas, com seu séquito de belas mucamas, assistiam igualmente ao ato, vestidas à moda, sobresssaindo em suas vestimentas e nos cabelos lacinhos de fitas verdes e amarelas, flores nativas.

E o vigário começava a benção do engenho, finda a qual fechava o livro e afastava-se, cedendo espaço à cerimônia de inauguração. [4]

A música, em desafinação constante, atroadora a fazer despertar um cataléptico, passava da celebração religiosa para festa profana, ao estouro dos foguetes que atacavam lá fora, das girândolas que sibilavam intermitentes até a conclusão da cerimônia.

Nessa ocasião, muitos dos circunstantes, homens, senhoras e crianças, subiam para as varandas interiores, aparatosamente ornadas, e dali gozavam da festa da moagem, propriamente dita, da inauguração anual dos trabalhos da fábrica, segundo o ritual observado por nossos lavradores.

E as moças aos cochichos, às risadinhas, nos requebros desconfiados, adiantavam-se para a almanjarra, passando a cada uma delas sua vistosa mucama um feixinho de canas raspadas, presas por laços de fitas, que eram delicada e cuidadosamente colocadas por suas senhoras dentro dos cilindros da moenda.

A música atordoava ainda mais, as palmas choviam, e um molequinho, de roupa bonita e chapéu entremeado de folhas e flores, trepava na boléia fixa a uma das hastes do triângulo da almanjarra, tocava a parelha de burros, fazendo girar todo o maquinismo.

Os escravos empregados neste trabalho debandavam, cada qual para seu mister especial, com grandes escumadeiras e outros utensílios da indústria.

Então o vigário, o fazendeiro, o madamismo e mais circunstantes, que presidiram à inauguração, reuniam-se aos convidados que se achavam nas varandas, seguindo todos em ruidosa folia para a casa da vivenda, onde lauta refeição, opípara merenda era servida, trocando-se brindes calorosos, entusiáticos.

E o engenho moía ativíssimo, esgotado o primeiro caldo, lavados os condutores.

Em seguida, em riquíssimos bules de prata, levavam as escravas saboroso caldo de cana, geralmente apreciado, sobretudo por ser o primeiro da moagem.

Toda a escravatura, os foreiros em tropa e os conhecidos destes, apreciavam, no terreiro e na fábrica, o caldo que se distribuía a granel, em cuias de cabaço amargoso, ao usa da roça.

Nesse dia, à exceção da gente de engenho, ninguém mais trabalhava: os escravos batucavam depois do jantar; os foreiros dançavam e cantavam; os senhores-moços presenteavam as crioulas e mulatas de estimação com belos cortes de vestidos de chita ou de cassa, fios de corais, brincos de ouros, etc.

Desde o anoitecer a música preludiava o baile, que começava às nove horas e findava de manhã.

Aos que haviam assistido à inauguração era de costume mandar-se potes de melado e rapadura, como lembrança da festa.

E enquanto o baile estuava nos salões dos senhores, enquanto a sorte coroava de bens a opulência, à luz fumarenta dos candeeiros do muro externo das senzalas, ao fogo de pequenas fogueiras que ardiam tímidas, os escravos dançavam as suas danças, cantavam as suas toadas, aos tinidos das violas, dos urucungos [5] e das marimbas, tangidas na solidão:

A vida do preto escravo
É um pendão de penar:
Trabalhando todo dia
Sem noite pra descansar.

E um morador, sapateando na chula animada e fervente:

A cachaça é a moça branca
Filha de pardo trigueiro...
Quem bebe muita cachaça
Não pode ajuntar dinheiro.

Cana verde, cana verde,
Cana do canavial;
Eu já fui mestre d'açúcar,
Hoje sou oficial.

******

Uma semana mais tarde tudo estava mudado. A fazenda adormecia à meia-noite, tomava um aspecto sinistro e aterrador.

Os vagalumes faiscavam no campo e nos tetos das senzalas; a fornalha do engenho, como o olho esbrazeado de um demônio, golfejava chamas nas trevas que fugiam espavoridas; e o silêncio, pesado como uma mortalha, caía sobre a planície e a colina.

De espaço a espaço, porém, uma melodia em voz rouca, monótona e cadenciada como o coaxar dos remos na travessia das canoas, feria o ar, despertando os ecos dos ermos...

