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Outubro 2001
Ano III - nº 38

FESTINHA FAMILIAR NA CIDADE DE SALVADOR

O tradicional povo da Bahia, o folgazão de todos os tempos, sempre alegre, desde a comemoração dos fastos da história pátria até as provas inequívocas da hospitalidade, não perdia ocasião de manifestar contentamento, ainda nas coisas insignificantes, exceção feita no regime republicano, que criou a guarda cívica, para desrespeitar desde o mais alto funcionário ao mais simples dos cidadãos.

Facilmente se arranjava um divertimento: as promessas aos santos, batizados, ainda mesmo de bonecas, casamentos, aniversários, a chegada de um parente, as missas de Santo Antônio, Sã João, Cosme e Damião, Nossa Senhora da Conceição, as festas do Natal, Ano-Bom, Reis, prolongadas até o estúpido divertimento do entrudo, o qual fora substituído pelo Carnaval, em 1878, pelo então Chefe de Polícia, Conselheiro Carneiro da Rocha, que mandou distribuir máscaras e emprestar roupas do Teatro São João a quem quissesse se divertir-se. Os primeiros Clubes Carnavalescos eram denominados: Comilões e Saca-rolhas.

Os preços dos gêneros alimentares eram convidativos.

Assim era que uma quarta de farinha custava duzentos e quarenta réis; uma libra de carne verde, duzentos réis; e, depois do meio-dia, chamava-se "carne virada", ao preço de cento e vinte réis; carne de charque, uma libra, duzentos réis; um refresco - água, açúcar e limão ou vinagre, quarenta réis; um pão com manteiga e açúcar, quarenta réis.

Comprava-se na taberna: dez réis de cebola, dez réis de azeite doce e pedia-se um pouquinho de vinagre; um vintém de manteiga de porco, misturada com manteiga de vaca, acompanhada de uma cabeça de alho; um queijo flamengo, por seiscentos e quarenta réis; uma garrafa de cachaça, cento e quarenta réis; uma libra de açúcar refinado, por cento e sessenta réis; uma libra de presunto inglês, quinhentos e sessenta réis.

Na quitanda pedia-se: cinco réis de tomate e cinco réis de limão, com uma galha de coentro.

O vinho figueira custava duzentos réis a garrafa, e tudo o mais relativamente.

Com pouco dinheiro organizava-se uma função bem regular. Para os convites, bastava o influente encontrar um camarada, batia-lhe no ombro, dizendo: "Fulano, hoje te espero em casa, às tantas horas; não há festa, mas (citava um dos motivos acima) queremos nos divertir um pouco; não há cerimônia, vá de qualquer forma; (era o sonho democrático) arranje quem toque o violão, porque flauta e clarineta já temos".


****

Aproximava-se a hora da folgança; vem entrando os convidados; um dos mais desembaraçados ia oferecendo aos homens pequeno trago de genebra, ou aguardente, como aperitivo; às senhoras, porém, delicado cálice de licor.

Começa o jantar.

Num labirinto, come-se, bebe-se, conversa-se, distribuem-se as pilhérias mais picantes. Entrementes, um conviva levanta-se, pede a palavra para brindar a dona da casa, com as formalidades da época. Terminado o brinde antes de se beber, outro conviva pede um adendo: "Proponho que a saúde seja abrilhantada pela importância da pessoa, com uma canção". Os presentes tocam as facas nos bordos dos pratos e copos, acompanhando o cantor:

Papagaio, periquito,
Saracura, sabiá;
Todos comem, todos bebem
À saúde de Sinhá!

Olhem como bebem
As morenas do Brasil!
O vinho na garganta delas
Corre mais que num funil...

Todos:

Papagaio, periquito, etc.

- Peço a palavra, diz um conviva. - Vou brindar, meus senhores à cozinheira, pelo agradável prazer que nos está dando, com os seus apreciados quitutes.

- Pela ordem, exclama outro. O brinde da cozinheira há de ser concluído com uma canção, ei-la:

O vinho é coisa santa,
Nascida da cepa torta
Que a uns faz perder o tino.
A outros errar a porta.

Se tu és, vinho, robusto,
Eu sou quem te busco;
Se deres comigo na lama,
Bravos toré,
Darei contigo na cama.

- Para corroborar a fibra, exclama um exaltado, na saúde da cozinheira, me ouçam:

Amigos bebamos,
Bebamos com glória.
Que a nossa vitória
Vai amanhecer,
E quando à chamada
Rufar o tambor!
Corramos às armas
Deixemos amor.

Estribilho:

Amigos e companheiros,
Vira, vira, vira,
Companheiros, vira!
Oh, que belo marinheiro!
Como trepa tão ligeiro!

Quem for covarde
Saia da mesa,
Que a nossa empresa
Requer valor - (bis)

Vira, vira, vira, companheiros, vira.

Bebem todos alegremente, continua o alvoroço, diversos convivas falam ao mesmo tempo; os que estão sentados à mesa esquecem de que pessoas outras estão de pé, nos corredores; uns fumando, outros destorcendo o belo sexo; estes conversando política; aqueles fulos de fome.

O dono da casa anuncia que vai preparar a segunda mesa, sendo necessário que quem está servido ceda o lugar a outro.

****

Segunda mesa: sentam-se os que estavam de pé. Apresenta-se, na sala, a senhora dona Ambrosina, que vem conduzindo uma sua amiga, a qual, por cerimônia, não quer servir-se de coisa alguma. Levanta-se um cidadão e oferece o seu lugar, dizendo:

- Sente-se aqui, minha senhora.

- Não senhor, muito obrigada, eu fico para depois.

O cavalheiro continua firme na sua gentileza. Afinal, descobre-se o motivo da recusa de dona Ambrosina; é devido à falta de acomodoção para a sua amiga.

- Não seja esta a dúvida, retira-se um menino da mesa.

Isto feito, todos acomodados, apresentam-se os tocadores de flauta e violão.

- Peço a palavra, diz um conviva, para brindar dona Fulana, senhora respeitável, de altos dotes. Em resumo: Esta senhora está tocada do espírito de Deus, não mais pertence a humanidade. (Bravos, muito bem.)

O homem da flauta toca uma fantasia acompanhado pelo violão.

Depois, uma canção, acompanhada de instrumentos, inclusive castanholas; uma cançoneta, exibida no Teatro São João:

Dentista que for barbeiro,
Que se intitula doutor,
Sendo apenas, curandeiro,
Enganando o mundo inteiro,
Que tira dente sem dor!
Abre a boca... tá.

Pomada, pomada, pomada de primor,
Com ela se envolve o negócio do amor.

Rapaz solteiro ladinho
Que a casados faz visitas;
E se julga muito fino,
Se faz festas ao menino
Sendo a mãe moça bonita!
- Ó tão bonitinho!
- É todo o retrato do papai

Pomada, pomada, pomada de primor
Com ela se envolve o negócio do amor.

Bravos! muito bem! batem-se nos pratos, copos, etc.


(Querino, Manuel. Em Cascudo, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no Brasil.)

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