Outubro
2001
Ano III - nº 38 |
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Na cidade de Barra, Espírito Santo, há
uma festa curiosa dedicada a São Benedito. Estudou-a Guilherme Santos Neves. "A
festa é uma procissão, mas procissão diferente, sem santo nem andor, a não ser a
bandeira verde de São Benedito, conduzida por três moças da Serra. Milhares e milhares
de pessoas, homens e mulheres, velhos, moços e crianças, em grande parte descalços, de
vela na mão, segurando uma corda de longo comprimento, no cabo da qual se prende um
enorme barco de dois mastros, todo enfeitado de bandeirolas de papel de seda, e a ostentar
na proa outra bandeira com a efígie de São Benedito. Na popa, a bandeira brasileira. O
barco, armado sobre um carro de bois de duas rodas, conduz, deitado ao longo do convés, o
mastro consagrado a santo. Na canga do carro, à frente do barco, apinham-se seis a
oito devotos, a cumprir penosa promessa. Estes é que, de fato, num esforço tremendo que
lhes entumece os músculos, puxam e conduzem o grande barco. Atrás, e ao lado deste,
segurando-o com as mãos, outros muitos devotos do santo. Na esteira da
embarcação, a charanga desenvolve o seu repertório, ao som do qual dançam,
desenfreadamente, durante todo o desfile, grupos de homens e moleques. Essa dança,
isolada ou aos pares, deve ser uma forma de reverência ao santo do dia, espécie de
homenagem contrita, como aquela do pobre jogral de Nossa Senhora" (Folclore,
nº 3, Vitória, novembro-dezembro, 1949). Este mastro é levado até o pátio diante da
Matriz e ali chantado, com a bandeirola verde do santo, sob aplausos, cantos, gritos e a
trovoada dos foguetes estalantes.
É, do meu conhecimento, a única festa religiosa de caráter popular onde ocorre o barco,
sem que o santo seja protetor dos navegantes e nele viaje materialmente.
A menção histórica mais antiga do barco processional no Brasil registrou o padre
Fernão Cardim, narrando a festa de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens na cidade do
Salvador, a 21 de outubro de 1584. São Benedito ainda estava vivo. Faleceria cinco anos
depois.
Informa Fernão Cardim: - "Saiu na procissão uma nau a vela, por terra, mui formosa,
toda embandeirada, cheia de estandartes, e dentro dela iam as Onze Mil Virgens ricamente
vestidas, celebrando seu triunfo. De algumas janelas falaram a cidade, colégio, e uns
anjos todos mui ricamente vestidos. Da nau se dispararam alguns tiros de arcabuzes, e o
dia dantes houve danças e outras invenções devotas e curiosas. À tarde se celebrou o
martírio dentro da mesma nau, desceu uma nuvem dos Céus, e os mesmos anjos lhe fizeram
um devoto enterramento; a obra foi devota e alegre, concorreu toda a cidade por haver
jubileu e pregação (Tratados da terra e gente do Brasil).
As Onze Mil Virgens foram navegantes. Para São Benedito é que houve convergência local,
pois não é festejado desta forma noutra paragem do mundo católico. A barca aparece nas
procissões portuguesas, brasileiras, espanholas. italianas, no caráter de ex-voto, reminiscência
de naufrágio, pequenina embarcação conduzida pelos sobreviventes. Assim vemos nas
festas do Bom Jesus do Bomfim, na cidade do Salvador, e Nossa Senhora de Nazaré, em
Belém do Pará. Na Itália, onde os estudou Raffaele Corso, os carros votivos e triunfais
têm significação religiosa (ligada à navegação dos oragos) ou direitos comunais,
rememorando vitórias guerreiras. Alguns são naviformes.