Era um velho africano, sonolento e alquebrado, que, sentado na almanjarra, tocava os animais que a rodeavam lerdos e fatigados:

Êh-bango!
Bango-êh!
Caxinguelê...
Come coco no cocá...
Tango, arirá...
Tango, arirá...

E o chicote estalava, completando a onomatopéia desta toada, que terminava silábica, pausada, admirativa e estacando de súbito:

Êh-ah!...

Uma vez inaugurada a moagem, os escravos trabalhavam dia e noite, em turmas alternadas, mas sem parar.

O tempo da safra durava por meses.


Notas:

[1] Rodaque era um paletó comprido, quase atingindo aos joelhos, de forma arrendondada, feito com lila, lã macia e lustrosa, ou fazenda espessa e fina.

[2] Joaquim Manuel de Macedo nasceu em Itaboraí, província do Rio de Janeiro, a 24 de junho de 1820, falecendo na mesma cidade, a 11 de abril de 1882. Médico, foi professor do Colégio Dom Pedro II, deputado-geral, jornalista, historiador e um dos mais populares romancistas de sua época. Impossível seria encontrar quem soubesse ler, ignorando A moreninha, 1844, ou O moço louro, 1845.

[3] Trepa-moleque ou Tapa-Cristo era um pente de tartaruga, alguns finamente incrustados de ouro, espécie de peineta espanhola, indo até trinta centimetros de altura. Quem assistia uma Missa por detrás de um desses monumentos não via Jesus Cristo nem mesmo na hora da "elevação".

[4] Henry Koster, que foi senhor-de-engenho no Jaguaribe, Pernambuco, descreve essa cerimônia que o encantou, em 1812. Eram indispensáveis, no início das safras. Dizia-se botada do engenho. Em Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro foram verdadeiras festas, com assistência ilustre. Em 1847, o Imperador D. Pedro II tomou parte da botada de um engenho, do fazendeiro Neto da Cruz, depois Barão de Muriaé, - Wanderley Pinto, Salões e damas do segundo império, 112. Nos grandes engenhos pernambucanos e baianos a botada era um motivo de alegria coletiva. Ver Júlio Belo, Memórias de um senhor de engenho, Rio de Janeiro, 1938, 181. Raríssimo é o encontro da oração ritual para a benção do engenho de açúcar, no começo da moagem. Devo ao padre Jorge O'Grady de Paiva uma cópia encontrada em velhissímo missal. É, ou era assim: - Adjutorum nostrum in nomine Domine. Qui fecit coelum et terram. Domine exaudi, etc. Dominus vobiscum. Oremos. Benedic Domine, hunc locum, machinam vapore actam, vasa et omnia ad extrahendum, condesandumque sacharum praeparata; benedic etiam hos arundineos, fructus; rege, guberna et serva omnes hic ministrantes. Adesto, Domine, labori et industriae nostrae, ut largitatis tuae in hac vita utentes donis tuo in altera humine et gaudeo frui perennites mereamur. Per Christum Domini Nostrum. Amem. É, como se vê, uma benção contempôranea aos banguês a motor, machinam vapore.

[5] Urucungo, humbo, gobo, bucumbumba, ricungo, uricungo, ricumbo, berimbau-de-barriga, rucumbo dos negros de Lunda, om-bulo-m 'bumba dos Va-Nianekas, arco musical, com um, dois ou três fios, percutidos por uma vareta que tem, às vezes, um pequenino cabaço com sementes secas.
Na extremidade inferior do urucungo há um meio cabaço (cuia) que serve de caixa de ressonância, apoiando-se no peito ou no abdomen do executor. Produz um som monótono, igual, profundamente acabrunhador e misterioso. Os padres A. Lange e Constantino tastevin, La tribu des Va-Nyanekas, Corbeil, 1937, deram uma descrição completa de nosso urucungo, como um dos instrumentos mais populares entre os negros de Angola. O urucungo ou berimbau é o instrumento dos jogos de capoeiragem na Bahia. Mário de Andrade, Música doce música, São Paulo, 1934, estudou o berimbau, mostrando a variedade dos instrumentos sob esse mesmo nome, 117. Ver Artur Ramos, O Folk-Lore Negro no Brasil, Rio de Janeiro, 1935, capítulo V, sobre os instrumentos afro-brasileiros, Renato Almeida, História da música brasileira, berimbau, Luciano Gallet, Estudos de folclore, Rio de Janeiro, 1934, p.59-61.

(MORAES FILHO, Melo. Festas e tradições populares do Brasil)

Topo

Jangada Brasil © 2000