Alguns etnógrafos se assombram quando ligamos o milênio aos fatos contemporâneos. O
"desafio" sertanejo que recebemos de Portugal é descendente direto do Canto
Amebeu, já secular no tempo de Teócríto, trezentos anos antes de Cristo. O carro de
bois de rodas maciças, idêntico aos 100.000 que gemem nas estradas do sertão
brasileiro, era o mesmo que C. Leonardo Woolley constatou em Ur, na Caldéia, trinta e
cinco séculos antes que Jesus Cristo nascesse. Berloques e pendentes, que vemos
presentemente nas moças das nossas cidades, são irmãos, de pai e mãe, dos amuletos em
osso, pedra, chifre, marfim, deparados nos períodos antecedentes ao Neolítico, no
epipaleolítico. Inteira e completamente semelhantes. São objetos recolhidos aos museus,
fotografados, identificados, catalogados. Não há negativa possível.
No Anubis e outros ensaios (Ed. Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1951) dediquei-me a
mostrar antiguidades assustadoras de gestos e hábitos dos nossos dias. Mesmo assim,
recebemos com desconfiança as novidades arcaicas. Nos domínios da mímica,
verificar-se-á a espantosa velhice dos nossos acenos convencionais.
O Barco de São Benedito, no Espírito Santo, é uma dessas presenças fabulosas.
Já vimos uma barca processional em 1584. Como teria começado a tradição que se firma
na cidade da Barra, sem o santo, sem andor e apenas com um mastro?
Naturalmente, a barca simbólica veio de Portugal, ligada ao culto popular dos oragos
protetores de viagens. Outrora, todos os deuses dedicados à navegação tinham festas
parecidas e recebiam promessas e ofertas. O homem quase nada mudou pelo lado de dentro.
A deusa egípcia Ísis tinha, na sua evocação de protetora das jornadas marítimas, o
título de Pelágia e na sua procissão aparecia a barca arrastada pelos devotos,
especialmente na ilha de Faros, tão fiel à deusa que esta também se chamava Fária. E,
como se sabe, a origem do "farol", por ter sido aceso na ilha de Faros, perto de
Alexandria, o mais antigo de que há notícia no mundo.
No carro-barca ia Ísis Pelágia, e não um símbolo ou objeto votivo como no carro-barca
do São Benedito capixaba. O culto de Ísis Pelágia derramou-se por todo o Mediterrâneo
e influiu decididamente para a mais tradicional, pomposa e querida festa das
comemorações populares da Grécia, a Panathénaia anual, em Atenas.
O carro-barco de Ísis Pelágia determinou o aparecimento do carro-barco de Atena-Minerva.
Era um carro em forma de navio, munido de um mastro, com uma verga. O peplo sagrado, que
ia ser entregue à deusa, fingia de vela. Não havia representação material além da
oferta. O povo, inicialmente, impelia o carro. Depois surgiram animais e, finalmente, um
maquinismo propulsor de que não há pormenor. Do Ceramico, no lugar Leokórion, até o
Pelasgikón, na entrada da Acrópole, onde se detinha a barca, o cortejo entrava,
processionalmente, pelos Propileus.
Não há testemunho da presença de carro em desfile processional anterior a Ísis
Pelágia em Alexandria e, subseqüentemente, Palas-Atena na Grécia. Ambos tinham forma de
barco e eram caraterísticos da solenidade, participando entusiasticamente o povo,
puxando, cantando, homenageando seus deuses daquele tempo passado.
É óbvio que o carro-nave surgiu de cultos marítimos do Mediterrâneo e constituiu
elemento posterior noutras festas pagãs, nas áreas de sua influência.
A Igreja Católica, realmente "católica", universal, acolheu todos os povos e
todos os ritos, desde que não violentassem a pureza dos dogmas essenciais. O carro
processional, como tantíssimos outros elementos milenares, veio na onda com os primeiros
fiéis, convertidos à Boa Nova, fiéis da região onde a barca era tradicional.
Não cabe aqui fixar a importância do barco, barca de São Pedro, nave, naveta, na
maravilhosa simbologia cristã. Contento-me em aproximar o carro-barco de São Benedito
com o carro-barca de Ísis Pelágia e o carro-barco panatenéico das festas gregas. Na Puxada
do mastro, na Barra, Espírito Santo, o carro-barco é indispensável e nenhum outro
elemento, pela sua expressão, encontro em qualquer região do Brasil ou da Península
Ibérica, caminho natural e lógico desse ritual popular que só resistiu no Espírito
Santo.
(Cascudo, Luís da Câmara. Superstições e costumes) |
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